LEON NEAL/AFP
LEON NEAL/AFP

O levante dos conservadores

Contrariando as pesquisas eleitorais, partido de David Cameron vence uma eleição que parece deixar a Grã-Bretanha bastante fragilizada

O Estado de S.Paulo

09 de maio de 2015 | 02h03

Era para ser uma eleição apertada, uma disputa voto a voto entre conservadores e trabalhistas - que desde o fim do ano passado estavam empatados nas pesquisas de intenção de voto -, da qual nenhum dos dois partidos sairia com a maioria das cadeiras do Parlamento. Previa-se que, se não fosse possível formar o governo estável que a Grã-Bretanha tanto ansiava, as consequências para o envelhecido sistema político britânico seriam graves.

Mas, considerando o desânimo da campanha e o desempenho econômico morno que foi sua base, o Partido Conservador de David Cameron obteve uma vitória extraordinária. Os conservadores serão o maior partido da próxima legislatura. Mais que isso, eles conquistaram 8 cadeiras além das 323 necessárias para atingir a maioria dos votos no Parlamento e formar um governo sem ter de recorrer a alianças com outros partidos.

Muitos dos parlamentares do partido - que ao longo dos últimos anos passaram a nutrir repúdio por seus sócios minoritários, os liberais-democratas, na coalizão que governou o país desde 2010 - agora respiram aliviados. Cameron, um moderado que tem, em segredo, muitos pontos de concordância com os liberais-democratas, talvez preferisse formar outra coalizão. Ocorreu que os liberais democratas foram massacrados eleitoralmente e perderam a maior parte de suas 57 cadeiras, o que levou o líder do partido, Nick Clegg, a apresentar sua renúncia. De modo que a possibilidade de uma coalizão parece descartada.

Para governar com uma maioria um pouco mais folgada, Cameron pode tentar fazer um acordo menos formal com o Partido Unionista Democrata da Irlanda do Norte (DUP, na sigla em inglês), cujas oito cadeiras estão à sua disposição.

O fato de que esse resultado pareça prometer relativa estabilidade - tendo em vista algumas das alternativas possíveis - é um indício da turbulência que nos últimos tempos tomou conta da política britânica. Quando, depois do encerramento da votação, às 22 horas, as pesquisas de boca de urna foram divulgadas, a libra registrou forte valorização ante o dólar. Mas não é preciso muita reflexão para questionar o motivo dessa reação.

Na melhor das hipóteses, Cameron contará com uma pequena maioria para apoiar um programa de governo que suscita muitas resistências, como é o caso da proposta de redução dos gastos públicos - a que os adversários à esquerda do governo se opuseram de forma unida - e do referendo sobre a permanência ou não da Grã-Bretanha na União Europeia, que Cameron prometeu realizar no fim de 2017. Na Escócia, onde o Partido Nacional Escocês (SNP, na sigla em inglês) praticamente exterminou os parlamentares trabalhistas, conquistando quase todas as 59 das cadeiras do país, os resultados são ainda mais preocupantes.

Somando-se à vitória de Cameron, o triunfo do SNP leva água para o moinho de um dos principais argumentos dos nacionalistas escoceses em favor da separação: a alegação de que, com apenas um representante conservador no Parlamento, a Escócia não deveria obedecer às determinações de um governo conservador. Isso pode levar o SNP a prometer aos eleitores escoceses um novo referendo sobre a independência do país, caso o partido saia vitorioso - como muito provavelmente sairá - das eleições para o Parlamento escocês a serem realizadas em 2016. "Há um leão rugindo na Escócia - um leão escocês", declarou Alex Salmond, ex-líder do SNP, que venceu a disputa no distrito eleitoral de Gordon. Um partido cujo objetivo é fazer da Escócia um país independente agora detém enorme poder naquelas paragens. Sem sombra de dúvida, é o que aconteceu de mais relevante nesta eleição.

Apesar desses problemas, os conservadores - e também Lynton Crosby, o australiano que o partido contratou para comandar sua campanha eleitoral - podem se congratular por uma vitória admirável. Um triunfo impulsionado pela convicção de que, graças à reconhecida eficiência do Partido Conservador na gestão da economia e ao fato de Cameron ser o líder mais respeitado entre todos os principais partidos - seria possível superar a aura mais benevolente dos trabalhistas. Seu líder Ed Miliband - por ora, mas talvez não por muito tempo, por prometer submeter o capitalismo britânico a uma reforma radical, a fim de torná-lo mais produtivo e justo.

No entanto, sua esperança de arrebanhar cerca de 40 cadeiras dos conservadores em distritos da Inglaterra e do País de Gales, necessárias para que ele tivesse alguma chance de conquistar a maioria do Parlamento - tendo em vista a surra que já se previa que o partido levaria na Escócia - tinha como base promessas muito mais surradas: em essência, proteger o sistema nacional de saúde de ataques imaginários dos conservadores.

