O Irã visto além do estereótipo

Não há maior desafio diplomático para o governo de Barack Obama que o Irã. Desde a Revolução Islâmica de 1979, seguida pela captura e retenção de reféns americanos por 444 dias em Teerã, a República Islâmica ocupa um lugar obscuro na psique americana. Somente nas últimas semanas, quando a contestada eleição iraniana de 12 de junho levou milhões de manifestantes às ruas, as caricaturas unidimensionais dos mulás com os dedos em um suposto botão nuclear deram lugar a uma imagem mais redonda de uma sociedade iraniana jovem - 65% da população tem menos de 35 anos - e em rápida evolução. O renascimento do movimento democrático no Irã, um fator complicador no esforço de aproximação diplomática de Obama, aumentou a necessidade de um exame abalizado dessa potência crucial do Oriente Médio. Felizmente, já existe uma avaliação disponível na forma do soberbo Guardians of the Revolution: Iran and the World in the Age of the Ayatollahs ("Guardiães da Revolução: o Irã e o Mundo na Era dos Aiatolás"), de Ray Takeyh. A obra traz uma combinação pouco comum de análise e empatia. Esta última é importante porque as relações entre Irã e EUA foram afetadas durante muito tempo pelo veneno emocional secretado por décadas de ressentimentos recíprocos. Nesse contexto carregado, a erudição pede um aliado: a intuição. Takeyh a possui. Segundo ele, "uma combinação de retidão e vitimização constitui o cerne da identidade dos iranianos, que são muito sensíveis a agravos percebidos". Entre esses "agravos", é claro, poucos se avultam mais que o papel dos EUA no golpe de 1953, apoiado pela CIA, que derrubou o primeiro-ministro Mohammed Mossadegh. Também é digno de nota a derrubada pelos EUA, em 1988, do voo 655 da Iran Air, em que 290 pessoas morreram. O Grande Satã - difamação semanal dos EUA nas orações de sexta-feira - tem sido um pilar da revolução desde a deposição do xá Reza Pahlevi. Uma questão central que agora se coloca para o establishment do Irã, mais dividido hoje que em qualquer outro período desde 1979, é se a manutenção dessa hostilidade anacrônica (a maioria dos iranianos tem uma visão positiva dos EUA) é fundamental para a sobrevivência da ordem revolucionária ou se a República Islâmica precisa superar os laços rompidos com Washington para prosperar. Poderá o Irã fazer como a China em 1972: normalizar relações com os EUA e, ao mesmo tempo, manter seu sistema? Takeyh relata a ascensão do que chama de "Nova Direita", facção militar e religiosa ligada ao presidente Mahmoud Ahmadinejad e à Guarda Revolucionária, que vê o movimento reformista como um "desvio do verdadeiro caminho revolucionário". Para esses radicais, "a viabilidade da República Islâmica não pode ser negociada com o Ocidente e deve ser defendida com firmeza".RAFSANJANIEntre os principais protagonistas do reformismo estão os ex-presidentes Ali Akbar Hashemi Rafsanjani e Mohamed Khatami. Takeyh oferece retratos brilhantes desses homens complexos, proporcionando um contexto fundamental para a recente eclosão violenta de protestos democráticos. Rafsanjani é um tecedor de teias cuja velhacaria proporcionou uma imensa fortuna a sua família sem jamais produzir o Irã mais moderado que defendia. Khatami, o menos ardiloso dos dois, é uma figura quase trágica, enjoativamente sincero em suas ênfases conciliatórias, mas tímido demais nas crises.Ambos estão unidos ao ex-primeiro-ministro Mir Hossein Mousavi, contra Ahmadinejad e o líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei. Takeyh é persuasivo, mas desanimador, sobre Khamenei, que está no poder há 20 anos e para quem o Irã não é simplesmente um Estado islâmico, mas também uma nação que poderia estar na vanguarda da luta contra o domínio americano. Fica claro que o líder nunca foi além de uma suspeita visceral dos EUA. A paranoia que Takeyh detecta em Khamenei não é um bom sinal para Obama. Como o autor observa, "o estilo de política paranoico da República Islâmica significa que ela sempre exagerou as ameaças a sua segurança". HISTÓRIAPaís xiita atacado ao longo de sua história por árabes sunitas, o Irã é uma nação desconfiada por excelência. Existe, contudo, um outro lado na República Islâmica, e Takeyh capta bem essa ambiguidade. Se a Revolução sobreviveu, ela o fez, em grande parte, pela prudência. O Irã, o vociferante pretendente à liderança do mundo islâmico, patrocinador do Hezbollah e do Hamas, inimigo de Israel, não teve quase nada a dizer sobre o sofrimento dos muçulmanos da Chechênia, porque valoriza seus laços com a Rússia. Também se calou sobre os muçulmanos uigures da China, porque precisa de Pequim. Como escreve Takeyh, o Irã é um país "simultaneamente capaz de uma agitação revolucionária e de um ajuste pragmático." Ele é autoritário, mas não monolítico. É subversivo, desde que a subversão não seja ameaçadora de sua existência. Quem quiser compreender a relação EUA-Irã deve se debruçar sobre esse estudo instigante e revelador sobre o lugar do Irã no mundo.*Roger Cohen é colunista e especialista em política externa

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