O homem que marcou Cingapura

Nos últimos dias de vida, ex-premiê diz não se arrepender de ações que tornaram o país um modelo de crescimento

SETH MYDANS, O Estado de S.Paulo

19 de setembro de 2010 | 00h00

"Quando cairá a última folha?", perguntou Lee Kuan Yew, o homem que fez Cingapura à sua própria imagem, rigorosa e fria, ao aproximar-se do seu 87.º aniversário, ao contemplar a idade, a doença e a perda.

"Posso sentir o declínio gradativo da energia e da vitalidade", disse Lee, o homem cujo "modelo Cingapura" de crescimento econômico e de rígido controle social tornou-se uma das figuras políticas mais influentes da Ásia. "Digo, em geral, ano a ano, quando você sabe que não é mais o mesmo do ano anterior. Mas a vida é assim mesmo."

Numa longa entrevista, de profunda e inusitada introspecção, na semana passada, ele conversou sobre a dor e o sofrimento da idade e o refrigério da meditação, sobre sua luta para construir uma nação pujante nesta ilha pobre de recursos, e sua preocupação com a possibilidade de a nova geração considerar estas realizações garantidas para sempre e deixar que se percam.

Vestindo roupas informais, com um casaco impermeável e tênis de corrida, em seu escritório amplo e luminoso, Lee é ainda muito lúcido, mas visivelmente envelhecido e um pouco curvo. Deixou de exercer o controle diário, mas, enquanto viver, ele se manterá a figura dominante da nação que criou.

Nestes dias finais, disse, sua vida foi entristecida pela doença da mulher e companheira durante 61 anos, forçada a permanecer no leito e incapaz de falar depois de uma série de derrames.

"Tento me manter ocupado", contou. "Mas de vez em quando, nos momentos de ócio, minha mente retorna aos dias felizes em que vivemos juntos."

Agnóstico e pragmático em sua visão de vida, falou com uma espécie de inveja das pessoas que encontram força e consolo na religião. "Como poderei encontrar consolo?", perguntou. "Procuro dizer a mim mesmo: a vida é assim."

"Não sei o que virá depois disso", acrescentou. "Ninguém nunca voltou."

Primeiro-ministro de Cingapura desde sua fundação, em 1965, até deixar o cargo, em 1990, Lee construiu o que define como "um oásis de primeiro mundo, em uma região de Terceiro Mundo". Elogiado pela eficiência e incorruptibilidade do seu governo, mas acusado pelos grupos de defesa dos direitos humanos de restringir as liberdades políticas e de intimidar os adversários por meio de ações por difamação.

Agora, com o título de ministro mentor, é uma poderosa presença no governo liderado por seu filho, o premiê Lee Hsien Loong. A questão que paira sobre Cingapura hoje é quanto tempo e de que forma seu modelo permanecerá quando ele se for.

Lee combate o declínio da idade praticando natação, ciclismo e com massagens e, o que é talvez mais importante, com uma intensa agenda diária de reuniões, discursos e conferências em Cingapura e no exterior. "Sei que, se parar, o declínio virá rapidamente", afirmou. Quando, após uma hora, a conversa passou da introspecção para a geopolítica, a idade pareceu desaparecer e ele assumiu novamente sua postura vigorosa e enérgica, com uma visão de mundo ainda muito ampla, facetada e dominante.

Mas observou que, às vezes, olha com desconfiança esta luta contra a idade, que considera "um absurdo".

"Estou chegando aos 87 anos tentando me manter em forma, apresentar uma figura vigorosa, e isso exige esforço; será que vale a pena?", perguntou. "Dou risada de mim por tentar manter uma posição corajosa. Está se tornando um hábito. Vou levando."

Os momentos mais difíceis são no final de cada dia, quando senta à cabeceira da mulher, Kwa Geok Choo, de 89 anos, que há mais de dois anos não consegue se mexer nem falar. Ela sempre esteve ao seu lado, foi sua confidente e conselheira, desde que estudavam direito em Londres.

