O jogo político e a segurança dos EUA

Embaixadora americana na ONU diz que desistir da indicação do presidente Barack Obama ao cargo de secretária de Estado foi a coisa certa a fazer

É EMBAIXADORA DOS EUA NA ONU, SUSAN, RICE, THE WASHINGTON POST, É EMBAIXADORA DOS EUA NA ONU, SUSAN, RICE, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

15 de dezembro de 2012 | 02h03

Na quinta-feira, pedi para que o presidente Barack Obama não me considerasse mais para o cargo de secretária de Estado. Tomei essa decisão porque é a atitude certa para o país que eu amo. Nunca me esquivei da luta por uma causa na qual acredito. No entanto, à medida que ficava claro que minha nomeação provocaria uma longa batalha partidária, conclui que seria errado permitir que o debate continue desviando a atenção de prioridades nacionais urgentes - criação de empregos, crescimento da nossa economia, enfrentar nosso déficit, reformar nosso sistema de imigração e proteger nossa segurança nacional.

Essas são as questões que merecem nossa atenção concentrada e não uma controvérsia a meu respeito. Em 16 de setembro, quando a secretária de Estado, Hillary Clinton, não estava acessível depois de uma semana extenuante, a Casa Branca me pediu para comparecer a cinco talk shows dominicais para discutir uma série de questões de política externa: os protestos contra nossas instalações diplomáticas mundo afora, o ataque em Benghazi, na Líbia, e o programa nuclear do Irã.

Ao discutir Benghazi, eu me apoiei em pontos não sigilosos plenamente esclarecidos fornecidos pela comunidade de inteligência, que sintetizavam suas melhores avaliações correntes. Esses pontos não sigilosos eram consistentes com as avaliações secretas que recebi na qualidade de diplomata sênior. Teria sido irresponsável da minha parte substituir qualquer juízo pessoal pelo de nosso governo e errado revelar material sigiloso.

Deixei claro em cada entrevista que a informação que estava fornecendo era preliminar e as investigações em curso nos dariam respostas definitivas. Tenho um enorme apreço por nossos profissionais de inteligência, que trabalham duro para nos fornecer suas melhores avaliações com base nas informações disponíveis.

Amplas experiências mostram que nossas primeiras explicações de ataques terroristas e outras tragédias, com frequência, evoluem com o tempo. A comunidade de inteligência fez seu serviço de boa-fé. E o mesmo fiz eu. Jamais busquei de alguma maneira enganar o povo americano. Fazê-lo, iria contra meu caráter e minha vida de serviço público. Nas últimas semanas, porém, novas linhas de ataque foram levantadas para caluniar meu caráter e minha carreira.

Antes mesmo de eu ter sido indicada para algum novo cargo, um fluxo constante de acusações fabricadas pintou um retrato inteiramente falso de mim. Isto interferiu em meu trabalho em prol dos EUA na ONU e na agenda do país.Cresci em Washington e assisti a muitas batalhas sobre política e planos de ação, mas uma indicação de segurança nacional, e menos ainda uma indicação potencial, jamais deveria ter se transformado em tamanho jogo político. Há questões muito maiores em jogo. Por isso, concluí que esse desvio da atenção devia parar.

Foi a decisão acertada, por quatro razões. Primeiro, meu compromisso com o serviço público está centrado na crença de que os interesses de nosso país devem ser colocados acima dos interesses individuais. Dediquei minha vida para servir aos EUA e tentar corrigir nosso mundo imperfeito. É onde quero focar meus esforços - e não em me defender contra ataques políticos infundados.

Segundo, respeito profundamente o papel do Congresso em nosso sistema de governo. Após os covardes ataques terroristas que tiraram as vidas de quatro colegas em Benghazi, nosso governo precisa trabalhar com questões sérias e trazer os perpetradores à Justiça. Precisamos fortalecer a segurança de nossos postos diplomáticos e melhorar nossa inteligência em um Oriente Médio volátil. Realizar esses objetivos é bem mais importante do que lutas políticas ou ataques pessoais.

Terceiro, o povo americano espera que nós nos unamos para manter a nação segura. A liderança externa americana é, e sempre foi, fortalecida quando transcendemos diferenças partidárias sobre questões de segurança nacional. Os EUA são gravemente enfraquecidos quando a política vem em primeiro lugar. Se algum bem saiu da experiência dos últimos meses, espero que seja um foco renovado nos interesses do povo americano - e uma renovada insistência de que o processo de seleção de um candidato em potencial para um elevado cargo de segurança nacional seja tratado nas melhores tradições bipartidárias de nosso país.

Por último, tenho um grande emprego. Tenho a grande honra de servir como embaixadora americana na ONU. Tenho orgulho de o presidente Obama ter restaurado nossa estatura global, ter concentrado a atenção nas principais ameaças a nossa segurança e promovido nossos valores em todo o mundo.

Estou igualmente orgulhosa dos muitos sucessos de minha fabulosa equipe na missão dos EUA na ONU: salvar inúmeros civis de massacres na Líbia, impor as sanções mais duras já impostas ao Irã e à Coreia do Norte, defender firmemente a segurança e a legitimidade de Israel e ajudar no parto da mais nova nação do mundo, o Sudão do Sul. Esses esforços nos lembram que podemos fazer muito mais quando nos unimos do que quando nos dividimos. Essa é uma lição que levarei comigo enquanto continuo o trabalho do povo americano na ONU. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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