O homem errado para comandar a CIA

É necessário alguém que rejeite as políticas fracassadas

É DOUTORANDO EM ESTUDOS SOBRE O ORIENTE MÉDIO EM PRINCETON, GREGORY D., JOHNSEN, THE NEW YORK TIMES, É DOUTORANDO EM ESTUDOS SOBRE O ORIENTE MÉDIO EM PRINCETON, GREGORY D., JOHNSEN, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2012 | 02h05

Com a demissão de David Petraeus, o presidente Barack Obama tem a oportunidade de indicar um novo diretor para a CIA. Infelizmente, um dos candidatos mais fortes ao cargo é John Brennan, que é em grande parte responsável pelas deficiências da atual estratégia antiterrorista dos EUA, excessivamente fundada em ataques com drones que com frequência matam civis e oferecem inúmeros novos recrutas à Al-Qaeda. Em vez de preservar a segurança dos americanos, essa estratégia os deixa mais expostos.

Apesar de todos os êxitos obtidos por Obama no front externo - do fim da guerra no Iraque à morte de Bin Laden -, o legado mais duradouro da política externa adotada pelos EUA nos últimos quatro anos pode acabar sendo uma abordagem contraterrorista que as autoridades americanas chamam de "o modelo do Iêmen": uma combinação de ataques com drones e incursões de forças especiais com o intuito de eliminar líderes da Al-Qaeda. Brennan é o principal assessor do presidente para questões de antiterrorismo e foi o idealizador do modelo. Num discurso recente, Brennan sustentou que há "poucas evidências de que essas ações estejam provocando um sentimento generalizado de antiamericanismo ou, por consequência, produzindo novas levas de recrutas para a AQPA" (Al-Qaeda na Península Arábica). A afirmação traz uma ingenuidade espantosa ou a intenção de enganar. Depoimentos de combatentes da Al-Qaeda e entrevistas realizadas em todo o país atestam que as vítimas civis dos ataques americanos são um fator decisivo para entender o crescimento da Al-Qaeda no Iêmen. Os EUA estão matando mulheres, crianças e membros de tribos importantes.

"Cada vez que matam um membro de uma tribo, fornecem mais combatentes para a Al-Qaeda", explicou-me um iemenita em Sanaa, a capital do Iêmen, no mês passado. Logo após um ataque que atingiu o alvo errado, outro iemenita disse à CNN: "Não me surpreenderia que esse último erro de um drones levasse cem jovens das tribos direto para as fileiras da Al-Qaeda". Em vez de premiar com uma promoção o autor de uma estratégia ruim, precisamos ter na CIA um diretor que interrompa a progressiva militarização da agência, devolvendo-a àquilo que ela faz de melhor: o levantamento e a coleta de informações sigilosas por meio de contatos interpessoais. A CIA é uma agência de espionagem, não uma versão light do Comando Conjunto de Operações Especiais. E enquanto os EUA não vencerem a guerra de inteligência, os mísseis continuarão a atingir os alvos errados.

George W. Bush promoveu duas invasões territoriais de grande porte e Barack Obama tentou travar diversas guerras menores. Nenhuma das duas estratégias deu certo. No Iêmen, que tem funcionado como laboratório para as "guerras secretas" de Obama, a AQPA tinha entre 200 e 300 combatentes. Hoje, o Departamento de Estado dos EUA estima que o número de militantes da organização está na casa dos milhares. Desde 2009, a AQPA tentou realizar três atentados em solo americano, e quase atingiu seu objetivo em 25 de dezembro daquele ano, quando um homem-bomba por pouco não conseguiu derrubar um avião que sobrevoava a cidade de Detroit. Quando tentar de novo - e vai tentar - o grupo terá fileiras muito mais fartas e sortidas para recrutar os responsáveis por executar a missão.

Não é de surpreender que o governo negue que sua política exacerbe o problema. Em junho de 2011, Brennan declarou que "não houve uma única morte colateral, graças à proficiência excepcional, à precisão dos recursos que conseguimos desenvolver". A afirmação foi feita quase exatamente um ano depois que um ataque mal executado com um drone matou por engano um vice-governador e quatro de seus seguranças.

Sob a orientação de Brennan, os EUA também adotaram um método controvertido para determinar o número de civis mortos em suas ações, incluindo na categoria de combatentes todos os indivíduos do sexo masculino com idade para pegar em armas. Isso significa que Abdulrahman al-Awlaki, um americano de 16 anos morto por um drone em outubro, foi qualificado como terrorista, embora existam evidências de que era apenas um adolescente tímido. Seu azar foi ser filho de Anwar al-Awlaki, que tinha sido morto por mísseis americanos duas semanas antes.

Os ataques que Obama determina por solicitação de Brennan com frequência causam vítimas civis. A saída de Petraeus dá a Obama a oportunidade de interromper o lento processo de transformação da CIA numa organização paramilitar, pondo-a nos eixos de novo. No entanto, todos os avanços tecnológicos conquistados em uma década de confrontos com a Al-Qaeda, os EUA ainda precisam dos velhos truques aprendidos na época em que não havia satélites espiões nem drones. / TRADUÇÃO DE ALEXANDRE HUBNER

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