O homem com o trabalho mais difícil em Washington

Embaixador paquistanês tem tarefa mais árdua nos EUA

Jeffrey Goldberg, do Bloomberg News, O Estado de S.Paulo

31 de julho de 2011 | 00h00

Na imaginação de muitos, a vida de alguns membros do corpo diplomático em Washington deve ser um piquenique. Por exemplo, o embaixador de Barbados geralmente não enfrenta crises que ameacem sua carreira. O mesmo vale para o embaixador de Luxemburgo.

Outros têm missões mais espinhosas. O embaixador que tem o trabalho mais árduo em Washington é, sem sombra de dúvida, Husain Haqqani, do Paquistão, um diplomata astuto e preparado que enfrenta a tarefa quase impossível de representar um país que Washington considera, a um só tempo, um aliado crucial e um adversário traiçoeiro.

Um antigo islâmico radical que virou americanófilo pró-democracia, Haqqani é visto por muitos em seu próprio país como um lambe-botas dos americanos. Mas alguns de seus críticos, incluindo muitos generais paquistaneses, se beneficiam de seu trabalho como o mais efetivo intérprete e apologista de seu país. O mandato todo de Haqqani como embaixador tem sido um exercício de administração de crises. Mas a crise se tornou realmente perigosa desde que a equipe Seal da Marinha americana encontrou Osama bin Laden vivendo calmamente numa cidade não longe da capital do Paquistão e o matou em maio.

O Paquistão viu o ataque como uma violação de sua soberania; os EUA viram a presença de Bin Laden no Paquistão como, no mínimo, uma prova da falta de disposição para combater o terrorismo. Desde o ataque, os países se comportam como um casal prestes a se divorciar: os paquistaneses estão desmantelando redes da CIA, e os EUA suspenderam US$ 800 milhões de ajuda militar.

Visitei Haqqani recentemente e ele não discordou inteiramente quando sugeri que ele tem o pior emprego da cidade. "Pode chamá-lo de o pior, ou o melhor", ele disse. "Eu o vejo como o mais desafiador." Haqqani enfrenta um problema de duas camadas. Não só seu país é visto por muitos no Congresso como um Estado inimigo, como os paquistaneses em casa se tornaram ferozmente antiamericanos. De modo que Haqqani gasta tanto tempo explicando os EUA para o Paquistão quanto gasta explicando o Paquistão para os EUA.

Haqqani atribui à natureza democrática do Paquistão (ele tem falado como se os militares paquistaneses não tivessem poder de veto sobre decisões tomadas pelo governo civil) parte da guinada antiamericana do país. "Como somos uma democracia agora, a liderança política, embora mantenha boas relações com os EUA, não quer se arriscar demais politicamente pronunciando-se em favor dessa relação. De modo que eu termino tendo que falar em defesa dessa relação bilateral." Ele fez uma pausa, depois disse: "O que me causa problemas".

Emoções. Ele culpa também as políticas dos EUA. "Não se pode ter uma relação com um país apenas fazendo exigências dele. Os americanos precisam levar em conta que a emoção primária do lado paquistanês é abandono e um sentimento de que os EUA não nos respeitam." E prosseguiu: "Se a emoção primária de nosso lado é o abandono, a emoção primária no lado americano é o sentimento de engano." Sejam quais forem suas razões, é ilusório os paquistaneses pensarem nos EUA como um inimigo. Embora os EUA tenham sido às vezes um parceiro irresponsável, eles não são mais inimigos do Paquistão do que a Índia. Os EUA gastam bilhões de dólares em ajuda militar e civil para o Paquistão (boa parte dela negociada por Haqqani), e Washington gostaria muito de confiar na amizade do Paquistão.

Mas a opinião pública american está profundamente frustrada. Não é preciso acreditar que a cúpula militar paquistanesa sabia do esconderijo de Bin Laden em Abbottabad - eu não acredito - para ver o apoio do Paquistão a militantes que matam americanos no Afeganistão como a ação de um Estado hostil. E, com isso, Haqqani gasta a maior parte de seu tempo remendando a relação.

Seu trabalho ficou particularmente árduo na semana passada, quando surgiram acusações de que a agência de inteligência paquistanesa, ISI, estava secretamente canalizando dinheiro para candidatos políticos americanos para incliná-los para o lado paquistanês.

É porque o governo de Barack Obama e o Congresso gostam mais de Haqqani que de outras autoridades paquistanesas que ele pode ter a eficácia que tem. Mas há um limite para o que um simples embaixador pode fazer. O mais notável hoje na relação entre os EUA e o Paquistão é a fadiga causada pelas disfunções abrangentes entre eles. Haqqani vê essa fadiga por onde passa.

"Eu tento explicar esses países um ao outro. Às vezes encontro pessoas que dizem, "Oh, Deus, aí está um homem que tem uma explicação para tudo"." / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É CORRESPONDENTE NACIONAL PARA "THE ATLANTIC" E COLUNISTA DA "BLOOMBERG VIEW"

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.