KCNA/Handout via REUTERS/File Photo
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O jogo acabou e Pyongyang venceu

Não há nenhuma opção militar plausível no horizonte para lidar com o programa nuclear da Coreia do Norte

Jeffrey Lewis / FOREIGN POLICY, O Estado de S.Paulo

11 Agosto 2017 | 05h00

Na quarta-feira, o Washington Post deixou claro que a Coreia do Norte possui um grande estoque de armas nucleares compactas que podem ser acopladas a mísseis, até mesmo mísseis balísticos intercontinentais capazes de atingir os EUA. Essa é outra maneira de dizer que o jogo acabou. E também de dizer “eu avisei”.

Existem duas avaliações mencionadas na reportagem do Post. Na primeira, a comunidade da inteligência – e não apenas a Agência de Inteligência da Defesa – “estima que a Coreia do Norte fabricou armas nucleares que podem ser transportadas por mísseis balísticos, incluindo os ICBMs (mísseis balísticos intercontinentais). A outra avaliação estimava que o país possui 60 armas nucleares. Juntas, as duas avaliações deixam claro que a possibilidade de uma desnuclearização da Coreia do Norte por meio da diplomacia ou pela força deixou de existir.

Os norte-coreanos realizaram cinco testes nucleares. É muito. Muitas pessoas pensaram erroneamente que o primeiro teste foi um fracasso. A opinião geral era a de que os norte-coreanos não conseguiriam produzir uma arma nuclear. Era também minha primeira impressão. Mas sempre havia a outra possibilidade. 

De acordo com relato de um desertor, a Coreia do Norte queria avançar diretamente para a fabricação de armas nucleares avançadas e compactas o bastante para serem acopladas a mísseis. Isso não surpreende. Iraque e Paquistão também tentaram esse caminho. Os resultados decepcionantes de alguns dos testes não foram resultado de incompetência, mas de ambição.

Há também a questão do local dos testes. A Coreia do Norte testa suas armas nucleares em túneis subterrâneos sob montanhas altíssimas. Quando meu instituto de pesquisa utilizou dados topográficos para construir um modelo em 3D, percebemos que essas montanhas são tão altas que abafam o barulho das explosões. Alguns testes “decepcionantes” podem não ter sido de fato decepcionantes. 

O fato de as armas nucleares norte-coreanas usarem menos material físsil do que era esperado ajuda a explicar a segunda avaliação feita, de que o país tem mais bombas do que tem sido normalmente anunciado. Segundo o desertor, a primeira arma nuclear da Coreia do Norte teve somente quatro quilos da reserva limitada de plutônio que o país produziu em seu reator em Yongbyon. Os próprios norte-coreanos afirmam que no primeiro teste usaram apenas dois quilos de plutônio, fato que espantou muitas pessoas. Parecia implausível. O problema é que eles continuaram tentando e, no final, tiveram sucesso.

Temos também de pensar seriamente que o país deve ter aumentado sua reserva de plutônio, acrescentado urânio altamente enriquecido em cada bomba e desenvolvido projetos em que é utilizado somente urânio. A Coreia do Norte tem capacidade de produzir urânio altamente enriquecido. Temos observado há muito tempo que a única usina que o país exibe para os estrangeiros parece menor do que as construídas mais recentemente, com capacidade para processar urânio.

A menos que a comunidade de inteligência saiba exatamente onde o país está enriquecendo urânio e o porte de cada instalação, não conseguiremos calcular quantas armas nucleares o país pode ter. Mas 60 bombas não constituem um arsenal absurdamente grande. O problema é que já sabíamos disso. Claro que não é a mesma coisa quando eu constato isto. Sou apenas um desconhecido que vive na Califórnia. Mas quando alguém com gravata e um emprego em Washington faz essa afirmação, a história se torna notícia.

A grande questão é o que fazer a partir daqui. Alguns colegas meus acham que os EUA precisam convencer a Coreia do Norte a abandonar, ou pelo menos congelar, seus programas. Não estou tão seguro. Suspeito que vamos ter de nos conformar, tentar diminuir a tensão e conviver com o problema. E a única maneira correta é dialogar com os norte-coreanos.

Outras opções são simplesmente terríveis. Não há nenhuma opção militar plausível. A Coreia do Norte tem um número desconhecido de mísseis armados com bombas atômicas, talvez 60, incluindo aqueles que podem atingir os EUA. Você acha realmente que ataques lançados pelos EUA conseguirão atingir todos eles? Que nenhum deles alcançaria Seul, Tóquio ou Nova York? Ou que as defesas contra mísseis dos EUA funcionarão melhor do que o projetado, interceptando todos os mísseis lançados?

Um belo dia talvez possamos interceptar a maior parte dos mísseis e salvar muitas cidades, como Seul e Nova York, mas perder algumas como Tóquio. Salvar duas das três não é tão ruim, certo? É brincadeira – na verdade, não é. Seja bem-vindo ao nosso novo mundo. E não diga que não avisei. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É DIRETOR DO SETOR DE NÃO PROLIFERAÇÃO NUCLEAR NA ÁSIA DO CENTRO JAMES MARTIN

 

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