O lento declínio das startups

Os baby boomers revelaram-se grandes empreendedores; hoje os jovens americanos são mais avessos ao risco

FAREED ZAKARIA* / THE WASHINGTON POST, O Estado de S. Paulo

23 Maio 2016 | 05h00

O Vale do Silício tem mais de 23 mil startups, pelo menos, é o que afirma o site AngelList. Evidentemente, é a impressão que se tem em Palo Alto. Entretanto, ocorre que este lugar é a exceção de uma preocupante tendência. Neste momento, há farta documentação mostrando que de uns 30 anos para cá a atividade das startups está diminuindo nos Estados Unidos, e caiu consideravelmente nos últimos 10 anos. Embora a cultura americana venha transformando empreendedores em figuras exponenciais, a economia americana os está produzindo em número cada vez menor.

As startups têm sido fundamentais para a saúde econômica dos Estados Unidos. Um estudo publicado em dezembro pela Agência Nacional de Pesquisas Econômicas aponta que, nos anos 80 e 90, quando o empreendedorismo estava em alta, as novas companhias foram extremamente importantes na promoção da inovação, na produtividade e na criação de empregos.

Há muitas maneiras diferentes de avaliar o crescimento e o sucesso das startups, mas todas elas apontam para uma conclusão semelhante. Segundo a Fundação Kauffman, a porcentagem de adultos proprietários de uma empresa declina desde os anos 90, quando a fundação começou a acompanhar sua evolução.

Na Brookings Institution, Ian Hathaway e Robert Litan constataram que, desde 1978, a taxa das startups (o número das companhias recém-constituídas como porcentagem de todas as firmas existentes) caiu cerca de 50%.

O que está acontecendo? Ninguém sabe ao certo. Alguns atribuem o fenômeno à crescente ingerência do governo. A crítica se justifica em parte, mas a história é complicada. Se é verdade que os impostos elevados desencorajam os aspirantes a empreendedores, como explicar a explosão das startups nos anos 70 e início dos 80, quando os impostos eram extremamente elevados? Naquele período, os EUA tinham um grande número de setores submetidos a forte regulamentação, uma estagflação econômica, turbulências sociais e políticas, e problemas geopolíticos. E, no entanto, produziram o Vale do Silício. Hoje, a Califórnia é um dos Estados americanos em que os impostos são mais altos e a regulamentação mais rigorosa; também registra uma atividade considerada das mais vibrantes em todo o mundo em termos de empreendedorismo, em setores tão diferentes quanto alta tecnologia, entretenimento e energia.

Mas a multiplicação constante de medidas reguladoras prejudica a atividade econômica. A revista Economist afirma que a economia americana se tornou menos competitiva nos últimos 20 anos. Depois de uma onda de desregulamentações nos anos 90, a burocracia proliferou, as exigências para a obtenção de licenças aumentaram, e as custas legais subiram drasticamente. Grandes empresas, há muito estabelecidas – armadas de advogados e lobistas – operam neste ambiente regulador melhor do que as novas. “É possível que ocorra alguma manipulação”, conclui a publicação. De acordo com a pesquisa da Brookings, as empresas consolidadas, com mais de 16 anos, conseguiram conquistar amplas parcelas do mercado e trabalhadores. Os autores observam: “Torna-se cada vez mais vantajoso ser uma empresa mais antiga, particularmente quando firmemente consolidada, e menos vantajoso ser um empreendimento novo”.

Mas um fator menos observado, e talvez crucial, é o fator geracional. Os baby boomers, os americanos nascidos logo após a guerra, revelaram-se grandes empreendedores: fundaram companhias quando ainda jovens e mantiveram-se à sua frente em idade mais avançada. As gerações seguintes muito provavelmente não fundaram as próprias empresas. Leigh Buchanan, citando dados de Kauffman, explicou que a porcentagem de startups fundadas por pessoas entre os 20 e os 30 anos de idade caiu de 35%, em 1996, para 18% em 2014. Ao mesmo tempo, a parcela das fundadas por pessoas de 50 ou 60 anos na realidade cresceu na última década.

Hoje, os jovens se vestem como empreendedores do Vale do Silício, consomem vorazmente tecnologia e falam de inovação disruptiva. Contudo, querem trabalhar no Goldman Sachs, McKinsey e Google. São sérios, inteligentes, realizados – e avessos ao risco.

Acaso esta cautela terá surgido depois de anos de dinheiro estagnado, crise financeira e uma economia inerte? Talvez, mas acho que há algo mais profundo. Os baby boomers cresceram nos anos 60, formaram-se em sua contracultura, foram aconselhados a se sintonizarem com suas paixões e a abandonar o velho establishment. Eles se revoltaram contra tudo: a política, a autoridade dos pais, a moral antiquada e as grandes instituições. Sua vontade de decolar por conta própria não era uma pose para obter capital inicial. Era a expressão de sua paixão.

Desse mundo boêmio nasceu a cultura informal das startups que agora se tornou tradicional. Steve Jobs explicou certa vez que usar LSD foi uma das duas ou três coisas mais importantes da sua vida. Ao falar de suas influências intelectuais, ele destacou a bíblia beatnick, o Whole Earth Catalog. Seu fundador, Stewart Brand, afirma num estudo que devemos aos hippies a revolução descentralizadora, individualista, sem líderes, dos computadores pessoais e da internet.

Evidentemente, o assalto da contracultura à cultura e aos valores tradicionais causou enormes revoltas políticas e sociais. Produziu-se um desgaste da lei e da ordem, da confiança no governo, da estrutura familiar e da deferência pela autoridade. Portanto, a questão é, por acaso teremos um rompimento, mas de um tipo que não seja muito disruptivo? /TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

* É COLUNISTA

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