O isolamento de Assad

Dezenas de milhares de sírios aclamaram o regime de Bashar Assad, no domingo, em todas as cidades do país. Após seis meses de tumultos, e apesar de uma repressão selvagem, as manifestações favoráveis ao presidente tinham como finalidade provar que ele controla a situação e mostrar que a primavera árabe, que já tirou do poder os tiranos do Cairo, de Túnis e de Trípoli, não tem futuro na Síria.

É CORRESPONDENTE EM PARISGILLES LAPOUGE, É CORRESPONDENTE EM PARISGILLES LAPOUGE, O Estado de S.Paulo

17 de novembro de 2011 | 03h07

Entretanto, o que ocorre é justamente o oposto. Evidentemente, a afluência da multidão confirmou que o regime sírio, ao contrário de Egito e Tunísia, ainda têm partidários, mas está cada vez mais isolado no plano internacional. Há meses, o Ocidente, revoltado com a brutalidade dos soldados sírios contra os revoltosos, abandonaram o regime de Bashar. No entanto, sozinhos não poderiam derrubá-lo do trono.

Contentaram-se, então, em assistir horrorizados ao genocídio, em lugar de intervir diretamente, como fizeram na Líbia graças à ação da Otan. Damasco tornou-se uma enorme batata quente que nenhum ocidental se arrisca a tocar, temendo desencadear uma profunda agitação social não apenas na Síria, mas também em todo o Oriente Médio.

Na semana passada, as cartas diplomáticas foram redistribuídas. Os países da Liga Árabe, que nunca haviam se destacado pela coragem, interromperam seu sono habitual. Há algumas semanas, haviam apresentado um "plano de saída da crise", que foi ridicularizado por Damasco. Furiosa, a organização decidiu, no sábado, suspender a Síria.

A decisão quebrou a relação de forças. Se é fácil para um país árabe repelir as acusações do Ocidente sob o pretexto de que eles continuam aferrados ao seu habitual colonialismo, bem mais complicado é para um país árabe opor-se à própria comunidade árabe.

Catar e a Arábia Saudita estão à frente das críticas contra a Síria. A Liga Árabe convidou todos os países árabes a retirarem seus embaixadores de Damasco e pediu à oposição síria, atualmente muito fragmentada, que se reúna no Cairo para preparar a indispensável transição.

Essas decisões mostram que, há alguns meses, o mundo árabe está resolvido a mudar. O regime sírio, porém, fechado em suas certezas e suas lembranças, não se dá conta disto. A guinada da Liga Árabe para o campo dos que querem se livrar da tirania síria, rompe o equilíbrio da região.

Até o momento, todas as ações da ONU foram bloqueadas por Rússia e China. A partir de agora, e levando em conta a mudança dos países árabes, Moscou e Pequim ficaram isolados e obrigados a abrandar sua recusa, enquanto o essencial é obter a queda de Assad sem uma "guerra religiosa", que seria sangrenta em um país dilacerado entre sunitas (75%), alauitas (12%) e cristãos (10%), sem esquecer de alguns drusos. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

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