O jovem Popper

Sem Hitler e os nazistas, Karl Popper jamais teria escrito esse livro chave do pensamento democrático e liberal moderno, A sociedade aberta e seus inimigos (1945), e, provavelmente, sua vida teria sido a de um obscuro professor de filosofia da ciência confinado em sua Viena natal.

MARIO VARGAS LLOSA, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2012 | 03h03

Conhecia-se muito pouco da infância e juventude de Popper - sua Autobiografia (1976) as escamoteia quase por completo - até o surgimento do livro de Malachi Haim Hacohen, Karl Popper: The Formative Years 1902-1945 (Karl Popper: os anos de formação), exaustiva investigação sobre aquela etapa da vida do filósofo no marco deslumbrante da Viena de fins do século 19 e primeiros anos do século 20, uma sociedade multicultural e multirracial, cosmopolita, de efervescente criatividade literária e artística, espírito crítico e intensos debates intelectuais e políticos. Ali deve ter se gestado a ideia popperiana da "sociedade aberta" da cultura democrática, contraposta às "sociedades fechadas".

Como desde a ocupação nazista da Áustria, em março de 1938, a vida cultural desse país entrou numa etapa de obscurantismo e decadência da qual ainda não se recuperou - seus melhores talentos emigraram, foram exterminados ou anulados pelo terror e a censura - custa imaginar que a Viena na qual Popper fez seus primeiros estudos, descobriu sua vocação para a pesquisa, a ciência e a dissidência, aprendeu o ofício de carpinteiro e militou no socialismo mais radical, era a cidade mais culta e livre da Europa, um mundo onde católicos, protestantes, judeus integrados ou sionistas, livres-pensadores, maçons, ateus, coexistiam, polemizavam e contribuíam para revolucionar as formas artísticas, a música sobretudo, mas também a pintura e a literatura, as ciências sociais e as exatas, e a filosofia. Um livro recém traduzido para o espanhol, de William Johnston, The Austrian Mind: An Intellectual and Social History 1848-1938 (A mentalidade austríaca. História social e intelectual 1848-1938) reconstrói essa fascinante Torre de Babel na qual Popper aprendeu precocemente a detestar o nacionalismo, coisa que ele sempre identificou como o inimigo mortal da cultura da liberdade.

A família de Popper, de origem judaica, havia se convertido ao protestantismo duas gerações antes de ele nascer em 1902. Seu avô paterno tinha uma biblioteca formidável na qual ele, menino, contrairia a paixão pela leitura. Ele nunca se consolou por tê-la vendido quando ruíram as finanças de sua família, que, durante sua infância, era muito próspera. Em sua velhice, quando, pela primeira vez na vida, recebeu algum dinheiro por direitos autorais, ele tentou ingenuamente reconstruí-la, mas não conseguiu. Sua educação foi protestante e estoica, puritana e, embora tenha se casado com Hennie, uma católica, essa moral rígida, calvinista, de renúncia a toda sensualidade, de auto-exigência e austeridade extremas, o acompanhou por toda a vida. Segundo os testemunhos recolhidos por Malachi Hacohen, o que Popper mais reprovou em Marx e Kennedy não foram seus erros políticos, mas sim o fato de terem tido amantes.

Na Viena de sua juventude - a Viena Vermelha - prevalecia um socialismo liberal e democrático propício ao multiculturalismo, e muitas famílias judias integradas, como a sua, ocupavam posições de privilégio na vida econômica, universitária e até política. Seu rechaço precoce a toda forma de nacionalismo - a regressão à tribo - o fez opor-se ao sionismo e ele sempre considerou a criação de Israel "um erro trágico". No rascunho de sua Autobiografia, ele escreveu uma frase duríssima: "Inicialmente me opus ao sionismo porque já era contra toda forma de nacionalismo. Mas nunca acreditei que os sionistas se tornariam racistas. Isso me faz sentir vergonha de minha origem, pois eu me sinto responsável pelas ações dos nacionalistas israelenses". Ele pensava então que os judeus deviam integrar-se nas sociedades nas quais viviam, como sua família havia feito, porque a ideia de "povo eleito" lhe parecia perigosa. Pressagiava, segundo ele, as visões modernas de "classe eleita" do marxismo ou de "raça eleita" do nazismo.

