O importante é manter a calma e seguir em frente

EUA continuarão a enfrentar problemas no mundo árabe

É JORNALISTA, JAMES, TRAUB, FOREIGN POLICY, É JORNALISTA, JAMES, TRAUB, FOREIGN POLICY, O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2012 | 03h04

Outro dia, num programa de entrevistas, o apresentador me perguntou se estamos melhor hoje do que antes da Primavera Árabe. Eu respondi: "A quem você se refere como 'nós?'". Os furiosos ataques contra embaixadas e consulados dos EUA no Oriente Médio deixaram muitos americanos com o sentimento de que a região era muito mais segura quando patrulhada por generais pró-americanos. Mas no caso de Egito, Líbia, Tunísia e Iêmen, países onde os cidadãos derrubaram seus odiados governantes, essas manifestações constituíram um evento secundário, embora mortal. Os tumultos foram um lembrete contundente de que "o que é bom para nós" não significa que é "bom para eles".

Sempre imaginei que um Oriente Médio mais democrático seria bom para os EUA a longo prazo, mas ruim no curto prazo. George W. Bush estava certo quando, no discurso de posse do seu segundo mandato, afirmou que "a sobrevivência ou a liberdade em nossas terras depende cada vez mais do sucesso da liberdade em outras".

Não há novidade na hostilidade contra os EUA no mundo árabe; o que é novo é o ponto a que chegaram. O egípcio Hosni Mubarak sempre esteve preparado para alimentar a ira contra Israel ou mesmo os EUA, mas seus capangas dissolveram uma manifestação bem antes de ela ameaçar a embaixada americana no Cairo. O governo do presidente Mohammed Morsi, porém, não possui os mecanismos de controle dos quais Mubarak dispunha e também não pode ficar do lado de Washington contra uma população indignada, como o ex-ditador. Em consequência, a embaixada dos EUA foi destroçada.

Seria muito bom e naturalmente justo se figuras influentes confrontassem as multidões iradas. Mas esse tipo de franqueza floresce mais onde os custos pessoais ou políticos são toleráveis. Poucos criticam as leis sobre a blasfêmia no Paquistão, porque extremistas mostraram que matarão quem assim fizer. O presidente do Congresso Nacional Líbio, Mohamed al-Merareif, sentiu-se capaz de criticar a violência antiamericana porque os islâmicos foram derrotados nas eleições na Líbia e os salafistas são uma força bem menos organizada naquele país. E, apesar do ataque orquestrado que provocou a morte de quatro americanos por lá, a Líbia é o único país do Oriente Médio onde os EUA têm aprovação. Isso em razão das medidas adotadas para superar o antiamericanismo inveterado causado pelo apoio do país a ditadores e a crença generalizada de que o Ocidente é de alguma maneira responsável por tudo o que é ruim. Isso não vai mudar por um longo tempo. O que sucedeu na semana passada vai ocorrer novamente, com diferentes provocações.

A tentação no sentido de os EUA se desvincularem do mundo árabe pode se tornar irresistível. Veja o caso do Paquistão, onde, apesar dos US$ 18 bilhões de ajuda na última década, o país ainda é odiado. Somente a participação necessária do Paquistão na guerra no Afeganistão impediu que esses fundos fossem drasticamente reduzidos. À medida que o número de tropas americanas é reduzido, a ajuda também diminuirá.

Um grupo de conservadores elaborou um projeto de lei exigindo que o governo de Barack Obama apresente um relatório sobre os ataques às embaixadas no Egito, na Líbia e no Iêmen antes de o Congresso aprovar a ajuda para esses países. O republicano Rand Paul está retendo um projeto de lei sobre essas ajudas em razão de demandas para os EUA cortarem a ajuda ao Paquistão. Até agora, Obama não deu sinal de estar reconsiderando o assunto - e o governo concordou em fornecer US$ 1 bilhão, a título de alívio de dívida, para o Egito e defendeu um empréstimo ao país de US$ 4,8 bilhões, a ser concedido pelo Fundo Monetário Internacional.

Esses recursos são importantes não porque ajudarão os EUA a serem vistos com mais simpatia - o que não ocorrerá -, mas porque pode ajudar a estabilizar as novas democracias do mundo árabe. A maior ameaça para esses regimes embrionários no Egito, na Líbia, na Tunísia e no Iêmen não é o extremismo religioso, mas a falência econômica. A Primavera Árabe deixou os salafistas mais visíveis, mais ambiciosos e, talvez, mais perigosos. Mas também tornou muitos deles mais pragmáticos.

O extremismo religioso pode ainda tirar a democracia dos trilhos, mas damos excessiva importância a isso. A frustração e a angústia de dezenas de milhões de jovens desempregados e atualmente sem condições de encontrar emprego é um perigo mais insidioso. São esses jovens que servem como recrutas entusiasmados de manifestações e com frequência em nome de exércitos jihadistas.

Mitigar essa frustração e cólera deve ser a meta a longo prazo dos novos governos na região e da política americana. O presidente Obama provavelmente merece mais crédito do que teve por reagir calmamente aos eventos da semana passada. Ele foi cauteloso quanto a apoiar a Primavera Árabe, mas também firme diante de uma situação mais tempestuosa. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.