O homem novo, o homem honrado

O maior pesadelo de muitos cubanos é acabar em Villa Marista, onde estão os calabouços mais temidos de todo país. Villa Marista é o principal centro de operações do Ministério do Interior de Cuba. Sua enorme estrutura foi construída para abrigar um colégio, mas desde 1963 ela tornou-se a prisão mais temida do país. Se no princípio da revolução a ideia era "transformar hotéis em escolas", no caso desse complexo de edifícios ocorreu exatamente o contrário.

Yoani Sánchez, O Estado de S.Paulo

10 de junho de 2012 | 03h08

O maior pesadelo de muitos cubanos é acabar numa das celas dessa Lubianka crioula, ficar sob a lâmpada da sala de interrogatório. Poucos, muito poucos, conseguem resistir à pressão psicológica exercida pelos oficiais, treinados nos duros métodos da KGB e da Stasi alemã. Todo o projeto - com grandes corredores, beliches de metal frio e calabouços - foi concebido para dobrar e fazer falar até os mais destemidos. Poderíamos pensar que só há espaço atrás das suas grades para opositores ou desafetos do sistema, mas a cada dia que passa a prisão acolhe mais e mais pessoas investigadas por corrupção e desvio de recursos.

Quando vários ônibus chegam a um bairro, acompanhados de carros do Departamento Técnico de Investigação, os vizinhos já sabem o que vai acontecer. Muito provavelmente a temida comitiva estacionará na frente de alguma casa recém-pintada, com muro perimetral e janelas de vidro. Os homens uniformizados entrarão e realizarão um registro minucioso para depois levar - algemado e à vista dos curiosos - o apavorado administrador de alguma corporação ou o assustado gerente de uma empresa.

Em seguida o detido é levado para Villa Marista, onde passará semanas incomunicável e sem direito a advogado. Sua família não poderá vê-lo, apenas levar sua escova de dentes e os medicamentos que ele não pode deixar de tomar. Nem os estrangeiros se salvam desses sustos, como se verificou no caso envolvendo executivos britânicos da empresa Coral Capital Group, presos por suposto suborno quando trabalhavam na construção de um campo de golfe.

Outro caso alarmante foi o de dois irmãos chilenos, Max e Marcel Marambio, que fugiram para o seu país depois de serem acusados de corrupção, fraudes e falsificação de documentos bancários na administração da empresa de alimentos Río Zaza.

Estratégia. A cruzada contra a corrupção lançada por Raúl Castro tem por mira aqueles que se acreditavam protegidos pelo descontrole e a pouca vontade política para acabar com as ilegalidades. As investidas chegam à porta dos acomodados caciques da construção, poderosos diretores que administravam à sua vontade a importação e outros que estavam enchendo os bolsos operando no setor de hotelaria.

Apenas escapam do tribunal os que pertencem ao núcleo duro do governo. Ter participado nas lutas de Sierra Maestra ou dos primeiros momentos do processo revolucionário hoje é a melhor proteção para não acabar no cárcere. Até a própria controladora-geral da República, Gladys Bejarano, se detém, dá passos atrás, quando algum fio da madeixa da corrupção chega muito alto.

Esses empresários desonestos acumulam símbolos de status, que vão desde presentear suas amantes com casa e carros até pagar os estudos dos filhos delas em universidades estrangeiras. Não se parecem nada com o que foram um dia, já não bebem rum, mas uísque ou vinho, o salmão substituiu a carne de porco em seus pratos. Ao assumirem seus cargos reiteravam um férreo discurso de austeridade e disciplina, mas hoje coçam a barriga enquanto fumam um charuto.

Com o tempo foram enriquecendo e acreditando que os contatos com empresas estrangeiras ou as viagens comerciais pelo mundo eram garantia suficiente de impunidade. Uma boa parte deles nasceu depois de 1959 e só conhece as normas do mercado pelos conceitos pervertidos a respeito delas encontrados nos livros de economia socialista e comunismo científico. Foram moldados para se tornarem "um homem novo", mas no final nem mesmo chegaram a se tornar um "homem de honra", livres do flagelo do roubo e da tentação do desfalque. Agora estão caindo, com medo em alguma cela da Villa Marista, confessam suas transgressões sob a lâmpada incandescente de uma sala de interrogatório.

Fora, distante do temido quartel-general do Ministério do Interior, a trama da corrupção se refaz, volta a ser tecida. Aguarda, escondida, que passem os momentos mais difíceis para se lançar - com mais força - sobre a cobiçada torta cubana. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO  

É JORNALISTA CUBANA, AUTORA DO BLOG GENERACIÓN Y

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