"Entende quando falo com ela, como faço todas as noites", disse. "Ela fica acordada me esperando; conto como foi meu dia de trabalho, leio seus poemas favoritos."

Ultimamente, esteve se interessando pelos votos que os noivos católicos fazem ao casar, e uma frase chamou a sua atenção: "Para amar, cuidar e proteger, na doença e na saúde, na alegria e na tristeza, até que a morte nos separe."

"Disse a ela: "gostaria de que você ficasse comigo o máximo que eu puder". Mas é a vida. Ela compreendeu." E acrescentou: "Não sei quem irá primeiro, se ela ou eu."

À noite, ouvindo os ruídos do desconforto da esposa no quarto ao lado, ele se acalma com 20 minutos de meditação, recitando um mantra que aprendeu com um amigo cristão: "Ma-Ra-Na-Tha". A frase, em aramaico, está no final da Primeira Epístola de São Paulo aos Coríntios, e pode ser traduzida de várias maneiras. Lee disse que o sentido que lhe foi transmitido é "Vem, Senhor Jesus!", e, embora ele não creia, acha que os sons têm o poder de acalmá-lo.

"Você se sente invadir por certa tranquilidade, deixa de lado as pressões e as preocupações do dia. Então o sono é menos problemático."

Ele menosprezou as palavras de uma famosa escritora e crítica social de Cingapura, Catherine Lim, que o definiu como um homem que tem "uma atitude autoritária, prática, de escassa utilidade para o sentimento".

"É uma romancista! Por isso, simplifica o caráter de uma pessoa, fazendo o que considera uma caricatura gráfica de mim." Mas será que alguém é tão simples ou simplista? O estresse da doença da mulher é constante, afirmou, mais difícil para ele do que os estresses que enfrentou durante os anos de sua atividade política. Mas, olhando para trás, lembra o momento de maior angústia, a expulsão de Cingapura da Malásia, em 1965. O trauma ofereceu-lhe o desafio que marcou sua vida: a criação e desenvolvimento de uma nação estável e próspera, sempre em guarda contra o conflito na sua população mista de chineses, malaios e indianos.

"Não temos os ingredientes de uma nação, os fatores elementares", ele disse há três anos, em uma entrevista ao jornal International Herald Tribune. "Uma população homogênea, uma língua comum, uma cultura comum e um destino comum."

Os mais jovens o preocupam, com suas exigências de maior abertura política e livre intercâmbio de ideias, considerando-se seguros de seu bem-estar na moderna Cingapura. "Eles acreditam que esta situação é natural e podem tomar certas liberdades a este respeito", disse. "Eles acham que ela pode ser colocada no piloto automático. Mas não é assim."

"O combate político aberto que eles exigem inevitavelmente abriria a porta para uma política com base na raça e nossa sociedade ficaria dilacerada." Político lutador, muitas vezes moveu contra os seus adversários ações extremamente custosas. Defendeu as ações por considerá-las necessárias para proteger seu bom nome, e rejeitou as críticas dos jornalistas ocidentais como "lixo total".

Para ele, não serão estes repórteres nem os obituários que eles poderão escrever que darão o veredicto final sobre suas ações, mas os futuros estudiosos que as analisarão no contexto de sua época. "Não estou dizendo que tudo o que fiz estava certo, mas tudo o que fiz tinha um propósito honroso. Tive de fazer algumas coisas horríveis, pôr na cadeia gente sem um processo."

E embora as folhas já estejam caindo da árvore, ele disse, a história de Lee Kuan Yew talvez ainda não esteja encerrada. Citou um provérbio chinês: Não julgue um homem enquanto não fecharem seu caixão.

"Fechem o caixão e então decidam", afirmou. "Depois vocês o avaliarão. Antes que preguem a tampa, ainda posso fazer alguma loucura". / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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