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O inferno de Cristina

Para a presidente argentina, Cristina Kirchner, pode-se chamar esses dias de 'inferno austral'. Menos de um mês após o procurador Alberto Nisman acusá-la de obstruir sua investigação no atentado terrorista contra a Associação Mutual Israelita-Argentina (Amia), em 1994, em Buenos Aires, ele acabou misteriosamente morto em seu apartamento e a mesma acusação voltou a assombrá-la.

Mac Margolis, O Estado de S.Paulo

15 de fevereiro de 2015 | 02h03

Na última sexta-feira, o promotor substituto, Gerardo Pollicita, renovou a queixa original de Nisman, de que a líder argentina, seu chanceler, Héctor Timerman, e outros integrantes do governo argentino tentaram desvirtuar a investigação sobre o ataque contra a Amia e depois proteger suspeitos iranianos envolvidos no crime, supostamente para fechar a venda de soja a Teerã em troca de petróleo.

O atentado, o pior ataque terrorista em solo latino-americano, matou 85 pessoas e feriu mais de 300. No entanto, a reação da Casa Rosada, tão confusa quanto agressiva, poderia fazer parte do manual de como agravar uma mega crise nacional.

O chefe de gabinete de Cristina Kirchner, Jorge Capitanich, rejeitou a nova denúncia contra o governo e disse que se trata de um "golpe judicial". Para Aníbal Fernández, secretário-geral da presidência, o caso não passava de uma manobra para "desestabilizar a democracia" argentina.

Já os argentinos, que não carecem de teorias de conspiração, seriam perdoados se pensassem que a mandatária não protesta demais. Que os kirchneristas fecham o cerco em torno da líder acossada e articulam o marketing anticrime, nenhuma surpresa. É isso que a máquina publicitária da Casa Rosada sempre fez, e com competência.

No entanto, se o governo Kirchner imaginou que convenceria seus compatriotas de que ela quer justiça no caso Amia, que nada tem a ver com a estranho morte de Nisman e ainda goza de condições de administrar o país na sua maior crise econômica em mais de uma década, seria melhor repensar o enredo.

A guarda pretoriana do governo já tentou desqualificar a promotora Viviana Fein, cuja perícia já contrariou a versão palaciana sobre a morte de Nisman. Um parlamentar da tropa de choque peronista ameaçou os procuradores para que eles não participassem da chamada "marcha de silêncio", em desagravo ao colega morto, marcada para Quarta-Feira de Cinzas. Quem ousar protestar, de acordo com o deputado peronista Jorge Landau, arrisca ser levado para o banco dos réus.

No dia 9, o subsecretário-geral da presidência aumentou o tom da retórica. Ele afirmou que a renovada ação na Justiça partia de um complô internacional que tinha como objetivo derrubar o governo popular de Cristina Kirchner para substituí-lo por "forças neoliberais" que governaram em causa própria durante décadas.

Este foi apenas o último dos malabarismos oficiais para explicar a morte de Nisman. Primeiro, um suicídio. Depois, um assassinato, arquitetado por - escolha você mesmo - espiões, forças ocultas internacionais ou ambos.

Até essas conjecturas teriam algum peso se Cristina Kirchner as tivesse lançado de seu gabinete na Casa Rosada, no Parlamento argentino ou em uma coletiva de imprensa nacional. A presidente, no entanto, já estava recolhida em sua casa em El Calafate, na Patagônia, para um pouco de descanso e para festejar o aniversário de seu filho, Maximo.

E lá Cristina deve ficar, no fim do mundo, longe dos golpistas e dos neoliberais, pelo menos até depois da marcha dos promotores, na quarta-feira de Cinzas, na capital do país que ela ainda governa.

MAC MARGOLIS É COLABORADOR DA 'BLOOMBERG VIEW' E COLUNISTA DO 'ESTADO'

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