O jornalismo e o drama de um pai

Uma reportagem realista sobre a morte de um soldado em combate fere ou não os direitos da família da vítima?

Andrew Alexander, O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2010 | 00h00

THE WASHINGTON POST

O feriado do Memorial Day é especialmente difícil para aqueles cujos entes queridos morreram em combate. Para Larry Mace, de Winchester, a dor foi acompanhada por uma raiva prolongada voltada contra o jornal The Washington Post.

Seu filho, o cabo Stephan L. Mace, morreu depois de ser ferido no Afeganistão em outubro, durante uma violenta batalha contra insurgentes. Numa envolvente reportagem dominical de primeira página, publicada há três semanas, o repórter do Post encarregado de cobrir a guerra, Greg Jaffe, descreveu os esforços dos colegas de Mace para salvar sua vida enquanto eram alvo de pesado fogo inimigo.

A reportagem contava como Mace, ferido nas duas pernas e no quadril, rastejou apoiado sobre os cotovelos, gritando por socorro aos companheiros. Mace sentia muita dor. Às vezes, sua pulsação tornava-se tão fraca em decorrência da perda de sangue que eles quase o perderam.

Desesperados para salvá-lo, os demais soldados doaram várias bolsas de seu próprio sangue. Após cerca de 13 horas, um helicóptero médico conseguiu retirar Mace da zona de combate. Ele morreu na mesa de cirurgia.

Para muitos leitores, a reportagem de Jaffe transmitiu a realidade da guerra no Afeganistão e o extraordinário sacrifício e a bravura dos soldados americanos que combatem naquele país. Mas, para Larry Mace, as descrições explícitas foram chocantes e gratuitas.

"Foram detalhes que o próprio Exército não havia me relatado, que não deveriam ter sido publicados para a leitura do público, principalmente sem o meu consentimento", escreveu Larry em um furioso e-mail endereçado a Jaffe e ao editor de segurança nacional do Post, Cameron Barr.

Larry me disse que o Exército contou a ele apenas detalhes vagos sobre a luta do filho pela própria vida. Segundo ele, essas informações deveriam ser "reservadas apenas para a família". Mas quem faz parte da "família"? Mace se divorciou da mãe de Stephan, Vanessa Adelson, quando o filho estava na adolescência.

O repórter Jaffe não sabia disso quando conversou com Vanessa quando escrevia a reportagem. Ela já tinha tomado conhecimento de muitos detalhes a respeito da morte do filho a partir de relatos dos demais soldados e do laudo da autópsia. No domingo em que a reportagem foi publicada, Jaffe escreveu a Mace um e-mail pedindo desculpas.

Será que o Post deveria ter entrado em contato com Mace antes de publicar a reportagem? No mundo ideal, sim, sem dúvida. Mas é difícil culpar Jaffe, que agiu de boa-fé e se mostrou arrependido.

A questão jornalística mais ampla é determinar se o Post agiu mal ao publicar aquilo que Mace considera detalhes "extremamente gráficos", que deveriam ser mantidos na esfera particular. Essa opinião é compreensível quando enxergada pelos olhos de um pai que perdeu o filho.

Para Barr, os detalhes eram necessários para "tornar a guerra mais visível". Ele disse que o Post tem o dever de "descrever a guerra numa linguagem convincente e viva, capaz de tornar o sacrifício de pessoas como Stephan suficientemente claro para o público leitor". A guerra é realmente o inferno. A reportagem mostrou essa realidade de sem retoques, mas sem recorrer à gratuidade. O Post fez a escolha certa. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É OMBUDSMAN DO "WASHINGTON POST"

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