O inaceitável fracasso humanitário na Síria

É urgente viabilizar acesso de equipes médicas e suprimentos essenciais para aliviar o sofrimento dos que vivem em meio ao conflito

JOANNE, LIU, ESPECIAL, O Estado de S.Paulo

16 Março 2015 | 02h03

A guerra na Síria entrou em seu quinto ano ontem. A brutalidade dos confrontos, que não faz distinção entre civis e combatentes, continua sendo sua marca registrada. Centenas de milhares de pessoas foram mortas e metade da população fugiu dentro da própria Síria ou para países vizinhos. As cidades sírias estão sitiadas e sem acesso à assistência externa. As pessoas estão cercadas entre frentes de batalha.

Milhares de médicos, enfermeiros, farmacêuticos e paramédicos foram mortos, sequestrados ou deslocados. Dos cerca de 2,5 mil médicos que trabalhavam na cidade de Alepo no início do conflito, menos de 100 permanecem nos hospitais que ainda funcionam.

Com milhões de pessoas precisando de assistência, a organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) deveria estar atuando na Síria, mas isso não está acontecendo. Por quê?

Quando o conflito teve início, não conseguimos autorização do governo de Bashar Assad para trabalhar no país. Com o avanço de grupos armados de oposição, negociamos o acesso às áreas sob seu controle no norte e passamos a oferecer ajuda direta à população.

Em 2013, mantínhamos seis hospitais em regiões controladas pela oposição, oferecendo milhares de consultas, realizando partos e intervenções cirúrgicas. As negociações com os inúmeros grupos armados, embora desafiadoras, nos permitiram enviar equipes médicas internacionais para trabalhar com colegas sírios.

Tivemos de renegociar nossos acordos com diferentes comandantes locais repetidas vezes para garantir respeito à nossa presença, à segurança de nossas equipes e à não interferência em nossas atividades médicas. Os grupos se alternavam com frequência e nós tivemos de renegociar com grupos como Jeish el-Mujahideen, Frente Islâmica, Frente al-Nusra, diferentes facções do Exército de Libertação da Síria e o Estado Islâmico do Iraque e do Levante (Isil, na sigla em inglês), que mais tarde teve seu nome alterado para Estado Islâmico (EI).

No entanto, no coração do conflito, nunca pudemos oferecer assistência direta à população. A violência e a insegurança, os ataques a instalações e profissionais de saúde e a ausência de autorização do governo para trabalhar na Síria foram alguns dos principais obstáculos. Ainda assim, fazíamos mais do que fazemos hoje.

Em meados de 2013, quando combatentes do EI chegaram a regiões onde a MSF mantinha a maioria de seus hospitais, seus comandantes garantiram que não haveria interferência deles nos hospitais e disseram que as estruturas médicas e o pessoal da MSF seriam respeitados. Em janeiro de 2014, no entanto, o EI sequestrou 13 membros da organização. Oito eram sírios e foram libertados após algumas horas. Os demais foram mantidos em cativeiro por cinco meses. Esse sequestro antecipou a retirada dos profissionais estrangeiros e o fechamento de instalações da MSF nas áreas controladas pelo EI.

Líderes do EI pediram repetidas vezes à MSF que retomasse suas atividades médicas nas regiões sob seu controle, porém, não deram garantias de que pacientes e membros das equipes da MSF não seriam levados ou feridos.

A organização ainda opera dois hospitais gerenciados por equipes sírias - um em Atmeh e outro em Alepo -, além de três outras estruturas de saúde no norte do país. Mas a assistência à população é limitada.

Atualmente, o acesso a cuidados de saúde no leste de Alepo é impossível em razão da falta de suprimentos e pessoal médico qualificado. Equipes da MSF registraram um aumento no número de complicações médicas, como complicações obstétricas, abortos e partos prematuros. As dificuldades na oferta de cuidados pós-operatórios e a escassez de antibióticos estão provocando aumento de infecções e da taxa de mortalidade.

Na medida em que fomos forçados a reduzir as atividades médicas diretas, continuam dando apoio a médicos sírios. Suprimentos médicos são despachados por estradas perigosas cheias de postos de controles. A probabilidade de confisco dos materiais, de prisões ou mesmo de mortes é alta. Apesar do esforço, essa forma de ajuda certamente fica muito aquém das necessidades.

Um diretor médico em uma área sitiada próxima de Damasco nos disse que seu hospital improvisado recebeu 128 pacientes feridos após um grave bombardeio a um mercado lotado. Sua equipe pôde salvar 60 pessoas, mas 68 pacientes morreram. Quase todo o estoque de suprimentos se esgotou em um só dia.

Um esforço humanitário internacional em larga escala é desesperadamente necessário no conflito, mas isso não vai acontecer até que as partes envolvidas negociem com organizações de ajuda e identifiquem ações práticas que as permitam operar de forma segura. Os grupos armados precisam autorizar o acesso humanitário aos civis, já que são obrigados a fazê-lo, de acordo com a legislação humanitária internacional.

Está sendo negada às pessoas na Síria a assistência mais essencial e o mundo não pode continuar virando o rosto. Nós precisamos e devemos fazer mais por elas.

É PRESIDENTE INTERNACIONAL

DA ORGANIZAÇÃO HUMANITÁRIA

MÉDICOS SEM FRONTEIRAS

Mais conteúdo sobre:
Visão Global Síria O Estado de S. Paulo

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.