Robert Pratta/Reuters
Robert Pratta/Reuters

O imperativo moral de apoiar Macron

Se os eleitores franceses não apoiarem o candidato centrista no segundo turno, não conseguirão assegurar o próprio futuro

Guy Verhofstadt / PROJECT SYNDICATE, O Estado de S.Paulo

04 Maio 2017 | 05h00

Com a definição dos dois candidatos na disputa no segundo turno da eleição presidencial na França, verificou-se uma mudança do paradigma político na Europa. Emmanuel Macron e Marine Le Pen representam perspectivas de mundo alternativas que se afastam e transcendem a tradicional divisão entre esquerda e direita.

Em eleições recentes, em várias partes da Europa, também observamos um confronto entre partidos pró-europeus, favoráveis ao livre mercado, e movimentos populistas. Mas, num país tão importante para o futuro da Europa, como a França, as apostas e os riscos não poderiam ser maiores.

Aqueles que desejam um fim da União Europeia estão conscientes disso. Hackers russos lançaram inúmeros ciberataques contra o website do movimento En Marche!, de Macron, e o Kremlin apoia publicamente Le Pen.

Muitos franceses ainda ignoram a dinâmica geopolítica em funcionamento na eleição do seu país. Mas terão de arcar com essa grave responsabilidade. O destino da UE está em suas mãos. A França deixou sua marca em quase todos os vizinhos, incluindo a Bélgica, onde quase metade da população fala francês. Historicamente, a França foi uma potência dominante, antes de se tornar membro da UE. 

Por mais distintos que sejam esses legados de imperialismo e multilateralismo, ambos incorporam o compromisso dos franceses com a globalização. Ironicamente, tal compromisso hoje está sendo traído pelos que desejam que a França abandone a Europa em nome do “patriotismo”.

Apesar de as pesquisas indicarem que Macron vencerá com folga, ele ainda não garantiu seu lugar no Palácio do Eliseu. O sentimento contra o establishment são tendências fortes do eleitorado francês e, segundo prognósticos, veremos um aumento da abstenção entre eleitores de Macron. Os partidários de Le Pen, por outro lado, certamente afluirão às urnas, demonstrando o fanatismo disciplinado pelo qual a Frente Nacional há muito tempo é conhecida.

Os institutos de pesquisa, apesar de caluniados na campanha, até agora acertaram, de modo que precisamos prestar atenção como as sondagens podem afetar os resultados. Em outros escrutínios na Europa, candidatos populistas, como Norbert Hofer, na Áustria, e Geert Wilders, na Holanda, perderam porque sua grande popularidade nas pesquisas provocou uma onda de ativismo eleitoral no último minuto para derrotá-los.

No segundo turno da eleição francesa, Macron tem uma vantagem confortável, mas pode cambalear. Até o dia 7, a máquina de propaganda da Frente Nacional vai difamá-lo. Os russos intensificarão seus ataques e seus oponentes políticos continuarão a diminuí-lo pelo breve período em que atuou em um banco de investimentos, disseminando dúvidas quanto a sua promessa de lutar pelos trabalhadores.

Na verdade, ao ouvir as mensagens de campanha da FN e seus aliados chegamos a acreditar que Macron é responsável por toda nuvem de chuva ou pneu furado na França. Todos os candidatos derrotados no primeiro turno têm de resistir ativamente a uma vitória de Le Pen e isso significa trabalhar para garantir a vitória de Macron.

O livre-comércio tem má reputação na França. E Macron deve ser elogiado por ter realizado uma campanha defendendo o livre mercado e ter sido honesto quanto às reformas que a França necessita. Há 40 anos, o PIB do país era 9% maior do que o do Reino Unido. Hoje é menor. Aqueles que se afastarem de Macron, e de Le Pen, em nome dos trabalhadores franceses, claramente estão confundindo suas prioridades. 

Se Macron vencer, todos que votaram nele estarão livres para criticar e se opor a cada medida que ele adotar. Mas poderão descansar, certos de que ele não constitui uma ameaça ao estado de direito ou às instituições fundamentais da democracia. Na verdade, um elemento-chave do seu programa legislativo é uma faxina na vida pública.

Não podemos afirmar o mesmo de Le Pen. Os que não querem apoiar Macron, se examinarem o programa político preconceituoso de Marine, perceberão que não há nenhuma garantia de que as instituições da democracia francesa sobreviverão em seu mandato. Em outras palavras, se os opositores de Macron não o apoiarem agora, não conseguirão assegurar o próprio futuro. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É EX-PRIMEIRO MINISTRO DA BÉLGICA

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