The Asahi Shimbun/AFP
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O japonês que salvou seis mil judeus durante o Holocausto

Chiune Sugihara se inspirou em um ditado samurai para salvar milhares de pessoas desafiando seu próprio governo e em detrimento da sua carreira

David Wolpe, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

17 de outubro de 2018 | 05h00

“Nem mesmo um caçador pode matar um pássaro que voa na sua direção em busca de refúgio”. Este ditado samurai inspirou um homem inteligente e corajoso a salvar milhares de pessoas desafiando seu próprio governo e em detrimento da sua carreira. Em 12 de outubro cheguei a Nagoya a convite do governo japonês para discursar em honra à sua memória.

Hoje o extraordinário Chiune Sugihara novamente traz à tona estas questões: “O que forma um herói moral? E como uma pessoa decide salvar pessoas que outros abandonaram?”

Pesquisas feitas sobre pessoas que salvaram judeus durante o Holocausto mostram que muitas já eram indivíduos independentes desde a infância. Sugihara era um ser nada convencional numa sociedade conhecida por valorizar a conformidade. Seu pai insistia para o filho, um aluno exemplar, se tornar médico, mas Sugihara quis estudar línguas, viajar e mergulhar na literatura.

Forçado a prestar exame para medicina, ele deixou a folha de respostas em branco. O mesmo traço de voluntariedade ficou à mostra quando ingressou na carreira diplomática e, como vice-ministro das Relações Exteriores do Japão na Manchúria em 1934, renunciou ao posto protestando contra o tratamento dado aos chineses pelos japoneses. 

Uma segunda característica de heróis e heroínas como ele, como o psicólogo Philip Zimbardo descreve, é “que as mesmas situações que inflamam a imaginação hostil em alguns indivíduos e os transformam em vilãos, podem também instilar a imaginação heróica que os leva a atos de heroísmo”. Enquanto o mundo ao seu redor desdenhava do sofrimento dos judeus, Sugihara foi incapaz de ignorar o desespero deles.

Em 1939 ele foi enviado à Lituânia para dirigir o consulado do seu país e logo deparou com os judeus que fugiam da Polônia ocupada pela Alemanha. Por três vezes ele telegrafou à sua embaixada pedindo permissão para emitir vistos para os refugiados. A resposta que recebeu de K. Tanaka, do ministério do Exterior do seu país foi: “Com relação aos vistos de trânsito pedidos anteriormente. Aconselho absolutamente que não seja emitido para qualquer viajante que não possuir visto com garantia de partida. Nenhuma exceção deve ser feita. Nenhuma nova solicitação esperada”. 

Sugihara conversou sobre essa recusa com sua mulher, Yukiko e com seus filhos e decidiu que, não obstante os danos inevitáveis à sua carreira, ele desafiaria seu governo.

Zimbarbo chama essa capacidade de agir diferentemente de “imaginação heróica”, o foco no dever de ajudar e proteger os outros. Esta capacidade é algo excepcional, mas as pessoas que a possuem com frequência não lhe dão a importância devida. Anos depois da guerra, Sughihara falou sobre suas ações e as taxou de naturais. “Tínhamos milhares de pessoas penduradas nas janelas da nossa residência”, ele afirmou em uma entrevista que concedeu em 1977. “Não havia outra maneira”, acrescentou. 

Em 12 de outubro, fiz um pronunciamento na antiga escola que Sugihara frequentou em Nagoya, durante cerimônia de inauguração de uma estátua de bronze dele entregando vistos para uma família de refugiados. Após a cerimônia, diante de cerca de 1.200 alunos, conversei com seu único filho remanescente, Nobuki, que veio da Bélgica para a homenagem ao pai. Ele me disse que Sugihara “era um homem muito simples. Gentil, adorava a leitura, jardinagem e os seus filhos. E nunca achou que o que havia feito foi algo notável ou fora do comum”.

Grande parte do mundo viu uma multidão de estrangeiros desesperados. Mas Sugihara viu seres humanos e entendeu que poderia salvá-los por meio de uma ação prosaica, mas essência. “E grande parte disso foi fornecendo vistos que redigia manualmente. Em uma semana emitiu vistos que normalmente cobririam um mês. Sua mulher, Yukiko, massageava suas mãos à noite, que doíam por causa do esforço constante.

Quando o Japão finalmente fechou a embaixada, em setembro de 1940, ele levou consigo todo o material de escritório e continuou a escrever à mão os vistos que não tinham legitimidade jurídica, mas funcionavam porque traziam o selo do governo e o seu nome. Pelo menos 6.000 foram expedidos para as pessoas viajarem através do Japão para outros destinos, e em muitos casos famílias inteiras transitaram usando um único visto. Segundo estimativas mais de 40.000 pessoas estão vivas hoje por causa deste único homem.

Com o consulado fechado, ele teve de deixar o país. E forneceu o selo do consulado para um refugiado para ele forjar novos vistos e, literalmente, da janela do trem em que estava, jogou vistos para refugiados que estavam na plataforma.

Após a guerra Sugihara foi demitido das suas funções. Perdeu um filho de sete anos de idade e assumiu trabalhos humildes. Foi somente em 1968, quando foi encontrado por um sobrevivente, Yehoshua Nishri, que a sua contribuição foi reconhecida. Nishri era adolescente a Polônia quando foi salvo por um visto emitido por Sugihara e hoje trabalha na embaixada de Israel em Tóquio.

Sugihara morreu em 1986. Nove anos antes ele concedeu uma entrevista e lhe foi perguntado a razão de agir daquela maneira. “Eu disse ao ministério do Exterior que era uma questão de humanidade. Não me importava se perderia o emprego. Qualquer outra pessoa teria feito a mesma coisa se estivesse em meu lugar”.

Naturalmente muitos estiveram em seu lugar, mas poucos agiram do mesmo modo que ele. Coragem moral é algo raro e grandeza moral ainda mais raro. Ela exige uma combinação potente e misteriosa de empatia, vontade e a convicção profunda de que as normas sociais não podem ser alteradas.

Como Sugihara teria reagido à crise dos refugiados que enfrentamos hoje, e a resposta de tantos líderes fechando com ferrolhos as portas de entrada? Não existe uma resposta simples adequada à gravidade da situação. Mas temos de ter diante de nós a imagem de um homem, sobrecarregado, isolado e oprimido que se recusou a fechar os olhos para o caos diante da sua janela. Que compreendeu as obrigações comuns a todos nós e ouviu nas súplicas em uma língua estrangeira a mensagem universal da dor.

Em 12 de outubro, disse aos alunos daquela escola que um dia em cada uma das nossas vidas haverá um momento em que será necessário decidir entre fechar a porta ou abrir os nossos corações. Quando chegar esse momento, implorei a eles para se lembrarem que eram da mesma escola que foi frequentada por um grande homem que, quando os pássaros voaram para eles em busca de refúgio, ele não os abandonou. / Tradução de Terezinha Martino

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