Adalberto Roque/AFP/Estadão Conteúdo
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O início do fim do regime em Cuba

Depois de 62 anos, a população cubana, estimulada pelo caos na ilha, com a incerteza do coronavírus e a deterioração de todas as instituições, sem trabalho, escassez de vacinas e alimentos, perdeu o medo

Mario Vargas Llosa, O Estado de S.Paulo

25 de julho de 2021 | 05h00

As manifestações contra o regime castrista que ocorreram em várias cidades e vilarejos de Cuba no dia 11 de julho e, mais diluídas, no dia 12, não acabaram com a Revolução Cubana, mas foram um avanço considerável no sentido de uma deterioração e a deposição final do regime. Depois de 62 anos de empobrecimento progressivo, a população cubana, estimulada pelo caos em que se encontra a ilha, sem alimento, com a incerteza do coronavírus e a deterioração de todas as instituições, sem trabalho, escassez de vacinas e alimentos, perdeu o medo. Apesar de que a repressão, como informam os correspondentes, entre eles o jornalista Mauricio Vicent, do El País, logicamente continue aumentando nos próximos dias, semanas e meses, é provável que Cuba se converta na típica ditadura militar latino-americana ou, esperemos, em uma democracia, como ocorreu com as repúblicas satélites da União Soviética depois da desintegração do império fundado por Lenin e Stalin.

Já havia alguns antecedentes de que as coisas não andavam muito bem para o regime dos irmãos Castro, desde o famoso “maleconazo” de 1994 e, muito mais importante, quando em 27 de novembro de 2020 centenas de intelectuais e artistas se reuniram diante do Ministério da Cultura para pedir que parasse a perseguição dos membros do Movimiento San Isidro, grupo independente. Os erros cometidos pelo novo presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, que em plena agitação nas ruas pediu aos “revolucionários” para enfrentarem os “mercenários”, e vimos aqueles desfilando descalços e armados de porretes, indicam que, como costuma ocorrer nas sociedades totalitárias, ele será responsabilizado pelo que ocorreu, com o que sua carreira política, iniciada com bons auspícios sob a sombra de Raúl Castro, terminará logo e da maneira que habitualmente vemos nos países comunistas, ou seja, responsabilizado por tudo o que ocorreu e despojado de todos seus cargos. Eis aqui um personagem que, apesar de vivo, cheira a cadáver.

Por que a Revolução Cubana durou tanto? Pois 62 anos é muito tempo, até mesmo para um paraíso comunista. E sobretudo porque Cuba é uma ilha, ou seja, um país muito mais fácil de ser preservado por uma ditadura do que um território cercado não por água, mas por terra. Em segundo lugar, pelo carisma e, deixemos claro, a genialidade de Fidel Castro que, aparentando de início professar um socialismo cristão avançado, depois um socialismo democrático e por fim o comunismo, enganou o mundo todo e soube modelar pouco a pouco a população ao seu desejo. 

Sem muito êxito material – a renda per capita hoje não é maior do que à época da ditadura de Batista – não havia naquela época a repartição da pobreza como hoje no país, com exceção dos funcionários do alto escalão do partido, que desfrutam de muitos privilégios e são muito impopulares, como demonstraram as vaias ao comandante Ramiro Valdés, duas vezes ministro do Interior, que precisou se retirar diante da multidão que o vaiava cantando em coro “Patria y Vida” e “Liberdade”.

Essa palavra, liberdade, ressoou com força nas manifestações nas cidades e vilarejos de Cuba, embora já a ouvíssemos, com frequência, na sua imprensa digital, bastante livre. Por isso, a primeira medida adotada pelo governo quando começaram os protestos foi bloquear o acesso ao Facebook, WhatsApp, Instagram e Telegram, que, agora, o governo dos Estados Unidos tenta restabelecer para toda a ilha.

