O Irã sem armas nucleares

Atualmente, não há evidência de que Teerã busque a bomba

Roger Cohen, The New York Times, O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2011 | 00h00

Lembram-se do Irã? Eu me lembro. Foi há dois anos que o povo iraniano se ergueu para protestar contra uma eleição roubada com uma coragem que eletrizou o mundo e apresentou aos americanos uma imagem mais verdadeira de uma nação jovem e altamente educada do que o velho espectro dos fanáticos islâmicos barbados. O movimento verde foi suprimido com uma violência bárbara, mas seu exemplo ajudou a alimentar a primavera árabe.

Como escreveu Hamid Dabashi da Universidade Colúmbia em julho de 2009: "Teerã, acredito, é o marco zero de um movimento por direitos civis que não deixará nenhum país muçulmano ou árabe, ou mesmo Israel, intocado". E acrescentou: "As imagens de iranianos afluindo com roupas coloridas às ruas alteraram para sempre o vocabulário visual da percepção global do Oriente Médio". Raramente houve palavras mais proféticas.

Elas foram citadas por Nader Hashemi da Universidade de Denver numa recente palestra sobre o Irã em que ele notou os objetivos compartilhados por iranianos e árabes: "Democracia e dignidade, o estado de direito e o respeito aos direitos humanos básicos, transparência política e um fim à corrupção". Esse ímpeto ainda é poderoso no Irã por baixo do aparato opaco, desnorteado, da República Islâmica. O Irã está fraco agora, sua ideologia está tão desgastada quanto a de Osama bin Laden, tão marginal às pessoas que procuram conciliar sua fé muçulmana e modernidade de novas maneiras.

Eu testaria essa fraqueza com novas abordagens. Mas ainda estamos presos à relação mais paranoica do mundo: a relação EUA-Irã.

Isso se deve, em grande parte, a uma outra maneira de lembrar do Irã - como o Godot das ameaças nucleares, o país eternamente à beira de produzir uma arma nuclear ou adquirir "capacidade crítica" para fazê-la, mas sem nunca fazer, apesar das ameaças horríveis de líderes israelenses que evocam os anos 90. As referências normalmente se situam entre os elementos mais presentes na República Islâmica: ambivalência e inércia. Enquanto se espera esse errático Godot, seria o caso recordar a projeção de uma bomba em 1999 (Shimon Peres) ou 2004 (Ehud Barak), ou a conversa de Binyamin Netanyahu sobre "um culto apocalíptico messiânico que controla bombas atômicas". Ou a alusão de meu amigo Jeffrey Goldberg no ano passado a um "consenso" de que há "mais de 50% de possibilidade de que Israel lance um ataque até julho". Isso seria no próximo mês.

Aventuras. Poderia valer a pena lembrar também que Meir Dagan, o ex-chefe do Mossad, a agência de espionagem israelense, declarou no mês passado que atacar o Irã seria "uma ideia estúpida". Ele sugeriu que sua principal preocupação não era o Irã em si, mas a suscetibilidade de Netanyahu a "aventuras perigosas".

Os receios de Dagan afloraram enquanto Seymour Hersh concluía num artigo em New Yorker, neste mês, que, como ele disse numa entrevista, "simplesmente não há sérias evidências de que o Irã esteja realmente fazendo algo para produzir uma arma nuclear".

Sua reportagem revela que o relatório de 2011 da inteligência nacional mantém a conclusão do mesmo estudo de 2007, segundo o qual o Irã tinha interrompido um programa de armas nucleares em 2003. Como disse um agente secreto aposentado a Hersh, não há nada de "substancialmente novo" que "leve a uma bomba".

Em outras palavras, o Irã, epicentro de ineficácia, incapaz de produzir um quilowatt de eletricidade com seu reator nuclear em Bushehr, apesar de décadas de esforços, ainda está fazendo seu belo número de equilibrismo. Lembrem, Ali Khamenei, o líder supremo, é o guardião da revolução.

Capacidade crítica, para não falar na bomba, é uma ponte longa demais. Muito melhor ganhar forças para produzir urânio pouco enriquecido - longe do grau de enriquecimento para armas - sob supervisão da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e permitir que rumores circulem.

De modo que o Irã, desde há muito no topo da agenda de Washington, perdeu importância. Em parte pela primavera árabe. Em parte porque não se pode ficar dizendo a mesma coisa. Pessoas começam a se lembrar do refrão, embora ninguém da grande escola que considera o Irã um perigo presente parece ser chamado às falas. Devia ser.

A obsessão com o bicho-papão nuclear tem sido uma distração da necessidade de tentar desembaraçar uma relação com Teerã, ver o Irã tal como ele é. Somente os esforços mais frágeis foram feitos, insuficientes para testar as águas.

Essas águas estão agitadas. A República Islâmica não se recuperou de sua convulsão de 2009. Ela está adoentada, consumida pela hipocrisia enquanto aplaude alguns árabes corajosos (mas não os da Síria), e tiraniza seus próprios defensores da liberdade prometida em 1979. Os árabes não estão comprando a hipocrisia iraniana. Somente o comando do Irã pela força da Guarda Revolucionária e a falta de um objetivo comum pela oposição a salva.

Khamenei está às turras com o presidente Mahmoud Ahmadinejad, que ficou tão mau humorado recentemente que tirou 11 dias de folga do trabalho, enfurecendo a todos. O Parlamento está investigando Ahmadinejad por várias acusações de fraudes, incluindo, acreditem, a compra de votos em 2009! Ahmadinejad foi vaiado durante um discurso em 3 de junho para lembrar a morte do aiatolá Khomeini. O Irã caracteriza-se pelo que Farideh Farh, da Universidade do Havaí, recentemente denominou de "caos administrativo".

Não é assim que se faz uma arma nuclear. Quando lembrarem do Irã - e ele precisa ser lembrado - chamem às falas os mercadores do medo. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É COLUNISTA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.