O Irã também tenta aproximar-se dos EUA

Entre os países que os atentados em Nova York, os frenesis de Bin Laden e a guerra contra os talebans movimentaram no cenário diplomático mundial, já citamos o caso do Paquistão que, em poucas horas, passou da condição de ?Estado ameaçador? para a de aliado dos Estados Unidos, e a Rússia, que também se aproximou rapidamente dos Estados Unidos. Um terceiro grande Estado que tenta utilizar a crise mundial para sair de seu isolamento diplomático é o Irã. O aiatolá Khomeiny tinha feito do Irã o porta-bandeira do mais obscurantista fundamentalismo xiita, um dos centros do terrorismo mundial e o inimigo do ?grande Satã? americano. Sem dúvida, após a morte de Khomeiny, as posições evoluíram. O ?colete de ferro? que Khomeiny havia imposto a seu povo foi afrouxado. E, há alguns anos, o clã dos ?reformadores? (os modernistas, os pró-ocidentais, os liberais, os laicos) se ampliou. Esse clã fortaleceu-se a ponto do Irã eleger um presidente reformador, Mohammad Khatami. Mas o poder do presidente Khatami está longe de ser dominante. Na verdade, a república islâmica é dotada de uma Constituição bizarra. O poder de Khatami é lentamente corroído, contestado ou destruído por um outro personagem denominado ?O guia da república islâmica do Irã?, ou seja, Ali Khamenei, que é uma emanação das forças religiosas mais estreitas. O enfrentamento entre os dois poderes ? o reformador e o conservador ? já dura meses. Mas, com os atentados em Nova York e a represália americana, esse enfrentamento torna-se cada dia mais severo. Os reformadores gostariam de aproveitar a crise atual para se reaproximarem do Ocidente e se livrarem da etiqueta de ?nação terrorista?, que está colada no Irã desde Khomeiny. Em última análise, o objetivo seria abandonar a ?cruzada anti-americana? e entrar na orquestra habitual das nações. Os ?conservadores? não gostam desse belo programa. O ?guia? Ali Khamenei (que é o verdadeiro mestre da diplomacia iraniana) não quer enterrar logo ?o machado de guerra? com os Estados Unidos e declarou: ?Chegamos à conclusão de que, não só as relações, mas também todas as negociações com os Estados Unidos, vão contra os interesses de nosso país?. Os reformadores continuam a avançar seus peões. Certamente gostariam que o Irã desse uma virada tão brutal quanto a do Paquistão e entrasse na coalizão formada por George W. Bush. Os conservadores se recusam ainda mais a essa virada porque temem que a guerra do Afeganistão permita à América ?colocar a pata? sobre toda a Ásia Central. Eles evocam a presença militar maior dos Estados Unidos na região do Golfo, a chegada dos Estados Unidos a um espaço que lhe fora sempre absolutamente proibido: as repúblicas da Ásia Central, anteriormente partes da União Soviética, hoje independentes e engajadas, desde o dia 11 de setembro, na ?coalizão? americana (sobretudo o Uzbequistão), o reforço da amizade americana-turca, que provoca pesadelos nos iranianos e, enfim, a forte vontade dos Estados Unidos de excluir o Irã dos monumentais projetos petrolíferos do Mar Cáspio, projetos de oleodutos que são, lembremos, uma das questões obscuras da guerra do Afeganistão. Outros elementos sobrecarregam o litígio Irã/Estados Unidos: em primeiro lugar, obviamente, a atitude de Washington em relação a Israel. Em seguida, o congelamento que perdura das fortunas iranianas nos Estados Unidos. Por último, as sanções unilaterais americanas, que bloqueiam o desenvolvimento econômico do Irã. Portanto, mesmo que a crise do Afeganistão dê uma certa vantagem ao clã dos ?reformadores?, ainda estamos longe de assistir a uma reconciliação entre Irã e Estados Unidos. No entanto, um certo ?degelo? parece acontecer. Os iranianos liberais esperam que a situação delicada em que se encontra a coalizão de George W. Bush incite os americanos a demonstrar maior flexibilidade em relação ao Irã. Talvez até mesmo a fazerem concessões, de modo a atrair um novo país muçulmano para a ?coalizão?. O clã dos ?liberais? vai acompanhar com muito interesse as negociações que o ministro iraniano das Relações Exteriores, Kamal Kharasi, deverá fazer em Nova York com Colin Powell, durante a próxima reunião do grupo dos ?6+2? (ou seja, os ?seis? Estados vizinhos do Afeganistão, ao qual se associaram ?dois? outros Estados: os Estados Unidos e a Rússia. Leia o especial

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