O início promissor da doutrina Obama

Crise encobriu a diplomacia do presidente, mas novo estilo de política externa já é perceptível

Jonathan Freedland*, O Estadao de S.Paulo

14 de março de 2009 | 00h00

Se o mundo puder perdoar algum dia um homem por não ser capaz de andar e mascar chiclete ao mesmo tempo, o momento é este. Ninguém recriminaria o presidente Barack Obama se ele se concentrasse exclusivamente na crise econômica, empurrando a pasta de política externa para o fundo de sua escrivaninha. Afinal, há um limite até para o que um Messias pode fazer.Mas em setembro passado, quando um John McCain em pânico suspendeu sua campanha e voltou a Washington para enfrentar a confusão financeira, Obama se recusou a seguir o mesmo caminho, explicando que "presidentes vão ter de lidar com muito mais de uma coisa por vez". Nesse espírito, ele propôs um programa de ambição rooseveltiana em casa ? sem se esquecer de que a descrição de seu cargo exige que ele seja também o ator principal no exterior. Não tem sido fácil: há relatos sobre momentos de irritação, além de fios grisalhos na cabeça presidencial. A despeito disso, ele concentrou uma série de medidas de política externa em suas primeiras seis semanas, todas com grande impacto em tempos normais. Mas, num período de derretimento econômico, elas tiveram que batalhar por mais que uma atenção fugaz da mídia.Mais visíveis foram as declarações grandiosas, como o anúncio do início do fim da guerra do Iraque, admitindo que os EUA "não torturam", ou a ordem para fechar Guantánamo. Na semana retrasada apenas, tivemos a secretária de Estado, Hillary Clinton, enviando autoridades à Síria e convidando o Irã para conversações sobre o futuro do Afeganistão ? estendendo a mão a dois Estados antes relegados às trevas exteriores. O início do mês trouxe a revelação de que Obama havia escrito uma carta secreta a seu colega russo, Dmitri Medvedev, sugerindo um acordo em que Moscou pressionaria o Irã, instando-o a abandonar a busca por armas nucleares, em troca de os EUA abandonarem a instalação de um sistema de defesa antimísseis no quintal da Rússia. E um gesto para culminar: o governo Obama tomou medidas para aliviar as restrições de comércio e viagens a Cuba.Ação não falta, portanto. Cinquenta dias após a posse, a questão é: o que significa tudo isso? Haverá um fio lógico comum correndo por todas essas medidas ? uma doutrina Obama?O primeiro tema unificador, enunciado minutos após seu juramento presidencial, é o repúdio do legado de seu antecessor. Obama está determinado a mostrar ao mundo que ele é o anti-Bush. Alguns sugeriram, tanto da esquerda como da direita, que isso é mais simbólico que real, que na verdade as características básicas da política externa americana continuam. Obama manterá um grande contingente de soldados no Iraque até 2011, como Bush planejava fazer; ele intensificou o envolvimento no Afeganistão, enviando mais 17 mil soldados; e Robert Gates, secretário da Defesa de George W. Bush, continua no cargo com Obama.Uma avaliação benigna do histórico de Obama até agora veria outros dois traços iniciais. O primeiro é a disposição para falar a verdade. Questionado na semana retrasada se os EUA estavam ganhando a guerra no Afeganistão, ele respondeu laconicamente: "Não." Depois dos anos Bush, quando os que seguiam as evidências eram desmoralizados como idiotas, essa candura é um alívio.Segundo, existem sinais de pensamento imaginativo. Mobilizar o veterano do processo de paz da Irlanda do Norte, George Mitchell, para o conflito entre Israel e palestinos é uma dessas ideias que parecem óbvias ? mas somente porque fazem muito sentido. O mesmo vale para destinar a pasta Afeganistão-Paquistão, ou "Afpak", ao mestre sensato Richard Holbrooke.Mas os aplausos seguramente vão para o apelo direto de Obama a Medvedev com seus ecos da solução da crise dos mísseis de Cuba por John F. Kennedy em 1962. Assim como JFK concordou em remover mísseis americanos da Turquia se a URSS retirasse os seus de Cuba, Obama fez implicitamente uma proposta parecida à Rússia: vocês fazem o Irã recuar e eu retirarei meus mísseis e estações de radar da Polônia e da República Checa. Se essa iniciativa funcionar, os efeitos secundários se multiplicariam. Um deles: há muito que Israel vem sugerindo que, se seus amigos fizessem desaparecer a ameaça iraniana, ele responderia fazendo avançar o processo de paz. Durante muito tempo, isso pressupôs uma ação militar violenta contra o Irã. Mas se a oferta de Obama à Rússia funcionar ? e os críticos asseguram que Gates começou a trabalhar nessas linhas há cerca de um ano ? o objetivo de um congelamento nuclear iraniano, com todos seus benefícios secundários, seria conseguido sem sequer um tiro disparado.E essa é seguramente a doutrina Obama corrente: a ênfase no que o candidato Obama chamou, há quase dois anos, de "diplomacia determinada."Evidentemente, esses são apenas os sinais iniciais nos primeiros dias. De um presidente com as mãos cheias, porém, eles são animadores. *Jonathan Freedland é colunista do jornal The Guardian

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