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O legado de Obama

Maioria das medidas de política externa adotadas pelo presidente não vingou

Lourival Sant’Anna, O Estado de S.Paulo

16 de outubro de 2016 | 04h00

O presidente Barack Obama assinou na sexta-feira um decreto no qual converte a normalização das relações com Cuba em política “irreversível”. O documento contém também um apelo ao Congresso para que ponha fim ao embargo de cinco décadas contra a ilha, que “impõe um fardo sobre o povo cubano e prejudica os interesses americanos”. 

Obama considera que “o novo curso” por ele buscado, a partir de dezembro de 2014, representa o fim de “uma política ultrapassada e fracassada”. O decreto de Obama não é tão surpreendente por seu conteúdo, em linha com o que vinha sendo feito nos últimos dois anos, mas pelo momento. 

A política externa americana é tradicionalmente imobilizada pelo período eleitoral, quando, a não ser em caso de emergência, o presidente, principalmente no fim do seu segundo mandato, evita tomar iniciativas, à espera da decisão dos eleitores sobre os novos rumos do país. Russos e sírios têm se beneficiado dessa situação, numa campanha sangrenta de terra arrasada no norte da Síria, criando fatos consumados no terreno. 

É bem verdade que há muito tempo o governo Obama demonstra não saber o que fazer com a Síria. Diante do fortalecimento dos grupos islâmicos radicais como alternativa à ditadura de Bashar Assad, os americanos hesitam em impulsionar a insurgência, limitando-se a bombardear alvos do Estado Islâmico e a proporcionar treinamento e armas leves para milicianos árabes e curdos, insuficientes para alterar o curso da guerra.

As relações com a Rússia atingiram o seu pior nível de deterioração desde o fim da Guerra Fria, com a suspensão de um acordo de descarte de plutônio para evitar a fabricação de ogivas nucleares, o deslocamento de mísseis russos para Kaliningrado (enclave entre a Polônia e a Lituânia, aliados dos EUA), as disputas de influência sobre a Ucrânia e as suspeitas de envolvimento do Kremlin no vazamento de e-mails da equipe de campanha de Hillary Clinton. Os riscos envolvidos inibem qualquer ação mais assertiva frente a esse imprevisível e agressivo adversário. 

A estratégia de Obama do “pivô para a Ásia” também perdeu força, mediante a falta de compromisso de Hillary com a Parceria Transpacífico, no ambiente desfavorável ao livre comércio, criado pelas investidas populistas de Donald Trump, de um lado, e de Bernie Sanders, que concorreu com ela nas primárias democratas, de outro. 

Obama havia desenhado a parceria como forma de isolar a China. As atitudes cada vez mais ousadas dos chineses nos mares do Sul e do Leste da China, a ferocidade dos testes nucleares e disparos de mísseis pela Coreia do Norte e a atitude potencialmente mais belicosa do governo japonês, com quem os EUA têm um pacto de defesa, parecem ter desencorajado o engajamento americano na região.

A falta de resultados também é evidente no conflito palestino-israelense, que se tornou ainda mais intratável com a cristalização da política do primeiro-ministro Binyamin Netanyahu, de prioridade da segurança em detrimento da paz, de colonização da Cisjordânia e de Jerusalém Oriental; e, de outro lado, com a perpetuação do grupo extremista Hamas no poder na Faixa de Gaza. 

Nos demais países da Primavera Árabe, as políticas americanas e europeias também não levaram ao objetivo esperado, de construir regimes democráticos pró-ocidentais. A Líbia continua sem um Estado, o Egito voltou a ser uma ditadura militar disfarçada e o Iêmen vive uma guerra civil na qual a Arábia Saudita, apoiada pelos EUA, faz um papel comparável ao da Síria, bombardeando hospitais e civis.

As duas grandes realizações da política externa de Obama foram a normalização das relações com Cuba e o acordo nuclear com o Irã. O interessante é que os meios empregados em um e outro caso são opostos: enquanto Obama denuncia o embargo contra Cuba, foram as sanções impostas ao Irã que possibilitaram o acordo. A queda no poder aquisitivo dos iranianos e o risco que isso representou para a estabilidade levaram a teocracia em Teerã a permitir a eleição do moderado Hassan Rouhani, com a missão de devolver ao Irã a condição de exportador de petróleo, que ele recuperou a partir de janeiro. 

O meio foi diferente, mas a abordagem é na verdade a mesma: estender a mão para um rival, quando a oportunidade se apresenta. Obama usou precisamente essa expressão, em relação ao Irã, ao assumir o primeiro mandato, em 2009. O pano de fundo de sua nova política foi a constatação de que a tradicional aliança com a Arábia Saudita, rival regional do Irã, não podia continuar tendo um caráter incondicional, diante do apoio da monarquia e da inspiração de sua seita wahabita para os grupos extremistas islâmicos. 

Tanto o acordo com o Irã quanto a normalização com Cuba representaram quebras de paradigmas e requereram coragem para enfrentar as resistências, tanto de republicanos quanto de democratas, no Congresso. 

O que leva os presidentes a não anunciar medidas importantes durante as campanhas eleitorais é o receio de prejudicar seus candidatos. A aproximação com Cuba divide o eleitorado cubano na Flórida — Estado decisivo nessas eleições — entre duas gerações. Aqueles que migraram em seguida à revolução de 1959 tiveram seus bens confiscados e defendem a linha dura contra o regime. Já os que chegaram mais recentemente são imigrantes econômicos, não exilados políticos. Mantêm laços com a ilha e não odeiam necessariamente o regime. Desejam a eliminação das restrições aos contatos entre EUA e Cuba, em todos os níveis, que é o que Obama vem fazendo. Assim, o anúncio de sexta-feira tende a empurrar os cubano-americanos de direita nos braços de Trump e a encorajar os moderados a votar em Hillary.

No entanto, acima de tudo, as medidas representam o desejo de Obama de fortalecer o seu legado na política externa — um campo árido, em que a maioria das suas sementes não vingou.

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