Deve ter sido terrível para quem pensava desse modo ver como, na sociedade que acreditava aberta, o antissemitismo começava a crescer como espuma pela influência ideológica que vinha da Alemanha, e sentir-se desde logo ameaçado, asfixiado e obrigado a fugir. Pouco depois, já no exílio na Nova Zelândia, onde, graças a seus amigos F. A. Hayek e Ernst Gombrich, havia conseguido um modesto posto na Universidade Canterbury, ele iria se inteirando de que 16 parentes - tios e primos -, além de numerosos colegas e amigos de origem judaica, como ele, e perfeitamente integrados, seriam aniquilados ou morreriam nos campos de concentração vítimas do racismo alucinado dos nazistas.

Foi esse contexto que induziu Popper a afastar-se alguns anos de suas investigações científicas - antes de abandonar a Áustria ele já havia publicado Logik der Forschung (1935) (A lógica da pesquisa científica) - e prestar o que chamaria de sua contribuição intelectual à resistência à ameaça totalitária. Primeiro foi A pobreza do historicismo (1944-1945) e depois A sociedade aberta e seus inimigos (1945). Malachi Hacohen traça uma história minuciosa e absorvente das condições difíceis, pouco menos que heroicas, em que Popper trabalhou nesses livros que lhe dariam uma celebridade nunca imaginada, roubando horas das classes e obrigações administrativas na universidade, pedindo ajuda bibliográfica a seus amigos europeus, e vivendo numa pobreza que, por momentos, acercava-se da miséria, ajudado pela lealdade e a entrega missionárias de Hennie, que decifrava o manuscrito, o datilografava e, ademais, por vezes, o submetia a críticas severas.

Malachi Hacohen trabalhou tanto nesse livro como o jovem Popper em sua investigação sobre as origens do totalitarismo na Grécia clássica que, segundo ele, começa com Platão e chega até Marx, Lenin e o fascismo, passando por Hegel e Comte. E, por momentos, dá a impressão de que, em anos de dedicação, ele foi passando da admiração devota e quase religiosa por Popper a um certo desencanto ao descobrir os defeitos e manias inevitáveis, suas intolerâncias, sua pouca reciprocidade com os que o haviam ajudado, suas depressões e manias, sua pouca flexibilidade para aceitar a chegada das novas formas, ideias e modas da modernidade. Algumas dessas críticas me parecem muito injustas, mas elas não estão deslocadas em um livro dedicado a quem sempre sustentou que o espírito crítico é a condição indispensável do progresso no domínio da ciência e da vida social, que é pondo à prova do exame e do erro - isto é, tratando de "falseá-las" - que se conhece a verdade ou a mentira de doutrinas, teorias e interpretações que pretendem explicar o indivíduo isolado ou imerso no amálgama social.

Por outro lado, Malachi Hacohen deixa claramente estabelecido que, ao contrário do que se chegou a acreditar durante os anos da Guerra Fria, que Popper era o filósofo nato do conservadorismo, suas teses a respeito da sociedade aberta e da sociedade fechada, o essencialismo, o historicismo, o Terceiro Mundo, a engenharia social fragmentária, o espírito tribal e seus argumentos contra o nacionalismo, o dogmatismo e as ortodoxias políticas e religiosas, cobrem um amplo espectro filosófico liberal no qual se podem reconhecer igualmente todas as formações políticas democráticas, do socialismo ao conservadorismo, que aceitem a divisão de poderes, as eleições, a liberdade de expressão e o mercado.

O liberalismo de Popper é profundamente progressista pois está imbuído de uma vontade de justiça que às vezes se faz ausente nos que cifram o destino da liberdade só na existência de mercados livres, esquecendo que esses, por si sós, terminam permitindo, segundo a metáfora de Isaiah Berlin, que os lobos comam todos os cordeiros. A liberdade econômica que Popper defendeu devia ser complementada por uma educação pública de alto nível e diversas iniciativas de ordem social, como uma vida cultural intensa e acessível ao maior número, para criar igualdade de oportunidades que impedisse, em cada geração, a criação de privilégios herdados, algo que sempre lhe pareceu tão nefasto como dogmas religiosos e o espírito tribal. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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