O império das bases militares inúteis

Espalhados pelo mundo, postos do Exército dos EUA causam ressentimento e torram dinheiro

Hugh Gusterson*, O Estadao de S.Paulo

21 de março de 2009 | 00h00

Antes de ler este artigo, tente responder à seguinte pergunta: quantas bases militares os EUA têm em outros países? a) 100; b) 300; c) 700; ou d) 1.000?Segundo a própria lista do Pentágono, a resposta é 865, mas se incluirmos o Iraque e o Afeganistão, chegaremos a mais de mil. Essas mil constituem 95% do total de bases militares estrangeiras de todos os países do mundo.O colonialismo à moda antiga dos europeus consistia em tomar países inteiros e administrá-los. Mas era uma prática muito complexa. Os EUA foram os pioneiros de uma estratégia mais enxuta para o império global. Como afirma o historiador Chalmers Johnson: "A versão americana de colônia é a base militar." Os EUA, diz Johnson, têm um "império de bases".Elas não custam pouco. Com exceção das instaladas no Afeganistão e no Iraque, os EUA gastam cerca de US$ 102 bilhões anuais para administrar seus postos avançados, segundo Miriam Pemberton, do Instituto de Estudos Políticos. E em muitos casos, devemos nos perguntar para que servem. Por exemplo, os EUA têm 227 bases na Alemanha. Talvez elas tivessem algum sentido na Guerra Fria, quando alemães estavam divididos pela Cortina de Ferro e estrategistas americanos procuravam convencer soviéticos de que um ataque à Europa equivaleria a uma agressão aos EUA.Mas numa nova era, com a Alemanha reunificada e os EUA preocupados com conflitos na Ásia, África e Oriente Médio, tem tanto sentido para o Pentágono manter 227 bases militares na Alemanha quanto para os Correios manter uma frota de cavalos e carroças.Asfixiada pela burocracia, a Casa Branca está desesperada por cortar os custos desnecessários do orçamento federal. Em 2004, Donald Rumsfeld calculou que os EUA poderiam economizar US$ 12 bilhões com o fechamento de cerca de 200 bases no exterior. Seria uma medida relativamente isenta de custos políticos, já que os dependentes dessas bases são estrangeiros e não têm peso eleitoral nos EUA.Entretanto, essas bases parecem invisíveis quando os políticos preocupados em economizar analisam uma proposta de orçamento de US$ 664 bilhões. No editorial do dia 1º de março do New York Times, intitulado "O Pentágono descobre o mundo real", os editorialistas pediram "coragem política" à Casa Branca para minguar o orçamento da Defesa. Quais foram as sugestões? Eliminar o caça F-22 da Força Aérea, o destroier DDG-1000 da Marinha e reduzir o Sistema de Combate Futuro do Exército para economizar mais de US$ 10 bilhões ao ano. São todas boas sugestões, mas e as tais bases no exterior? Líderes americanos dizem que os postos estrangeiros consolidam alianças com outros países, especialmente por causa dos acordos comerciais e da ajuda que costumam acompanhar seu arrendamento. Nelas, soldados americanos vivem numa espécie de casulo, um simulacro dos EUA, assistindo canais de TV americanos, ouvindo rap e heavy metal americano, comendo fast-food, de modo que os jovens do interior e os garotos de rua transplantados para essas bases ficam muito pouco expostos a um outro modo de vida. Do outro lado da cerca de arame farpado, moradores e empresas locais se tornam economicamente dependentes dos soldados.Essas bases podem se converter em pontos de ignição de conflitos. Elas descarregam lixo tóxico em ecossistemas locais, com em Guam, onde deixaram nada menos do que 19 depósitos. A contaminação estimula ressentimentos e, às vezes, como ocorreu na ilha de Vieques, em Porto Rico, na década de 90, é causa de movimentos sociais declarados contra as bases. Os EUA usaram Vieques para ensaios de bombardeios 180 dias por ano. Quando se retiraram, em 2003, a área estava coberta de resíduos de cápsulas, urânio empobrecido, metais pesados, óleo, lubrificantes, solventes e ácidos. Segundo ativistas locais, o número de casos de câncer na ilha era 30% superior ao registrado em todo o restante de Porto Rico.É inevitável também que, de tempos em tempos, soldados americanos - geralmente embriagados - cometam crimes. O ressentimento causado por esses delitos ainda é exacerbado pela insistência do governo americano para que eles não sejam julgados por tribunais locais. Em 2002, dois soldados americanos mataram duas adolescentes na Coreia. Ativistas coreanos alegam que esse foi um dos 52 mil crimes cometidos por soldados dos EUA no país entre 1967 e 2002. Os dois soldados foram imediatamente repatriados, escapando de um processo na Coreia. Em 1998, um piloto da Marinha cortou, com seu avião, o cabo de um teleférico numa região de esqui na Itália, matando 20 pessoas. Mas ele recebeu apenas um puxão de orelhas das autoridades americanas, que não permitiram que ele fosse processado na Itália. Incidentes com esses têm corroído as relações dos EUA com importantes aliados.Os atentados do 11 de Setembro são o mais espetacular exemplo do tipo de contragolpe que pode ser provocado pelos ressentimentos contra bases dos EUA. Nos anos 90, a presença de soldados americanos próximo dos locais mais sagrados do islamismo, na Arábia Saudita, enraiveceu Bin Laden e deu à Al-Qaeda uma ferramenta de recrutamento poderosa. Os americanos fecharam suas maiores bases no reino saudita, mas abriram outras no Iraque e no Afeganistão, que rapidamente se converteram em novos motivos de discórdia.Com o seu "império de bases", os EUA têm um alcance global, mas a configuração desse império, à medida que ele tende para a Europa, é um remanescente anacrônico da Guerra Fria. Muitas dessas bases são um luxo que os americanos já não podem se permitir em um momento de déficit orçamentário recorde. Na Declaração de Independência dos EUA há uma crítica aos britânicos "por aquartelarem grandes destacamentos de tropas armadas entre nós" e, "por meio de julgamentos simulados, protegê-las contra uma punição pelos assassinatos de habitantes desses Estados". Belas palavras que os EUA deveriam levar mais a sério.*Hugh Gusterson é professor de sociologia na George Mason University. Artigo publicado na Yale Global - Boletim dos Cientistas Atômicos

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