Havia motivos, respaldados pelas pesquisas, para se acreditar que Miliband poderia vencer as eleições com esse golpe baixo. A imagem de liderança conferia a Cameron uma vantagem estritamente relativa - o endinheirado líder conservador, com sua figura aristocrática numa era de sentimentos anti-establishment, inspira admiração, mas não amor, como parecem demonstrar as reações pouco entusiasmadas que ele despertou durante a campanha. Além disso, foram poucos os britânicos que se beneficiaram da recuperação econômica promovida por seu governo: mais de 2 milhões de empregos foram criados no setor privado, mas isso à custa de um crescimento sofridamente lento dos níveis salariais. E, ainda que os efeitos das medidas de austeridade implementadas ao longo dos últimos cinco anos, incluindo o corte de quase um milhão de empregos no setor público, tenham sido menos prejudiciais do que os trabalhistas alegavam, elas dificilmente obtiveram simpatia. Portanto, os conservadores tinham boas razões para estar temerosos. Mas quando as urnas foram abertas desfez-se todo o temor.

Na maioria dos distritos eleitorais em que a apuração terminou mais cedo, incluindo Swindon South, Nuneaton, Battersea, onde os candidatos conservadores, que nunca haviam tido vida fácil por ali, estavam sob forte assédio dos trabalhistas, observaram-se viradas surpreendentes em favor do partido de Cameron. E continuou assim: cadeiras que os trabalhistas esperavam conquistar, continuaram sob comando dos conservadores; cadeiras que os liberais-democratas tinham esperanças de defender - como Kingston, Twickehnham e Brecon e Radnorshire - foram conquistadas pelos conservadores. Levantamentos conduzidos por Lord Aschcroft quando a votação estava para ser encerrada indicavam que as qualidades dos conservadores haviam tido seus efeitos tradicionais: 71% das pessoas que admitiam ter votado no partido justificavam o voto dizendo que seu líder "daria o melhor primeiro-ministro".

Para os que se preocupam com as reformas que os políticos europeus precisam adotar em suas economias endividadas, sem sucumbir a apelos populistas, o resultado foi animador. Ainda que tenha feito concessões a algumas porções do eleitorado, em especial aos pensionistas, o governo de Cameron dificilmente poderia ser acusado de se esquivar de suas responsabilidades fiscais; e na campanha, o líder conservador prometeu enxugar outros 12 bilhões de libras do orçamento social.

Para os trabalhistas, o resultado foi calamitoso. Miliband fez uma boa campanha, exalando autoconfiança e exibindo novas habilidades comunicativas, adquiridas à custa de dispendiosos consultores de imagem. No entanto, como não chegou a convencer um número mais significativo de pessoas, nem mesmo no interior do próprio partido, de que estava preparado para governar, ele agora parece ter sido uma oportunidade desperdiçada num momento particularmente vulnerável para os trabalhistas. As derrotas que o partido sofreu para os populistas - tanto à esquerda, sob a forma do SNP, como à direita, na figura do Partido pela Independência do Reino Unido (Ukip) - foram destrutivas.

O fiasco dos trabalhistas na Escócia era previsível - mas isso não serve de consolo para a perda de tantos políticos de primeira linha. A derrota de Douglas Alexander - que coordenou a campanha do partido e provavelmente assumiria o Ministério das Relações Exteriores num eventual governo trabalhista - para Mhairi Black, uma estudante de 20 anos, foi a mais chocante da eleição. Não tão esperada era a perda de votos para o Ukip, em especial em redutos do norte do país, como Houghton e Sunderland South, onde os populistas de direita ficaram em segundo lugar. Isso amorteceu a decepção do Ukip com o fato de ter vencido em apenas um distrito eleitoral - e não em Thanet South, onde seu carismático líder Nigel Farage foi derrotado por um conservador. O perigo para os trabalhistas é que essa incursão nacionalista se repita, em alguma medida, nas próximas eleições - não apenas ao norte, mas também ao sul da cidade de Carlisle.

O fortalecimento dos populistas de esquerda e de direita também deveria fazer Cameron pôr as barbas de molho. O avanço do Ukip serve como amostra dos perigos envolvidos em sua promessa de realizar um referendo sobre a permanência da Grã-Bretanha na União Europeia. Sobretudo porque, em seu partido, possivelmente metade dos parlamentares está quase pedindo para ser contaminada pela virulenta eurofobia do Ukip. E a situação na Escócia põe em cena perspectivas ainda mais sombrias. O sucesso do SNP levanta a séria possibilidade de que Cameron - no momento merecidamente embriagado com a vitória - venha a ser o último primeiro-ministro da Grã-Bretanha. Mesmo antes que tenha início a disputa por cargos no novo governo, o felizardo líder conservador deveria começar a adotar esforços para tirar essa nuvem negra do horizonte.

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

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