O impacto de Modi

Novo premiê indiano é ousado, mas precisa aprovar reformas logo no início do mandato

FAREED , ZAKARIA, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

22 de setembro de 2014 | 02h03

Narendra Modi, novo primeiro-ministro indiano, irradia confiança. Ele tem a primeira maioria absoluta no Parlamento da Índia em 30 anos. O público o elogia, os líderes mundiais o solicitam e a Bolsa de Mumbai continua subindo vertiginosamente. Mas será que o momento de euforia se traduzirá em ganhos duradouros? A Índia pode se tornar a próxima potência econômica do globo?

Tive a chance de fazer estas perguntas quando encontrei Modi, no último fim de semana, em sua casa em Nova Délhi, para a sua primeira entrevista desde que se tornou primeiro-ministro. Modi é extremamente inteligente e focado, mas é diferente da maioria dos líderes que conheci. Sua visão de mundo foi moldada pela experiência e não pela educação formal. Nasceu pobre e de uma casta inferior (o que na Índia é o pior destino), saiu de casa aos 17 anos e desde cedo se envolveu na política, ingressando no RSS, o grupo nacionalista hindu. Mais tarde, concluiu os estudos universitários e o mestrado, mas sua educação de verdade foi possível graças às suas viagens pela Índia.

Ele falou dos milhares de aldeias que visitou como chefe do governo do Estado de Gujarat - quando Gujarat registrava um crescimento igual ao da China. O que o motiva é a preocupação com a maneira como as pessoas vivem de fato. Modi é ferrenho defensor da higiene e lançou um ambicioso programa para a construção de banheiros nas casas, nas escolas e em toda parte.

Em seu discurso no Dia da Independência, mês passado, sobre as muralhas do Forte Vermelho, em Nova Délhi, Modi falou sobre o fato vergonhoso de um grande número de indianos defecar em público. Qualquer outro premiê anterior teria considerado o tema não condizente com o cargo. Os indianos, porém, adoram sua abordagem.

Durante a campanha eleitoral, Modi tratou do tema dos banheiros de uma perspectiva inesperada. Ele explicou que a Índia precisa, em primeiro lugar, de banheiros. Depois, de templos. Sua afirmação foi significativa porque ele é considerado um ardoroso nacionalista hindu. Sua plataforma prevê projetos para a construção de um templo em Ayodhya, no local onde surgia uma mesquita que foi destruída, questão que provocou divisões no país. A impressão é que Modi é muito astuto para se preocupar com o simbolismo nacionalista, o que faria fracassar seu programa de crescimento e o envolveria em controvérsias que ele quer evitar.

Modi também tem se mostrado muito hábil no cenário internacional. Cortejou o Japão e criticou sutilmente a China, depois recuou e abraçou Pequim, atraindo investimentos de ambos os países. É favorável aos EUA e aparentemente não tem má vontade com Washington por recusar-lhe um visto durante dez anos. Contudo, não abandonou a Rússia, aliada da Índia, preferindo se calar sobre a Ucrânia.

Surpreendentemente, Modi não mostrou um bom desempenho na área de sua competência, a economia. Tem demorado para anunciar reformas. Seu primeiro orçamento foi decepcionante e muitas das personalidades nomeadas para o gabinete revelaram-se fracas. Os que esperavam grandes mudanças nos subsídios, na política comercial ou nas restrições trabalhistas ficaram desapontados.

O programa de reformas congelado talvez seja uma consequência da grande força de Modi, o seu pragmatismo. Suas ideias econômicas não são influenciadas pelas teorias de livre mercado e o intercâmbio. Ele não é Ronald Reagan nem Margaret Thatcher. Modi quer fazer as coisas funcionarem. Ele ficará satisfeito se os mercados fizerem isto. E melhor ainda se o controle do governo lhe der mais ferramentas para empreender as mudanças.

Ele ficou na defensiva sobre o protecionismo da Índia e disse que não se comprometeria em privatizar as companhias estatais ineficientes. Afinal, ele recuperou as empresas de Gujarat. No entanto, a Índia tem muitos gargalos e o adiamento de reformas assombra Modi.

Ruchir Sharma, diretor de mercados emergentes do Morgan Stanley, estudou a atuação dos líderes das 20 maiores democracias mundiais nos últimos 20 anos. O resultado é claro. Os líderes que empreendem difíceis reformas logo no início são beneficiados nos últimos anos. Em parte, isto ocorreria por disporem de capital político para fazer mudanças dolorosas no primeiro ano de mandato. No segundo, nos países em que os líderes desperdiçam sua lua de mel e adiaram as reformas, os mercados se retraem e põem a perder os ganhos iniciais.

Segundo Sharma, o Japão é o melhor exemplo de país em que a promessa de reformas se revelou irreal. O premiê Shinzo Abe tratou logo de adotar medidas politicamente populares - crédito fácil e gastos públicos -, mas nunca chegou a empreender reformas estruturais. Assim, o crescimento e o desempenho do mercado de ações no Japão deixaram a desejar. A lua de mel de Modi está chegando ao fim. Numa série de eleições secundárias, seu partido teve um desempenho ruim. Seria irônico se chegássemos à conclusão de que o problema de Modi não está no fato de ele ser muito ousado, mas em não ser suficientemente ousado. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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