REUTERS/Dado Ruvic
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‘O Instagram será o veículo preferido da desinformação’, diz estudioso

Para Paul Barrett, professor da Universidade de Nova York, as fake news devem circular cada vez mais por meio de imagens, em vez de texto

Entrevista com

Paul Barrett, professor da Universidade de Nova York

Tiago Aguiar, O Estado de S.Paulo

15 de setembro de 2019 | 05h00

Paul Barrett, professor da Universidade de Nova York, é o autor de um estudo que aponta que o Instagram e o WhatsApp devem ser as principais mídias usadas para plantar notícias falsas e enganosas nas eleições de 2020 nos Estados Unidos. O relatório Desinformação e as eleições de 2020: Como a indústria de redes sociais deve se preparar avalia algumas das principais formas como a desinformação se espalha. 

Uma das conclusões é que o Instagram não recebeu a devida atenção em relação ao fenômeno e será o veículo preferido de pessoas que escolherem disseminar conteúdo por memes. Uma das razões, segundo ele, é que a desinformação está cada vez mais baseada na produção de imagens, em oposição ao texto. 

 O documento ainda destaca que o WhatsApp, importante para a disseminação de notícias falsas nas eleições de 2018, no Brasil, terá um papel maior nas eleições americanas. A seguir, trechos da entrevista concedida por Barrett ao Estado.

Por que uma das conclusões do relatório é que o Instagram será terreno fértil para a desinformação?

Nós temos algumas evidências de que ele já foi a escolha dos russos em 2016. Os russos provocaram muito mais engajamento no Instagram do que no Facebook e no Twitter. Pessoas interessadas em produzir informação enganosa devem se manter por lá. Outro motivo é que a desinformação está cada vez mais baseada na produção de imagens, em oposição à comunicação produzida em texto. Memes estão sendo usados cada vez mais e é muito do que as pessoas consomem quando estão no Instagram.

Por que os vídeos “deepfake” são uma ameaça iminente? 

Eu temo que a ameaça dos “deepfakes” (tecnologia usada para colocar o rosto de uma pessoa em outra em imagens de vídeo) se torne a realidade porque os softwares de inteligência artificial estão amplamente e publicamente disponíveis. As pessoas estão se tornando mais conscientes disso e eu acredito que isso vai, quase que inevitavelmente, levar à produção de conteúdo altamente convincente, mas falso. Ainda não chegou no espectro político, mas deve chegar.

Você indica que a desinformação no WhatsApp deve se tornar um problema nos EUA e chega a sugerir que cada encaminhamento de mensagem deva ser feito a um grupo de cada vez. Por quê? 

Antes de se tornar um problema nos EUA, da forma que foi no Brasil e na Índia, a função de encaminhamento com um destinatário por vez não impediria as pessoas de se comunicar privadamente – que é o propósito do WhatsApp. No entanto, restringiria a capacidade de crescimento rápido de material potencialmente enganoso para muitas pessoas de uma vez.

O relatório indica que Irã e China deverão ser fontes de produção de desinformação. Você acredita que a ameaça é aos EUA ou global?

Eu acredito que é uma situação mundial que pode afetar os EUA, assim como a outros países. Os russos direcionaram desinformação via Facebook em um grupo maior de países, além dos EUA. Os iranianos testaram sua capacidade de fazer ataques aqui. Há alguns casos em que o Facebook derrubou páginas falsas que foram rastreadas com fonte no Irã, mesmo quando fingiram ser americanas. A China tem preocupações distintas do Irã ou da Rússia, mas já produziu desinformação em inglês, no caso recente dos protestos de Hong Kong – e ainda fez parecer que eram americanos. É um sinal de que os chineses podem atuar nesse sentido com desinformação.

A tendência é crescer a desinformação por sites de notícias partidários ou de notícias falsas?

Os dois estão entrelaçados. Infelizmente, a cobertura partidária muito frequentemente se apoia em distorções ou alegações enganosas. E pouca precisão dos fatos. E, em razão disso, os leitores se tornam mais cínicos sobre o que é e o que não é verdade. E começam a duvidar da verdade de praticamente tudo. O perigo disso é perder noção do que é realidade e o que é mentira.

Quanto desses problemas são domésticos? A causa é a política ou a tecnologia?

A política, tanto aqui quanto no Brasil, foi fortemente afetada pelo crescimento do populismo de extrema-direita. Isso é um fenômeno político. Mas isso foi acompanhado por operações de informação. Esforços para persuadir as pessoas do que é verdade e do que não é. Isso é político ou tecnológico? Acho que está além da disputa, porque há aspectos de ambos. Mas o crescimento da capacidade de comunicação com números enormes de pessoas, pelas redes sociais, combinado com tendências políticas, criou novos problemas que estamos vendo hoje. Nos dois países. E a influência externa é limitada. A principal fonte de desinformação nos EUA não vem da Rússia ou de outros países, vem do próprio país. 

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