O leste vermelho

Bo Xilai tentava popularizar ícones comunistas

John Garnaut *, Foreign Policy - O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2013 | 02h12

A queda de Bo Xilai - o representante máximo do Partido Comunista em Chongqing, que quase certamente será condenado pelos crimes de suborno, corrupção e abuso de poder - deveria supostamente fazer com que a China se afastasse do seu passado maoista. No entanto, a julgar pela avançada plataforma política do presidente chinês, Xi Jinping, o programa de Bo de influência maoista tinha suas atrações - até mesmo para os herdeiros (filhos e filhas dos principais líderes), cujas famílias sofreram horrivelmente durante a Revolução Cultural.

Bo era considerado um astro em ascensão e concorrente a um cargo no Comitê Permanente do Politburo, o organismo chinês encarregado da tomada das mais importantes decisões. Ele voltou a popularizar a "cultura vermelha" - canções, poemas e iconografia popular dos anos 50 aos 70 do século 20, quando Mao Tsé-tung governou a China - na cidade e no país, tornando-se o astro da nova esquerda, da antiga esquerda, da esquerda maoista e, até certo ponto, de todos os que eram atraídos pelo charme do poder em ascensão. Bo rasgou o modelo sombrio da política chinesa e declarou guerra ao submundo de Chongqing.

A resistência nacional ao programa vermelho de Bo começou logo depois, quando advogados, jornalistas e intelectuais liberais começaram a se manifestar contra a repressão que se seguiu às suas campanhas políticas. Quando Bo prendeu o famoso advogado Li Zhuang, em dezembro de 2009, os líderes da sociedade civil começaram a debater sobre o experimento político de Bo em Chongqing.

Mas havia uma dúvida: Rumaria para a direita e a liberalização econômica, ou para a esquerda e os ideais do comunismo? O pessoal da esquerda acreditava que somente o fortalecimento do PC poderia solucionar os problemas de corrupção, desigualdade e torpor moral do país. O da direita acreditava que o verdadeiro problema era o poder sem limites do Estado, como a China dos anos de Mao.

A elite política da China tornou-se adulta num ambiente de brutalidade psicológica e física inimaginável no mundo desenvolvido. Provações cruéis eram reservadas aos "filhos dos altos funcionários" do partido, como então eram conhecidos, quando os cortesãos de Mao acusavam os pais de deslealdade à revolução. Herdeiros que conheciam bem Bo achavam preocupante era o fato de ele glorificar o mesmo movimento da era de Mao que eliminara sua mãe.

*John Garnaut é correspondente em Pequim.

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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