As acusações do governo cubano e seus satélites no restante do mundo são contra o embargo dos Estados Unidos imposto à ilha, atenuado pelo presidente Obama e depois agravado no governo Trump, e novamente agora com Biden. Em que consiste esse embargo? A proibição, por parte do governo dos Estados Unidos, de que seus empresários invistam em Cuba, dificultando também, mas não impedindo, que seus cidadãos viajem de férias para a ilha, medidas que qualquer país tem direito de tomar quando se sente atingido por disposições do outro; no caso cubano, foram as muitas empresas e terras nacionalizadas pela Revolução sem que os Estados Unidos fossem indenizados pelas medidas. 

Os EUA permitem a venda de alimentos e remédios e o envio de dólares para a ilha, o que torna o país um importante parceiro comercial de Cuba. O embargo passou por diferentes alternativas, mas, no geral, tem servido ao governo cubano para explicar milagrosamente que, por causa dele, a Revolução nunca conseguiu decolar economicamente. Viveu da caridade da União Soviética durante muitos anos – na verdade, enquanto o império soviético existiu – de modo que suspender o famoso embargo americano não seria um ato de justiça e reciprocidade, mas uma forma de ajuda a incompetência do governo dos Castros e, agora, de Díaz-Canel.

Quando o socialismo não funciona, ocorre algo prototípico: o capitalismo, causa de todos os males possíveis na história da humanidade, deve vir salvá-lo da própria incapacidade. Isso não deixou de ocorrer em todas as sociedades transformadas pelo marxismo-leninismo.

E, agora, o que ocorrerá em Cuba? Vai depender da repressão. A medida mais inteligente do regime seria abrir as comportas e deixar que a oposição manifestasse seus desejos de liberdade, assim iria se acalmando e possivelmente extinguiria. No pior dos casos, se a repressão aumentar, vai exacerbar esse espírito libertário até que aquela oposição, que já é, ou logo será, majoritária no país, acabe explodindo, arrastando o Exército, a força armada da ilha.

Mas, pelas informações enviadas pelos correspondentes, tudo indica que quanto maiores as manifestações, maior será a repressão. Entretanto, no momento em que escrevia este artigo, as autoridades não tinham informado ainda quantas pessoas foram detidas, indicando que apenas uma pessoa morreu, ao passo que as torturas físicas são numerosas a julgar pelos depoimentos que conseguiram chegar aos países do Ocidente. Os mais dramáticos, sem dúvida, são o da jovem esposa que passou o dia percorrendo delegacias de polícia e nenhuma admitiu ter seu marido prisioneiro, e o do jovem torturado por um oficial que o espancou – e destroçou seu braço – gritando “mercenário!”.

O que se pode fazer para ajudar os cubanos na sua justa luta pela liberdade de Cuba? Tudo o que for dito a favor deles é positivo, mas é preciso estar consciente de que todas as críticas serão contestadas pelas pequenas minorias que ainda veem no comunismo a salvação do Ocidente das desigualdades e corrupções que o corroem e – o pior é que muitos acreditam nisso – virá do socialismo radical que propugnam, sem assumir que só houve fracasso atrás de fracasso nesse modelo que ainda privilegia uma economia estatizada. Ou, como se verifica hoje na Rússia e na China, a prática de um capitalismo de compadrio, que permite que alguns empresários discretos enriqueçam com operações privilegiadas, em um regime supostamente de livre concorrência. Este sistema também fracassará – fracassou na Rússia, sem dúvida, e amanhã será a China se o adotar. Isso porque, sem a real livre concorrência e a possibilidade de atuar sem a camisa de força do Estado, dificilmente a visão criativa do sistema da livre empresa prevalecerá.

O mais importante é que Cuba já começou a sair às ruas para protestar. O que ocorreu em muitas cidades e vilarejos onde a maré humana – nós a vimos na televisão – superava as forças oficiais enviadas para reprimi-la. Ao longo dos próximos meses, tudo indica que quanto mais repressão, mais manifestações de liberdade ocorrerão. Mas, no final, o povo cubano triunfará e esperemos que seja para recuperar sua liberdade, e que não atentem contra ela de novo como tem se verificado ultimamente em tantos países da América Latina. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*É PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA 

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