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O investimento francês em informações para a energia nuclear

Nem é preciso dizer que os ministros e mesmo os técnicos mais geniais não terão o direito de ir além da reflexão enquanto Emmanuel Macron, que se compara a Júpiter, não lançar seu raio

Gilles Lapouge*, O Estado de S.Paulo

17 de outubro de 2019 | 05h00

A França deve ter lido, numa noite de insônia, a admirável frase pronunciada, no século 16, pelo príncipe Guilherme de Orange-Nassau: “Não é necessário esperar para empreender, nem ter sucesso para perseverar”. Talvez por isso o país sonhe em construir seis novos reatores nucleares de terceira geração (EPR).

É verdade que Paris detém o direito de precedência sobre esses reatores nucleares pós-modernos. Ela se lançou antes de todos os outros países nesse caminho escarpado. E aguarda os benefícios disso: primeiramente, possuir uma central nuclear inédita, começando a renovar seu conjunto de centrais que estão envelhecendo, e depois vender suas patentes e o seu know-how para outras nações.

No caso da primeira, em Flamanville (Normandia), o país começou bem cedo: as primeiras escavações começaram em 2006. Um canteiro de obras monumental, com a promessa de que a nova central estaria concluída em sete anos. Infelizmente, algumas anomalias forçaram a substituir os saltos de lebre do início. 

Hoje, chegamos ao objetivo, mas a construção durou três vezes mais do que o tempo previsto. Um recorde. E há um segundo recorde: os preços aumentaram. A central devia custar € 3,5 bilhões. E chegamos a € 12,4 bilhões e a previsão é de se atingir os € 14 bilhões.

Os partidários dessas novas centrais nucleares oferecem um argumento indiscutível: em empreendimentos avançados e tão novos é essencial ter a experiência dos pioneiros. Portanto, é necessário construir as novas centrais uma após a outra. “É preciso utilizar esse tesouro de conhecimento antes que envelheça, pois há o risco de tudo ser esquecido.”

Tais são as razões que impelem hoje as autoridades a iniciar imediatamente essas novas construções de centrais nucleais. Mas, no alto escalão, a afirmação é de que não se trata de “começar a escavação", mas apenas reunir informações precisas para depois tomar uma decisão sensata: ou se lançar na aventura ou deixar a ideia de lado.

Mas, nos órgãos de Estado e nos ministérios, já se trabalha duro. Os estudos prévios já estão bem adiantados. Dois ministérios já enviaram um roteiro e o projeto arquitetural da “grande obra”. Serão construídos seis reatores nucleares em pares em três locais distintos. A construção de cada reator será em espaços de quatro anos e as etapas, no caso de um mesmo par de reatores, serão espaçadas em 18 meses.

Nem é preciso dizer que os ministros e mesmo os técnicos mais geniais não terão o direito de ir além da reflexão enquanto Emmanuel Macron, que se compara a Júpiter, não lançar seu raio. Os especialistas que conhecem a mentalidade do presidente afirmam que, no fundo, esse projeto mirabolante e arriscado deve agradá-lo. No momento, ele não deseja apressar as coisas, mas ouvir os argumentos para depois tomar uma decisão séria, louca, mas prudente, ou abandonar o projeto.

E os ecologistas, a cada dia mais poderosos, detestam esses seis novos eventuais reatores. Como ousam alimentar tal ideia, ao passo que a primeira central nuclear foi um enorme “acidente industrial” – € 15 bilhões jogados no lixo. “Poderíamos desenvolver energias limpas com essa fortuna”, dizem. Essa é a argumentação dos ecologistas. Veremos sua violência quando as primeiras escavações começarem. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*É CORRESPONDENTE EM PARIS

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