O lento fim do putinismo

Analistas independentes russos dizem que pressão popular pode impedir Putin de concluir o mandato para o qual foi eleito no domingo

JACKSON , DIEHL , THE WASHINGTON POST, É JORNALISTA, JACKSON , DIEHL , THE WASHINGTON POST, É JORNALISTA, O Estado de S.Paulo

06 de março de 2012 | 03h04

Artigo

O triunfo de Vladimir Putin nas eleições de domingo era dado como certo. Mas há uma especulação febril sobre o quanto tempo ele vai durar no poder. Os russos têm repetido um mesmo refrão: a autocracia que dominou o país durante a última década morreu. Resta saber o que virá depois dela. E quando.

Uma observação parecida pode ser feita a respeito de outra ditadura aparentemente estável e de grandes proporções: a China. Planejadores do próprio governo chinês temem um cenário de incerteza política distinto do atual. Num relatório coproduzido pelo Banco Mundial, os tecnocratas do Centro de Pesquisas em Desenvolvimento do Conselho de Estado concluíram que a China deve caminhar rumo à abertura política para sustentar seu crescimento econômico nos próximos 20 anos.

Desde o início do século, Rússia e China têm sido constantes no mundo: autocráticas, resistentes à difusão da liberdade, ocasionalmente beligerantes diante de seus vizinhos e cada vez mais prósperas. Curiosamente, Putin e seus pares em Pequim têm um entendimento parecido da fonte da pressão sobre eles.

"Nossa sociedade é completamente diferente daquilo que foi na virada do século 20", escreveu Putin num artigo publicado pelo Washington Post no mês passado. "As pessoas estão se tornando mais ricas, exigentes e bem formadas. O resultado de nossos esforços são novas demandas para o governo e o avanço da classe média, indo além da garantia de sua própria prosperidade."

O estudo China 2030, produzido pelos planejadores do Estado e do Banco Mundial, diz: "A ascensão da classe média e a escolaridade cada vez mais elevada vão inevitavelmente aumentar a exigência por uma melhor gestão da sociedade e por mais oportunidades de participação no debate das políticas públicas e na sua implementação. Se não forem atendidas, tais exigências podem elevar a tensão social."

Em outras palavras, as classes médias emergentes na China e na Rússia não tolerarão ser excluídas dos processos decisórios por mais dez anos. Em Moscou, as provas disso já se fazem sentir nas multidões de dezenas de milhares de pessoas que se reuniram para denunciar fraudes nas eleições parlamentares de dezembro. Na China, as provas são vistas nas páginas do Weibo, microblog usado por aqueles que procuram um espaço para expressar suas frustrações políticas.

A questão é como a mudança ocorrerá. Putin pode ser um novo Gorbachev ou um novo Mubarak. Alguns acreditam que ele vai introduzir uma gradual liberalização. Mas sua condução da campanha eleitoral sugere algo diferente. Xi ainda não assumiu o cargo, mas demonstra pouca disposição em aceitar reformas. A repressão aos dissidentes defensores da democracia e direitos individuais no país aumentou nos últimos anos. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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