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O homem e a mãe natureza

A mãe natureza nos tem enviado sinais. O ano de 2015 está a caminho de ser o mais quente da história. Há algumas semanas, o furacão Patrícia, o mais forte jamais registrado pelos meteorologistas, provocou ventos de 320 quilômetros por hora, um recorde. A temperatura média do Ártico subiu a um nível que duplicou a velocidade com que aumenta no resto do planeta. Isto provoca um degelo rápido: a cada dez anos a superfície gelada do Ártico diminui em torno de 9%. Por seu lado, o enorme degelo dos polos aumentará o nível do mar e poderá tornar impossível a vida em muitas cidades costeiras.

Moisés Naím*, O Estado de S. Paulo

02 de novembro de 2015 | 03h00

Segundo a ONU, o número de tormentas, inundações e ondas de calor hoje é cinco vezes maior do que em 1970. Embora parte deste aumento certamente se deva ao fato de que agora temos mais e melhores informações do que em 1970, todos os estudos evidenciam a maior frequência com que ocorrem fenômenos climáticos extremos: temperaturas extraordinariamente altas ou baixas, chuvas torrenciais, secas, incêndios florestais, etc.

Atualmente, o número de pessoas desalojadas de seus lares em razão de desastres climáticos é maior do que jamais se registrou e supera os deslocados por conflitos armados. Um recente estudo concluiu que, até o final deste século, algumas áreas povoadas do Golfo Pérsico “experimentarão níveis de calor e umidade intoleráveis para o ser humano”. O sudeste asiático também está exposto a esse tipo de ameaça. Nesses estudos, “intolerável” não significa “muito incômodo”, mas quer dizer que intempéries nesses lugares somente por algumas horas implicarão em risco de morte.

Depois de décadas de debates, os cientistas concluíram que essas mudanças climáticas se devem ao aumento das emissões de gases produzidos pela atividade humana. Ainda há céticos que duvidam disto, mas seu número é cada vez menor. E, em alguns casos, o ceticismo é nutrido por “estudos científicos” tendenciosos, financiados por empresas e interesses que ficarão prejudicados se o mundo decidir mudar a maneira como produz e consome energia. E, como sabemos, até agora o mundo não foi capaz de atuar de maneira eficaz para mudar a desastrosa trajetória em que está no tocante ao aquecimento global.

No entanto, essa inércia face a uma crise cada vez mais óbvia não se deve de maneira fundamental às manipulações de empresas e de países que querem proteger seus interesses às custas do bem de todos. Deve-se à natureza humana.

É muito difícil para nós mudar hábitos e costumes. Todas as investigações concluem que a maioria daqueles que iniciam uma dieta para emagrecer a abandonam antes de alcançar seu objetivo. Quem vem tentando deixar de fumar sabe como é difícil tamanha a dependência criada pela nicotina. 

Também sabemos que não há nada mais eficaz para mudar os hábitos, dietas e estilos de vida não saudáveis do que um enfarte que não leva à nossa morte. Em muitos casos, esse susto acarreta mudanças positivas que pareciam impossíveis. 

Cúpula de Paris. Será que precisamos de um enorme susto coletivo para mudar a maneira como nos relacionamos com nosso planeta? Os sinais que a natureza está nos enviando não são suficientes para induzir as necessárias mudanças de conduta? Até agora não. Mas tudo indica que não ocorrerá um enfarte climático que obrigará a humanidade a fazer uma dieta para a qual não está preparada.

A dependência que o mundo tem hoje do consumo de carbono é tão difícil de romper como a dependência do tabaco, do açúcar ou do álcool que afeta muitas pessoas. A maneira como iluminamos, aquecemos ou esfriamos nossas casas e escritórios, como nos transportamos, ou os produtos que consumimos - de plásticos a hambúrgueres - significam um alto consumo de carbono que, emitido para a atmosfera como CO2, contribui para esquentar o planeta e enlouquecer o clima.

Isto terá de mudar. Se fazer uma dieta é difícil para uma pessoa, mais difícil se torna quando muitos países devem fazê-la coletivamente. Alguns tentarão enganar. Outros pedirão que a dieta dos mais gordos seja mais severa do que a dos mais magros. E outros ainda exigirão que os países que contaminam o planeta desde a Revolução Industrial é que deverão fazer a dieta, não os que estão agora se industrializando.

A primeira conferência mundial sobre o meio ambiente ocorreu no Brasil, em 1992. A próxima será em Paris dentro de algumas semanas. Entre elas houve muitas outras reuniões e pouco avanço. A cúpula de Paris promete ser a que mais progresso registrará - e é provável.

Contundo, mesmo que tenha sucesso, as metas defendidas sobre a redução de emissões estão abaixo das necessárias para evitar que a temperatura aumente para níveis perigosos. Assim, a inércia da natureza humana continuará desafiando a mãe natureza. E não importa saber que, no final, a mãe natureza sempre vence.

*É escritor venezuelano e membro do Carnegie Endowment em Washington

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