O inimigo do nosso inimigo não é nosso amigo

Análise: Hannah Allam / MCT

O Estado de S.Paulo

13 de dezembro de 2012 | 02h08

No fim de 2011, afirmam funcionários dos EUA, comandantes do braço iraquiano da Al-Qaeda, com grande experiência em batalha, entraram na Síria a fim de arregimentar jihadistas para lutar contra Bashar Assad, abraçando um islamismo militante que preocupou os ativistas pró-democracia.

Um ano mais tarde, o grupo formado por jihadistas iraquianos, a Frente Nusra, aparentemente lidera a insurgência contra Assad e até mesmo coordenaria os rebeldes não islamistas que ainda olham os militantes com desconfiança, mas não podem contestar sua competência superior na batalha.

Na terça-feira, funcionários americanos rotularam formalmente a Frente Nusra como parte da Al-Qaeda, numa política destinada a provocar uma cisão entre rebeldes islamistas e nacionalistas e impedir que os extremistas constituam um Estado taleban na Síria após a queda de Assad. Mas isso provavelmente não modificará a preeminência da Frente Nusra no campo de batalha, segundo um funcionário americano de alto escalão.

"Não sei se decisão dos EUA limitará imediatamente a capacidade da Nusra", afirmou. Mas ele acrescentou que espera que desestimule os patrocinadores do grupo, entre eles Arábia Saudita e Catar. "Acredito que outras nações que ajudam a oposição armada agora levarão mais a sério nossas preocupações em relação à Frente e à sua crescente influência", disse. "É importante que os países entendam o que é a Nusra e o que ela representa."

Isto é particularmente válido neste momento em que os EUA, após meses de hesitação, decidiram apoiar a nova coligação de grupos da oposição síria formada no mês passado. Barack Obama anunciou sua nova política na terça-feira numa entrevista com a âncora da ABC, Barbara Walters, na qual declarou que a Coligação Nacional das Forças Revolucionárias e da Oposição da Síria é a legítima representante do povo sírio.

"Nem todos os que participam da luta contra Assad na Síria são pessoas com as quais nos sentimos confortáveis", afirmou. "Minha opinião é que algumas delas adotaram um programa extremista."

Não está claro se isso é suficiente para desvincular os rebeldes seculares da Frente Nusra, afirmou Elizabeth O'Bagy, analista do Instituto para Estudos da Guerra, que recentemente visitou as áreas em poder dos rebeldes onde fez pesquisas sobre grupos islamistas na Síria. A declaração de que a Nusra seria um grupo terrorista não reduziu o apoio a ela, disse O'Bagy, e na realidade pode até fortalecê-la.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.