EFE/ Shawn Thew
EFE/ Shawn Thew

O levante das prefeitas negras durante as manifestações nos EUA

Minoria entre a classe política do país, as chefes de Executivo foram às ruas junto dos protestos contra o racismo e a violência policial

Alex Segura Lozano, EFE

09 de junho de 2020 | 12h00

LOS ANGELES - A maior onda de protestos contra o racismo e a violência policial nos Estados Unidos desde o assassinato de Martin Luther King, em 1968, fez com que as prefeitas negras do país tenham dado um passo à frente para mostrar seu desprezo pela brutalidade policial contra minorias.

Apesar de representar menos de 5% dos prefeitos de cidades com mais de 100.000 habitantes nos EUA, as líderes de Washington DC, Chicago, San Francisco e Atlanta, entre outros, marcaram posição contra o assassinato de George Floyd nos últimos dias.

O caso mais notável foi o de Muriel Bowser, prefeita da capital americana, que desafiou o presidente Donald Trump por sua ordem controversa de usar a Guarda Nacional na cidade para deter manifestantes. A poucos metros da Casa Branca, Bowser mandou pintar um grande mural amarelo no chão com uma mensagem para Trump, os dizeres "Black Lives Matter". O lema dos manifestantes também virou o nome do trecho da rua que corta a Casa Branca.

A escolha do local tem uma mensagem dupla, já que, além de estar em frente à residência presidencial, também é o cenário em que dias antes a polícia dispersava brutalmente os manifestantes para que Trump pudesse tirar uma foto enquanto segurava uma Bíblia em frente a uma igreja de Washington.

"Queremos chamar a atenção para garantir que nossa nação seja mais igual e justa e que vidas negras e a humanidade negra sejam importantes em nossa nação", disse a prefeita democrata durante a inauguração do novo nome para o trecho da rua.

No entanto, o gesto não agradou a todos, pois a associação "Black Lives Matter DC" censurou a prefeita democrata por fazê-lo como "uma distração das reais mudanças políticas" que são exigidas dela e os ativistas expandiram o mural com a mensagem "cortar fundos a polícia."

Sentimento de 'asco'

Outra voz crítica da administração de Trump após o assassinato de George Floyd é a prefeita afro-americano de Atlanta, Keisha Lance Bottoms, que está há dois anos no cargo. Falando à televisão norte-americana CNN, Bottoms disse no domingo que se sentiu "asco" depois que Trump usou o nome George Floyd para avaliar dados do último relatório de emprego, que excedeu as expectativas dos economistas.

Trump garantiu que a sexta-feira passada foi "um ótimo dia" para Floyd devido aos dados de recuperação econômica mostrados no relatório, apesar do fato de o afro-americano ter morrido em 25 de maio. "Isso apenas mostra que o presidente é incapaz de mostrar qualquer tipo de empatia. Ele está sempre errado, uma e outra vez, e acho que temos que parar de esperar algo dele", disse o também democrata.

Em um dos protestos, Bottoms pegou o megafone para lembrar de que ela atualmente pode ser prefeita "graças a seus ancestrais escravos negros", disse que a morte de Floyd a machucou como se fosse sua "mãe" e demitiu dois policiais por usar força desproporcional durante os protestos.

"Sou mãe de quatro filhos negros nos EUA, um deles com 18 anos. Quando vi o assassinato de George Floyd, doía como se ele fosse sua mãe", disse ela.

Drama familiar e direiro de viver

Quem experimentou essa situação em um grau mais drástico entre as prefeitas negras do país foi London Breed, responsável pela administração da cidade de São Francisco. A política declarou que seu primo foi morto pelo Departamento de Polícia de São Francisco em 2006, um episódio que marcou sua luta pelos direitos dos afro-americanos.

"Sim, sou a prefeita, mas primeiro sou uma mulher negra", disse ela em um discurso televisionado. Nessa alegação, Breed lamentou estar "doente e cansada" de ver negros morrerem nas mãos de policiais.

Lori Lighfoot, que se tornou a primeira prefeita negra e abertamente gay dos EUA, em 2019, também participou das manifestações, em Chicago. Para ela, é "impossível" não aceitar o assassinato de Floyd e a maneira como aconteceu "de forma pessoal". "Ser negro nos EUA não deve ser uma sentença de morte", disse ela.

Resta ver agora se essas posições fortes de prefeitas negras contra a violência policial nos EUA significarão que seus nomes começam a ser levados em consideração em nível nacional para ocupar posições políticas mais altas./ EFE

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