O Japão e a virada nacionalista

Se um nacionalismo moderado for atrelado a reforma, os resultados podem ser positivos dentro de fora do país

JOSEPH NYE JR., PROJECT SYNDICATE, O Estado de S.Paulo

12 de novembro de 2012 | 02h04

O Japão tem sido muito citado nos noticiários ultimamente devido à disputa com a China envolvendo 6 quilômetros quadrados de ilhotas que Tóquio chama de Senkaku e a Pequim de Diaoyu. A reivindicação de ambos os países remonta ao século 19, mas o recente acesso de antagonismos que tem provocado manifestações generalizadas contra os japoneses na China teve início em setembro, quando o governo do Japão adquiriu três das ilhas de seu proprietário particular.

O primeiro-ministro Yoshihiko Noda disse ter adquirido as ilhas em nome do governo central japonês para impedir que o governador de Tóquio, Shintaro Ishihara, as adquirisse com fundos municipais. Ishihara, que se demitiu do cargo para lançar um novo partido político, é muito conhecido por suas provocações nacionalistas e Noda temia que ele ocupasse as ilhas ou encontrasse um outro meio para provocar a China e insuflar o apoio popular no Japão. Mas as autoridades chinesas não aceitaram as explicações de Noda e interpretaram a aquisição como uma prova de que o Japão está tentando subverter o status quo.

Em maio de 1972, quando os Estados Unidos devolveram a prefeitura de Okinawa para o Japão, a transferência abrangeu as Ilhas Senkaku, que os americanos administravam a partir de Okinawa. Alguns meses depois, quando China e Japão normalizaram suas relações após a 2.ª Guerra, o então premiê japonês, Kakuei Tanaka, questionou seu colega chinês, Chu En-lai, sobre o arquipélago e ouviu que o assunto devia ser deixado para as futuras gerações.

Assim, ambos os países mantiveram sua reivindicação por soberania sobre as ilhas. Embora o Japão tivesse o controle administrativo, navios chineses ocasionalmente penetravam em águas japonesas para afirmar sua posição legal. Para a China, foi esse status quo que o Japão subverteu em setembro. Em Pequim, recentemente, analistas chineses me disseram acreditar que o Japão está entrando numa fase de nacionalismo militarista de direita e a compra das ilhas foi uma tentativa deliberada para começar a minar um acordo firmado após a 2.ª Guerra.

Um grupo de estudantes da Universidade Waseda foi entrevistado recentemente e questionado sobre o que pensa do Exército. Enquanto um número significativo manifestou desejo de que o Japão aumente sua capacidade de autodefesa, uma maioria esmagadora rejeitou a ideia de o país fabricar armas nucleares e disse apoiar a continuação do tratado de segurança assinado por Japão e EUA.

O Japão realizará eleições parlamentares o mais tardar em agosto, mas talvez elas sejam antecipadas para o início de 2013. De acordo com pesquisas de opinião, o Partido Democrático, que passou a governar em 2009, deverá ser substituído pelo Partido Liberal Democrático, cujo presidente, Shinzo Abe, se tornará o primeiro-ministro - cargo que o líder já ocupou. Abe tem fama de nacionalista e, recentemente, visitou o Santuário de Yasukuni, memorial de guerra erguido em Tóquio e muito controvertido na China e na Coreia. Além disso, Toru Hashimoto, o jovem prefeito de Osaka, a segunda maior cidade do Japão, criou um novo partido e também tem fama de nacionalista.

Ao que parece, a política japonesa vem mostrando sinais de duas décadas de escasso crescimento econômico, o que levou a problemas fiscais e uma atitude mais introvertida por parte dos mais jovens. As matrículas de estudantes japoneses nas universidades americanas caíram mais de 50% desde 2000.

Há 30 anos, o professor de Harvard Ezra Vogel publicou o livro Japan as Number 1: Lessons for America, celebrando a ascensão japonesa alimentada pela atividade industrial que tornaria o país a segunda maior economia mundial. Recentemente, Vogel descreveu o sistema político do Japão como "uma confusão total", em que o primeiro-ministro é substituído quase todos os anos e as expectativas da geração mais jovem são cada vez menores em virtude de anos de deflação. Yoichi Funabashi, ex-editor-chefe do jornal Asahi Shimbun, também está preocupado: "No Japão, o sentimento é de que não estamos preparados para ser um ator vigoroso e competitivo nesse mundo globalizado".

Apesar desses problemas, o Japão ainda tem muita energia. Embora, há dois anos, a China tenha superado o país como segunda maior economia mundial, o Japão é uma sociedade confortável, com uma renda per capita muito superior à dos chineses. Tem famosas universidades, um elevado grau de escolaridade, companhias globais bem administradas e uma sólida ética de trabalho. É uma sociedade que se reinventou por duas vezes em menos de 200 anos - na Restauração Meiji, no século 19 e depois da derrota de 1945. Alguns analistas esperavam que o terremoto do ano passado, o tsunami e a catástrofe nuclear desencadeassem um terceiro esforço de reinvenção nacional, mas isso ainda não ocorreu.

Muitos jovens japoneses alegam que estão fartos da estagnação e da deriva observada no país. Quando indagados sobre a tendência a uma política de direita, alguns membros mais jovens do Parlamento disseram esperar que isso possa produzir um realinhamento entre os partidos políticos que leve a um governo nacional mais estável e nacionalista.

Se um nacionalismo moderado se atrelar à reforma política, os resultados podem ser bons para o Japão e o resto do mundo. Mas se um sentimento nacionalista mais profundo resultar em posições simbólicas e populistas que conquistem eleitores internamente, mas provoquem o antagonismo dos vizinhos, o Japão e o mundo serão menos afortunados. O que suceder na política japonesas nos próximos meses repercutirá muito além das costas do país. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

 

É CIENTISTA POLÍTICO

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