Vincent Thian/ AP Photo
Vincent Thian/ AP Photo

O Islã em números

Precisamos compreender a fundo o Islã, seus problemas e suas promessas

Moisés Naim*, O Estado de S.Paulo

25 de março de 2019 | 05h00

Por que nos odeiam? Este foi o título de capa da revista Newsweek, em outubro de 2001, poucos dias depois dos ataques de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos. O título se referia ao fato de que todos os tipos de terroristas envolvidos nos ataques eram muçulmanos, incentivados por um ódio visceral contra os Estados Unidos e o mundo ocidental. 

Os ataques provocaram uma feroz resposta militar da parte dos Estados Unidos e de seus aliados, assim como um debate intenso sobre as causas desse ódio e a melhor maneira de enfrenta-lo. Tal debate popularizou a hipótese sobre o “choque de civilizações, segundo a qual as religiões e culturas substituiriam o choque de ideologias - comunismo contra capitalismo, por exemplo - como fontes dos conflitos internacionais. O confronto entre a civilização islâmica e a do Ocidente é um importante prognóstico dessa visão.

Hoje, sabemos que esse prognóstico não foi acertado. Mais que um choque de civilizações, o que houve foi um sangrento choque dentro de uma civilização: o Islã. A grande maioria das vítimas de terrorismo em todo o mundo são muçulmanos inocentes assassinados ou feridos por muçulmanos radicalizados. 

Os ataques de terroristas islâmicos contra europeus e americanos têm sido graves e continuam sendo uma ameaça real. E o recente ataque às mesquitas na Nova Zelândia faz parte do novo ativismo criminoso dos supremacistas brancos. Mas o número de vítimas do terrorismo islâmico nos EUA e na Europa é baixo em relação às mortes que esses terroristas causam nos países muçulmanos.

Estudos

 Para enfrentar com sucesso esse terrorismo é preciso compreender a fundo suas origens e motivações, assim como a real situação do Islã. A urgência dessa melhor compreensão do Islã não é só em razão do terrorismo. Neste século, o Islã dará forma a temas críticos para a humanidade, tais como o futuro da África e do Oriente Médio, os fluxos migratórios, a luta contra a pobreza e tragédias como as da Síria, do Iêmen ou a dos rohingya, em Mianmar.

Atualmente, existem 1,8 bilhão de muçulmanos e eles são o grupo religioso que mais rapidamente cresce em razão da juventude de seus fiéis e do seu maior número de filhos. Até o final deste século haverá mais muçulmanos que cristãos no mundo e, antes disso, em 2050, 10% dos europeus serão muçulmanos.

Até o final dos anos 90, a análise do papel do Islã no desempenho econômico havia sido predominantemente dominada por teólogos, sociólogos e analistas políticos. Isso está mudando e há cada vez mais pesquisas de economistas que aplicam ao estudo do Islã as teorias e os modernos métodos de suas disciplinas. 

Timur Kutan, professor da Universidade de Duke, nos Estados Unidos, acaba de publicar a mais minuciosa resenha já feita até agora da relação entre o Islã e a economia. A abrangência do trabalho é vastíssima e impossível de ser resumida, porém o texto completo está no Journal of Economic Literature.

Uma das perguntas mais críticas é se o Islã retarda o desenvolvimento econômico. A realidade é que os países onde a maioria da população é muçulmana são mais pobres que a média do restante do mundo. Em 2017, a renda per capita nos 57 países membros da Organização de Cooperação Islâmica foi, em média, US$ 11.073. Nesse ano, a renda per capita de todos os demais países foi de US$ 18.796. 

Em países de maioria muçulmana, a expectativa de vida é mais baixa e o analfabetismo, mais elevado. Além disso, em países como a Índia, por exemplo, onde importantes porcentagens da população são de diferentes religiões, os muçulmanos tendem a ser os mais pobres. A pobreza relativa dos muçulmanos ocorre tanto em países onde eles são minoria como naqueles onde eles se constituem no maior grupo religioso. 

Revisão científica

Apesar de tudo isso, o professor Kuran alerta que, embora tais dados sejam muito sugestivos, ainda não são suficientes para se concluir que o Islã é incompatível com a prosperidade econômica. Afinal, as economias dos países pobres do sul da Ásia e da América Latina também sofrem de um medíocre e crônico desempenho.

A revisão dos artigos científicos publicados desde 1997 revela outros resultados interessantes. Por exemplo, aqueles que participam da peregrinação anual a Meca adotam atitudes que favorecem o desenvolvimento econômico e uma maior tolerância em relação aos não muçulmanos. Os indivíduos cujas mães fizeram jejum durante o Ramadã, estando grávidas deles, têm vidas mais curtas, saúde pior, menor acuidade mental, baixos resultados educacionais e um fraco desempenho no trabalho. 

Além disso, a filantropia dos muçulmanos tende a favorecer mais a classe média que os pobres. As regras que regem as chamadas “finanças islâmicas” não têm maior efeito sobre a conduta financeira dos muçulmanos. Os governantes de países muçulmanos contribuíram para a persistência do autoritarismo, através do uso do Islã com fins políticos.

Por isso, precisamos de mais e melhores estudos desse tipo. Agora, mais que nunca, nos faz falta compreender a fundo o Islã, seus problemas e suas promessas. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

*É ESCRITOR VENEZUELANO E 

MEMBRO DO CARNEGIE ENDOWMENT, 

EM WASHINGTON

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