"O homem que sabia demais..."

Esse título de um célebre filme de suspense de Alfred Hitchcock poderia perfeitamente se aplicar a Elie Hobeika, 46 anos, um dos mais controvertidos protagonistas da guerra do Líbano (1975/1990), que morreu quinta-feira pela manhã como sempre viveu, ou seja, em uma onda de violência e sob um espesso véu de mistério. Antigo chefe da milícia cristã "Forças Libanesas" que se aliou, em seguida, à Síria, Hobeika foi vítima de um terrível atentado à bomba quando acabava de deixar sua luxuosa residência em Hazmieh, nas proximidades de Beirute, para dedicar-se a seu esporte favorito, o mergulho. Uma Mercedes 280 explodiu, de fato, ao passar pelo Range Rover que ele ocupava com seus três guarda-costas, que também pereceram. Os restos estraçalhados dos quatro homens foram projetados a dezenas de metros do local do atentado e uma dezena de pessoas foi ferida pelos destroços. A tumultuada carreira de Elie Hobeika foi marcada por episódios sangrentos e espetaculares reviravoltas políticas e tudo levava a crer que um homem com um passado tão carregado tinha pouquíssimas chances de terminar seus dias calmamente em sua cama. Seus inimigos eram de fato numerosos, todos eles temíveis. Hobeika era sobretudo um puro produto dos serviços de informação: treinado em Israel pelo Mossad, foi chefe de operações especiais e, mais tarde, dos serviços de informação das "Forças Libanesas", então dirigidas por Béchir Gemayel, que foi morto por um atentado à bomba, em plena invasão israelense do Líbano em 1982, quando acabava de ser eleito Presidente da República. Apesar de negá-lo, Hobeika foi considerado um dos principais responsáveis pelo massacre de várias centenas de civis palestinos nos tristemente famosos campos de Sabra e Chatila perpetrado por milicianos ávidos de vingança no dia seguinte do assassinato de Gemayel. Ao se tornar chefe da milícia em 1985, Elie Hobeika não tardou a se alinhar com a Síria, que havia conseguido reconquistar grande parte de sua influência no Líbano, que fora afetada durante um certo tempo pela invasão israelense; passava por cooperar de forma muito estreita com o chefe da Informação militar síria no Líbano, o general Ghazi Kanaan, que continua até hoje a reger oficiosamente toda a vida política libanesa. Destituído em 1986 por Samir Geagea durante um sangrento acerto de contas, e forçado ao exílio, Hobeika só conseguiu sua revanche com a instauração da pax syriana em 1990; como a maior parte dos outros senhores da guerra, será agraciado com uma anistia e será deputado e mesmo diversas vezes ministro, enquanto Geagea, sempre rebelde à hegemonia síria, será condenado à pena capital, comutada em prisão perpétua ... Hobeika foi morto por ativistas cristãos para puni-lo por sua "traição" e sua "colaboração com o ocupante sírio", como parece sugerir um obscuro comunicado de um grupo não menos obscuro, "Os libaneses para um Líbano livre e independente", enviado por fax ao escritório da agência Reuters de Chipre? Essa hipótese parece pouco séria, considerando-se os meios muito sofisticados utilizados no atentado de quinta-feira, executado com minúcia cirúrgica em uma zona suburbana altamente vigiada. Teriam sido então os palestinos? Mas, neste caso, por que teriam esperado vinte anos ou quase para vingar os massacres dos campos de Sabra e Chatila? E sobretudo, por que teriam eliminado Hobeika no exato momento em que ele se dizia pronto a ir a Bruxelas para testemunhar no processo movido pelos parentes das vítimas desses massacres contra Ariel Sharon, Ministro da Defesa de Israel em 1982, cuja única responsabilidade "pessoal e indireta" havia sido constatada pela Comissão Kahane que investigou essa matança perpetrada nas proximidades das posições do exército israelense? Não é surpreendente, desde então, que os oficiais e analistas libaneses favoreçam unanimemente a tese de um atentado patrocinado por Israel, e mais precisamente por Ariel Sharon em pessoa, que teria temido de fato ver sua reputação novamente comprometida, talvez irremediavelmente dessa vez - pelo caso de Sabra-Chatila. O chefe do governo israelense avaliou provavelmente na sua justa medida as ameaças proferidas ultimamente por Hobeika que, já no verão passado, dizia-se decidido "a lavar sua honra injustamente maculada", a inocentar as "Forças Libanesas" das quais era, na época, um dos principais dirigentes e, finalmente, a infirmar as conclusões, segundo ele, errôneas, do relatório Kahane. Na última terça-feira, Hobeika havia confirmado a senadores belgas com quem se encontrou em Beirute, que tinha "revelações" a fazer se um processo contra Sharon fosse finalmente instaurado em Bruxelas. "Sinto-me ameaçado", acrescentou. Evidentemente, as acusações libanesas, formuladas principalmente pelo presidente Lahoud e vários ministros, foram rejeitadas por Israel, que as devolveu para a ... Síria. Se acreditarmos nos israelenses, Hobeika teria caído em desgraça em Damasco faz algum tempo (perdeu seu cargo de deputado nas últimas eleições legislativas, bem como sua pasta de ministro) e sabia demais sobre as atividades pregressas dos serviços secretos sírios no Líbano.

Agencia Estado,

24 Janeiro 2002 | 19h43

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