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O jogo de Raúl Castro

Para prosperar, líder cubano depende do que fará Donald Trump

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

04 Dezembro 2016 | 05h00

“Estão detidos por ordem da segurança militar.” O guarda parece saborear o peso de suas palavras, enquanto seu colega o espera dentro do veículo da empresa de segurança particular do Porto de Mariel, que bloqueia a passagem do nosso carro, à saída de uma obra da empresa mexicana Devox, de logística e eletrônica. “Aqui é uma zona militar, não se pode tirar fotos. Têm de esperar até que chegue a viatura das FAR”, diz ele, referindo-se às todo-poderosas Forças Armadas Revolucionárias cubanas. 

Era para ser uma reportagem sobre a economia cubana, mas acabou se tornando uma ameaça à segurança nacional. Além de um jipe da Prevenção das FAR, com quatro militares, vieram uma viatura com dois policiais e uma moto com dois funcionários da Imigração. A detenção para averiguações durou mais de uma hora.

Essa é a Cuba de Raúl Castro. Desde que substituiu oficialmente Fidel, em 2008, Raúl tem deslocado os negócios mais lucrativos da ilha - a Zona Especial de Desenvolvimento (ZED) de Mariel, o turismo, bancos, minérios, açúcar etc. - das mãos de corporações dirigidas por pessoas leais a seu irmão para os militares. 

A caserna é o mundo do líder máximo de Cuba: ele sempre foi o ministro da Defesa, o braço armado do regime. Expansivo e carismático, Fidel construíra uma rede bem mais ampla de confiança. O horizonte de Raúl é bem menor, e ele não está disposto a correr riscos. Hoje, calcula-se que 60% da economia esteja nas mãos dos militares, o ponto de intersecção entre os poderes econômico e político. Do equilíbrio entre um e outro depende, em grande medida, o resultado do experimento de Raúl, que agora ele conduzirá com muito mais liberdade, sem a sombra crítica de Fidel, que preferia a igualdade na pobreza do socialismo do que as diferenças sociais trazidas pela prosperidade do capitalismo de Estado.

Mariel talvez seja o principal tabuleiro do ambicioso jogo de Raúl Castro, destinado a mudar a história e a feição da ilha, que de uma forma ou de outra se manteve presa no tempo ao longo de quase seis décadas, alternando a penúria com o mecenato da União Soviética ou da Venezuela, até suas respectivas falências. 

Construído pela Odebrecht, em um negócio que está sob investigação da Justiça brasileira por suspeita de tráfico de influência e desvio de dinheiro pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o terminal de contêineres custou US$ 957 milhões, dos quais US$ 682 milhões financiados pelo BNDES. 

Estímulos. A ZED oferece uma série de benefícios para as empresas se instalarem, que vão desde a isenção fiscal por dois anos até a diminuição da burocracia que inferniza os negócios em Cuba. A ideia é transformar Mariel - e, a partir dele, Cuba - numa plataforma de exportações de produtos industriais, aproveitando a mão de obra barata e relativamente bem educada da ilha. 

A Souza Cruz, já instalada em Cuba desde 1996, é a primeira empresa brasileira - tirando, claro, a Odebrecht, que cedeu lugar para uma construtora cubana - a aderir ao projeto, com um investimento de US$ 58 milhões, com a contrapartida de sua sócia local, Tabacuba, que entrou com igual valor. Outras empresas brasileiras, incluindo a Ambev, negociam sua vinda. A holandesa Unilever e companhias de Bélgica, França, México e Vietnã também estão chegando.

Em outra escala, muitos cubanos comuns estão deixando suas profissões que exigem ensino superior, como engenheiros, advogados, enfermeiros e contadores - para mencionar casos que conheci nos últimos dias em Havana - para trabalhar no setor de comércio e serviços, aproveitando as reformas introduzidas por Raúl a partir de 2011, que legalizaram essas atividades privadas, antes exercidas de forma ilegal. 

Subsídios e financiamentos dos bancos estatais para a compra de materiais de construção possibilitaram a muitos cubanos reformar as deterioradas casas, levando a um boom no setor. Além disso, os cubanos passaram a poder adquirir carros sem necessidade de autorização do Ministério da Economia, e a comprar e vender casas. 

Tudo isso trouxe uma injeção de dinheiro na economia, com efeitos visíveis. Comparados à última vez em que estive em Cuba, em 2009, os cubanos estão se alimentando, vestindo e calçando melhor. Os estrangeiros são muito menos assediados por homens tentando vender charutos e garrafas de rum roubados das fábricas estatais, e por mulheres oferecendo seus corpos. 

Há um certo frisson que lembra a China de alguns anos atrás e o Vietnã de hoje: trabalhar, prosperar, consumir, como se não houvesse amanhã. E não pensar muito - ou sobretudo não falar muito - em liberdade, democracia, etc. Enquanto Raúl conseguir manter os cubanos ocupados consigo mesmos e com seus progressos materiais, seu projeto de permanência no poder do Partido Comunista parece assegurado - embora ele pessoalmente prometa sair parcialmente de cena em 2018. 

A grande incógnita hoje se chama Donald Trump, que ameaçou revogar a normalização das relações lançada por Barack Obama. Ele ajuda politicamente, alimentando a narrativa do povo entrincheirado, ameaçado pelo imperialismo. Mas pode ser um obstáculo no caminho para a prosperidade.

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