O jovem holandês que mapeia jihadistas

Thomas começou a se interessar pelos conflitos quando viu na TV egípcios lutando por liberdade na Praça Tahrir

KATRIN KUNTZ / DER SPIEGEL*, O Estado de S. Paulo

21 de agosto de 2015 | 15h13

Os combatentes do Estado Islâmico conquistaram Rahabi, no Iraque. E controlam a costa líbia perto de Sirte. Na Síria, acabaram de perder Tall Abyad para os curdos, mas vêm se dispersando no centro de Palmira. Thomas van Linge vigia seus movimentos. O jovem de 19 anos usa um capuz e, embora tenha recém-concluído o curso secundário, sabe melhor do que muita gente onde os jihadistas se ocultam, que áreas vêm ocupando e onde vêm sendo rechaçados.

Isso porque o jovem traçou um dos melhores mapas do mundo das caóticas zonas de guerra na escrivaninha do seu quarto em Amsterdã. Ele nunca esteve na Síria, Iraque ou Líbia e aprendeu árabe no YouTube. O jovem holandês não está de olho somente no Estado Islâmico e no seu “califado”. Sabe também o que os rebeldes do Exército Livre Sírio, da Frente Al-Nusra e o Hezbollah libanês estão fazendo. Na Líbia, vem monitorando as Brigadas Zintan, na Nigéria, o Boko Haram, no leste da Ucrânia, controla os separatistas. “Todos os lugares onde as pessoas estão se rebelando”, diz ele.

Seus mapas são usados pela CNN, pelo New York Times e até pela Der Spiegel. A pergunta é: por que um jovem de 19 anos está interessado na situação nas linhas de frente da Síria? E como ele consegue representar estes conflitos exatamente, com mais detalhes do que qualquer outro cartógrafo profissional?

Thomas van Linge ainda vive com os pais numa pequena casa perto do Aeroporto de Schiphol, onde DVDs de Guerra nas Estrelas estão enfileirados nas prateleiras. Quando olha pela janela, vê os arbustos de avelãs e um declive no jardim. À nossa pergunta, ele encolhe os ombros. Não tem resposta. É uma pessoa prática e, na sua opinião, todos devem fazer o que acham interessante. Temor de fracassar em alguma coisa? Não, responde.

Na escola, faz teatro. Conheceu a arte do movimento antroposófico, conhecida como Eurritmia, e concluiu um estágio trabalhando num asilo de idosos. Arrecadou dinheiro para espécies em risco de extinção e memorizou os nomes de todos os pássaros e mamíferos da Europa central. 

Thomas frequentou uma instituição chamada Free School, das escolas Waldorf, onde as aulas seguem os princípios de Rudolf Steiner. Uma das ideias desses educadores progressistas é que os alunos não só devem aprender como pensar e sentir, mas também como desejam aprender.

Mundo real. Numa noite, há quatro anos, ele assistiu a um programa na CNN sobre a Primavera Árabe no Egito. Viu jovens furiosos lutando por sua liberdade na Praça Tahrir, no Cairo. Sua mãe é psicóloga, seu pai economista e eles o educaram como um livre pensador, que vê o mundo como um lugar promissor. Ele diz que muitas vezes deseja que as pessoas fossem tão livres quanto ele.

Assim, escolheu a guerra na Síria como tema para seu trabalhado de formatura na escola. Examinou o mapa da Síria no Google e incluiu as linhas de frente e os grupos rebeldes. Usou cores diferentes. Estabeleceu contato com os ativistas e conquistou sua confiança. Eles, em troca, lhe enviavam informações. E, deste modo, ele continuou a atualizar seu mapa. Em janeiro de 2014, ele o divulgou pela primeira vez na sua conta no Twitter, @arabthomness. Hoje, Thomas tem mais de 14 mil seguidores do mundo todo e atualiza regularmente seus mapas.

Uma enorme quantidade de informações chega ao seu celular vindas do Twitter, Facebook e YouTube. Ele conversa por Skype com os combatentes na frente de batalha, se corresponde com ativistas e instituições beneficentes e chega até a receber mensagens de outros cartógrafos. Ele afirma usar mais de 1.100 fontes para seus mapas da Síria.

Agora que concluiu o ensino secundário, vem pensando muito sobre seus próximos passos. Diz que gostaria de trabalhar como autônomo, viajar. Durante sua pesquisa, conheceu uma jovem síria cujos pais morreram. Ela agora precisa cuidar de sua irmãzinha sozinha. Thomas van Linge, com frequência, pensa nas duas meninas. Sabe que seus mapas não ajudam as garotas.

Isso o inspirou a pensar em viajar para um dos lugares que até agora conheceu por meio de seus mapas – possivelmente para a região curda no nordeste do Iraque. Ele acha que já passou tempo suficiente monitorando a situação à distância e chegou a hora de ajudar as pessoas no local em que estão sofrendo. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

* É JORNALISTA

Tudo o que sabemos sobre:
Visão GlobalEstado Islâmico

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.