O impasse nas praias

Países anglo-saxões ficaram aturdidos, depois caíram na risada com a polêmica

Gilles Lapouge*, O Estado de S.Paulo

29 Agosto 2016 | 03h00

A França teve uma péssima notícia. Uma angústia terrível a envolveu. Faltou-lhe até o ar. Seria o medo de um novo massacre jihadista? Uma invasão de imigrantes? Os efeitos maléficos do Brexit britânico? Ou estariam os franceses oprimidos pela lembrança das centenas de italianos mortos no terremoto que arrasou uma alegre cidadezinha nos Montes Apeninos?

Nada disso. Os franceses não são frívolos! Só perdem a cabeça em situações extremas. E foi o que aconteceu. O país esperava em silêncio na sexta-feira uma decisão do Conselho de Estado, que deveria dizer – sim ou não – se muçulmanas residentes na França têm o direito de ir à praia usando o “burkini”.

Vamos dizer logo qual foi a decisão, para poupar o leitor de uma espera dolorosa: o Conselho de Estado deliberou que os decretos de alguns prefeitos de cidades praieiras proibindo o uso do burkini são ilegais. As muçulmanas podem frequentar a praia usando o traje.

Antes, é preciso explicar o que é o burkini, já que ninguém tinha ouvido falar nele até que esses prefeitos do litoral decidiram proibi-lo. Basicamente, é uma roupa longa que deixa só o rosto descoberto, permitindo às muçulmanas ir à praia sem infringir os preceitos do Alcorão.

O drama se arrastou por semanas. Estrangeiros arregalaram os olhos de espanto – a esses povos remotos, não embebidos desde a infância na nobre cultura francesa forjada na tolerância, igualdade, liberdade e fraternidade, parecia irreal que o tal do burkini, dizendo respeito apenas a algumas dezenas de muçulmanas, dividisse a França em dois campos prestes a se degolarem mutuamente.

Os países anglo-saxões primeiro ficaram aturdidos, depois caíram na risada: “Esses franceses...”. Mesmo o New York Times dedicou à última extravagância francesa artigos consternados.

E quem era que, na França, desfechava a cruzada contra o burkini? Nem é preciso falar da Frente Nacional, de Marine Le Pen, nem da direita dura de Nicolas Sarkozy, ou da burguesia que lê o Figaro. Até aí, é a lógica. Mas, entre os inimigos do burkini, estavam também os socialistas. A coisa, então, muda de rumo: torna-se política.

O primeiro-ministro socialista, Manuel Valls, tomou ruidosamente partido dos que não querem vir burkinis nas praias da bela França. Nada de estranho. Valls é um socialista adepto da ordem. Foi ministro do Interior (responsável pela polícia) e tinha mão pesada. Pertence à banda “direitista” do Partido Socialista, e é justamente por isso que o partido está em frangalhos.

Até agora, Valls, embora criticado pelos militantes socialistas, não havia chegado a provocar a cólera de seus ministros. Até agora. Dois ministros importantes, duas mulheres, as excelentes Najat Vallaud-Belkacem (da Educação) e Marisol Touraine (da Saúde), condenaram pública e claramente o primeiro-ministro. O Conselho de Estado, mais alta instância jurídica do país, também o condenou. Uma insignificância se transformou em questão de Estado.

A bola hoje está no campo do chefe de Estado (o presidente François Hollande). Ele não pode tolerar tal cacofonia. Aliás, já esboçou sua posição. Disse taxativamente que “todos têm de se ater às regras”, especificando mesmo que não deve existir nessa guerra do burkini “nem provocação nem estigmatização”. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

* GILLES LAPOUGE É CORRESPONDENTE EM PARIS

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