O Houdini da Itália talvez não escape

Berlusconi, que já se livrou de ardilosas armadilhas políticas, agora enfrenta a mais grave crise de seu governo

RACHEL DONADIO, O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2010 | 00h00

Ao longo dos anos, o primeiro-ministro Silvio Berlusconi maravilhou os italianos com verdadeiros poderes de Houdini, escapando das armadilhas mais ardilosas da política e recuperando-se mesmo quando todas as probabilidades eram contra ele. Mas desta vez, com uma crise política cada vez mais grave a ponto de poder derrubar o governo nas próximas semanas, algo mudou consideravelmente na Itália.

Como é possível? Ocorre que os que antes eram leais a ele, e não o abandonaram quando perdeu o poder em 2006, mas que farejam a fragilidade política como um cão fareja o medo, começaram visivelmente a se reposicionar para o próximo capítulo - quando Berlusconi deixará muito provavelmente de ser o líder.

"É uma antiga tradição italiana: o tenor é idolatrado até o público começar a vaiá-lo", disse Beppe Severgnini, que há muito tempo critica Berlusconi, e cujo último livro tenta explicar o líder italiano aos estrangeiros.

Este mês, as vaias começaram. E começaram no mais alto escalão, com Gianfranco Fini, um dos fundadores do partido de centro-direita, o Povo da Liberdade (PDL), que na segunda-feira tirou quatro de seus membros que faziam parte do gabinete. A medida formalizou uma crise que se iniciou quando Berlusconi o expulsou da coalizão em julho, o que lhe custou a maioria no Parlamento.

Mas a cada dia, as deserções - ou as que são percebidas como tais - multiplicam-se.

Na semana passada, Vittorio Feltri, há muito tempo leal a Berlusconi e diretor de Il Giornale, diário de propriedade do irmãos do primeiro-ministro, deu uma curiosa entrevista a uma publicação concorrente criticando Berlusconi. "Ele está cansado e confuso", disse Feltri falando a Il Fatto Quotidiano, um jornal de esquerda lançado no ano passado. "Ele deixou de fazer muitas coisas que deveria ter feito."

Durante anos, os críticos de Berlusconi manifestaram-se extraoficialmente, temendo prejudicar o próprio futuro em uma sociedade caracterizada pelo clientelismo político, na qual o bilionário Berlusconi era o patrono e o líder.

Este temor se estendeu ao governo, onde o premiê acusava rotineiramente de deslealdade Fini e outros políticos que chamavam a atenção para os problemas da Itália.

Fim do silêncio. Isso também começou a mudar. Hoje, políticos e outras figuras públicas - que até este mês mantinham um silêncio desconcertante sobre a falta de competitividade, a baixa produtividade da Itália, o alto endividamento, a evasão de cérebros e a sonegação fiscal - começam a falar abertamente.

"No PDL (o partido de Berlusconi), há uma sensação difundida de que Berlusconi chegou no fim da linha", disse Pier Ferdinando Casini, líder da União dos Cristãos-Democratas, um partido católico de centro que se aliou a Berlusconi em governos passados, mas não no atual.

"Um império é um império, mas Júlio César não é Calígula", acrescentou Casini, fazendo uma sarcástica referência aos vários escândalos sexuais do primeiro-ministro. Segundo ele, Berlusconi não empreendeu uma série de reformas, até mesmo a do sistema judiciário italiano, da infraestrutura e da saúde.

Casini está sendo cortejado furiosamente por Fini e pelo Partido Democrático de centro-esquerda. Cada um destes quer seus votos - calculados em 5,8% em uma recente pesquisa de opinião do jornal Corriere della Sera - para ajudar a formar uma maioria.

Na realidade, embora exista a crescente sensação de que Berlusconi está prestes a cair, ninguém, até mesmo os veteranos analistas políticos, tem uma ideia clara de quem o poderia substituir, o que torna este momento o mais dinâmico e incerto da política italiana dos últimos 20 anos.

Desde que Berlusconi foi eleito primeiro-ministro, em 1994, ele ajudou a forjar a personalidade dos políticos italianos, com uma direita que orbitava ao seu redor e uma esquerda que inevitavelmente parecia dividida porque não tinha o equivalente de Berlusconi.

O primeiro-ministro contribuiu também para criar a ilusão de que a Itália era um sistema bipartidário, mediante uma mudança da lei eleitoral italiana de 2005, que permitia que uma coalizão que recebesse menos da metade do voto popular tivesse uma maioria parlamentar, fazendo com que muitos partidos menores perdessem prestígio.

Casini e outros querem modificar a lei para criar uma nova agremiação de centro, muito provavelmente com Fini, Francesco Rutelli, um ex-prefeito de Roma muito popular, e possivelmente Luca Cordero di Montezemolo, o presidente da Ferrari e ex-presidente da Associação das Indústrias da Itália.

O momento da verdade chegará para Berlusconi em meados de dezembro, quando ambas as Câmaras do Parlamento votarão, e provavelmente aprovarão, o orçamento para 2011, no dia 10. Berlusconi aparecerá perante ambas as Câmaras no dia 13 - e enfrentará uma moção de confiança em ambas no dia 14, que poderá derrubar o seu governo.

No mesmo dia, a Corte Constitucional italiana decidirá sobre a constitucionalidade ou não de uma lei que garante ao premiê a imunidade parlamentar.

Mas em um país onde se joga a política do poder no mais alto nível do governo, com tanta habilidade e injúrias simuladas quanto numa Copa do Mundo de futebol, o jogo ainda não acabou.

"Quem achar que Berlusconi está morto e enterrado está completamente enganado", disse Casini. "Se esta crise o colocar no centro e o deixar fazer o papel da vítima, Berlusconi será capaz de se recuperar", acrescentou. "Entretanto, enfrentará problemas se as pessoas o considerarem responsável por tudo o que fez." / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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