O legado de Insulza e o futuro da OEA

Organismo precisa de umlíder com coragem para defender a democracia, que não tenha ambições políticas em seu próprio país

EZEQUIEL, VÁSQUEZ-GER, EL PAÍS, O Estado de S.Paulo

13 de outubro de 2014 | 02h02

Era fevereiro de 2011. Um grupo de estudantes na Venezuela tinha decidido iniciar uma greve de fome em protesto contra o governo de Hugo Chávez. Em Washington, junto com um grupo de estudantes venezuelanos, decidimos apoiar a manifestação pedindo um pronunciamento da Organização dos Estados Americanos (OEA), mediante dezenas de cartas enviadas a cada um dos embaixadores, notas de imprensa e um protesto em frente do edifício principal do organismo antes de uma sessão de seu Conselho Permanente.

Terminada essa sessão, o secretário-geral José Miguel Insulza nos concedeu uma audiência privada, na qual nos disse: "Compadeço-me de vocês, eu também sofri uma ditadura na própria carne e tive de me refugiar no exterior. Mas vocês precisam entender, Chávez não será vencido com cartas, Chávez é um ditador e, na Venezuela, há uma ditadura militar".

Esse relato ilustra a atuação política do secretário. Enquanto em privado ele declarava sua oposição à ditadura na Venezuela e recebia vítimas de familiares de presos políticos, em público, jamais exerceu suas funções para promover efetivamente a democracia na região e condenar os países que violam abertamente os princípios democráticos a cada dia.

Mas a gestão de Insulza não foi rodeada apenas por conflitos políticos. Do ponto de vista administrativo, a OEA enfrenta uma série de problemas. A falência moral da organização não sê vê apenas em suas atuações políticas externas, mas também na atuação com seu próprio pessoal. Por exemplo, o ex-embaixador do Panamá na organização Guilhermo Cochez denunciava a diferenciação que o escritório do secretário-geral costuma fazer entre empregados subordinados a ele e os demais funcionários. Dizia ainda que muitas dessas pessoas - na maioria, de origem chilena - trabalham na organização não por competência, mas pela amizade que têm com Insulza.

Por outro lado, existem neste momento ao menos cinco casos de assédio moral que estão sendo investigados internamente por diferentes comissões. Funcionários da organização manifestaram a preocupação que existe em função da falta de transparência em torno dessas investigações e a falta de conhecimento sobre canais institucionais para apresentar denúncias. Tudo isso se traduz numa insatisfação e mal-estar generalizados dentro de uma organização carente de liderança.

No início do próximo ano, a instituição elegerá um novo secretário-geral. A OEA é uma organização-chave para a América Latina. O sistema interamericano cuja proteção e promoção ela tem a seu cargo foi pioneiro na promoção de democracia, direitos humanos, liberdade de expressão e desenvolvimento da região. Mas a gestão de Insulza e sua falta de liderança interna e externa não só abandonou essas iniciativas como deixou a organização na pior situação financeira de sua história. Tudo isso em meio a ataques tanto dos países da Aliança Bolivariana para as Américas (Alba), como do próprio Congresso dos EUA, que, em diversas ocasiões, ameaçou cortar seu financiamento. O resultado é uma perda generalizada de confiança na instituição.

Analisando o rodízio normal na organização, vemos que os últimos secretários vieram da América do Sul, dos Andes, da América Central e da América do Sul novamente. Do mesmo modo, existe na organização uma regra não escrita segundo a qual a secretaria-geral adjunta cabe sempre a um país caribenho. Seguindo essa lógica, o próximo secretário deveria vir do México - país, aliás, no qual temas de segurança, narcotráfico e imigração são fundamentais. É por isso que, entre os possíveis candidatos não oficiais, são mencionados o ex-presidente Felipe Calderón, o atual representante do México na OEA, Emilio Rabasa, e a titular da Cepal, Alicia Bárcena.

Entre as pessoas que já oficializaram sua candidatura, encontram-se o chanceler uruguaio, Luis Almagro, favorito na Alba, e o ex-vice-presidente e ex-chanceler da Guatemala Eduardo Stein. Outros nomes não oficiais mencionados são o do boliviano que preside o Banco de Desenvolvimento da América Latina, Enrique García, e do ex-embaixador do Panamá na organização, Guillermo Cochez.

O continente carece de uma OEA mais forte, liderada por uma pessoa com coragem suficiente para defender a democracia, entendida como a define a própria Carta Democrática Interamericana. Alguém sem ambições políticas pessoais - algo que sempre constituiu um conflito para o atual secretário, que nunca ocultou suas ambições presidenciais em seu país -, com ampla experiência em gestão e modernização e, sobretudo, em matéria de arrecadação e administração de recursos. O problema é que hoje parece difícil que candidatos com esse perfil possam ser eleitos por um Conselho Permanente controlado majoritariamente pela Alba. No entanto, a decadência econômica da Venezuela pode abrir as portas para que um país como o México comece a exercer uma maior liderança na região e, portanto, dentro da organização. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É ANALISTA POLÍTICO E DIRETOR

DO CENTRO DE INVESTIGAÇÃO

JORNALÍSTICA DAS AMÉRICAS

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