O Irã conseguirá mudar?

Fim das sanções precisa ser acompanhado de mudanças na posição de Teerã

Abdel Bin Ahmed Al-Jubeir, O Estado de S.Paulo

21 Janeiro 2016 | 02h03

O mundo observa o Irã para ver sinais de mudança, esperando que o país, de um Estado revolucionário renegado se transforme num respeitável membro da comunidade internacional. Mas em vez de se defrontar com o isolamento que criou para si, o Irã prefere dissimular suas perigosas políticas sectárias e expansionistas e seu apoio ao terrorismo fazendo acusações infundadas contra o reino da Arábia Saudita.

É importante entender por que a Arábia Saudita e seus aliados do Golfo estão decididos a resistir à expansão iraniana e a responder energicamente aos atos de agressão do Irã.

Superficialmente, o Irã parece ter mudado. Reconhecemos as medidas iniciais adotadas pelo país para cumprir o acordo com as potências e suspender seu programa nuclear. Certamente, sabemos que um grande segmento da população do Irã deseja uma maior abertura no plano interno e melhores relações com os países vizinhos e o mundo. Mas o governo, não.

O comportamento do regime iraniano tem sido constante desde a revolução de 1979. A constituição adotada pelo país estabelece como objetivo exportar a revolução. Em consequência, o Irã tem apoiado grupos extremistas violentos, incluindo o Hezbollah, no Líbano, os houtis, no Iêmen e milícias sectárias no Iraque.

O Irã e seus representantes são acusados de atos terroristas em todo o mundo, incluindo ataques à bomba contra o quartel da Marinha dos Estados Unidos em Beirute em 1983 e contra as Khobar Towers na Arábia Saudita em 1996, além dos assassinatos no restaurante Mikonos em Berlim em 1992. Calcula-se que forças apoiadas pelo Irã mataram mais de 1.100 soldados americanos no Iraque desde 2003.

O Irã usa ataques contra sedes diplomáticas como instrumento de sua política externa. A tomada em 1979 da embaixada americana em Teerã foi somente o início. Desde então, as embaixadas de Grã-Bretanha, Dinamarca, Kuwait, França, Rússia e Arábia Saudita foram atacadas no Irã ou no exterior por aliados iranianos. Diplomatas estrangeiros e opositores políticos dentro do país foram assassinados em todo o mundo.

O Hezbollah, que atua como representante do Irã, procura controlar o Líbano e trava uma guerra contra a oposição síria. No processo, ajuda o Estado Islâmico a se propagar. Está claro porque o país deseja que Bashar Assad continue no poder na Síria. Em seu relatório sobre o terrorismo, o Departamento de Estado americano afirmou que o Irã considera a Síria "rota crucial para o envio de armas para o Hezbollah". O relatório também observou, citando dados das Nações Unidas, que o Irã forneceu armas, financiamento e treinamento "para apoiar a brutal repressão do regime Assad que resultou na morte de pelo menos 191 mil pessoas". Um relatório de 2012 observou "um ressurgimento marcante do patrocínio do terrorismo pelo Estado iraniano", com a atividade terrorista iraniana e do Hezbollah "alcançando um ritmo jamais visto desde a década de 90".

No Iêmen, o apoio do Irã aos houtis, que querem assumir o controle do país, contribuiu para a eclosão da guerra que matou milhares de pessoas.

Estratégias. Embora o Irã alegue que no campo da política externa a sua principal prioridade é a amizade, seu comportamento mostra o oposto. O Irã é o ator mais beligerante na região e suas ações demonstram sua busca pela hegemonia regional e sua percepção profunda de que gestos de conciliação indicam fraqueza, seja da sua parte ou de seus adversários.

Assim, o país testou um míssil balístico em 10 de outubro, meses depois de ter firmado o acordo envolvendo seu programa nuclear, violando resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Em dezembro, um navio militar iraniano lançou um míssil perto de navios franceses e americanos em águas internacionais. Desde a assinatura do acordo, o líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, defende o slogan onipresente "Morte à América".

A Arábia Saudita não permitirá que o Irã destrua nossa segurança ou a segurança de nossos aliados. Rechaçaremos qualquer tentativa nesse sentido.

Por meio de mentiras disparatadas o Irã calunia e ofende a todos os sauditas ao afirmar que meu país, que abriga duas mesquitas sagradas, doutrina pessoas para difundirem o extremismo. Não somos um país designado como patrocinador do terrorismo. Mas o Irã, sim. Não somos uma nação que sofre sanções internacionais por apoiar o terrorismo, o Irã é. Não somos um país cujas autoridades estão nas listas de terroristas, como é o caso do Irã. Não temos um agente condenado a 25 anos de prisão por um tribunal federal de Nova York por tramar o assassinato de um embaixador em Washington em 2011. É o caso do Irã.

A Arábia Saudita tem sido uma vítima de atos terroristas com frequência cometidos por aliados do Irã. Nosso país está na linha de frente do combate ao terrorismo e trabalha estreitamente com os aliados. Detivemos milhares de suspeitos de ações terroristas e indiciamos centenas. Nossa luta continua à medida que lideramos os esforços internacionais para perseguir aqueles que participam de atividades terroristas, aqueles que os financiam e os que fomentam uma visão de mundo que promove o extremismo.

A questão de fato é se o Irã pretende se guiar pelas regras do sistema internacional ou permanecer um Estado revolucionário decidido a desafiar a lei internacional. Afinal, desejamos um Irã que se empenhe para resolver problemas de uma maneira que permita às pessoas viverem em paz.

Mas isso vai exigir grandes mudanças na política e no comportamento do país. Resta ver se isso ocorrerá./TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

ABDEL BIN AHMED AL-JUBEIR É MINISTRO DAS RELAÇÕES EXTERIORES DA ARÁBIA SAUDITA

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.