O liberal que o tempo apagou

O mundo quase parou no centenário de Reagan, mas poucos se lembraram dos 100 anos de Hubert Humphrey

Rick Perstine, do The New York Times, O Estado de S.Paulo

30 de maio de 2011 | 00h00

Em janeiro lembramos os 100 anos de nascimento de Ronald Reagan, e o planeta quase parou de girar para celebrar a data. Na semana passada, foi o centenário de nascimento de Hubert H. Humphrey e ninguém além de mim parece ter se lembrado disso. Nosso homem esquecido nasceu em Dakota do Sul, filho de um dono de farmácia, negócio que ele assumiu depois de a família mudar-se para Minnesota.

Humphrey fez sua estreia política nacional em 1948 quando, como prefeito de Minneapolis e candidato ao Senado, chefiou a delegação da sua cidade na Convenção Nacional dos Democratas. Humphrey chegou ao Senado como o defensor incansável de uma expansão do New Deal, mas as exigências do poder não foram benévolas para a sua reputação liberal.

Em junho de 1964, teve um papel fundamental na aprovação da histórica Lei dos Direitos Civis. No entanto, naquele agosto, o presidente Lyndon B. Johnson recorreu a ele para negociar um outro acordo na convenção democrata, desta vez assumindo o papel oposto: trair um grupo de ativistas de direitos humanos do Mississippi que esperavam ter assentos como delegados, no lugar dos democratas "racistas".

Essa era uma condição de Johnson para ele disputar as eleições como seu vice. Johnson queria alguém que fizesse o que ele dissesse sem questionar.

Em breve, o vice-presidente Hubert Humphrey tornou-se o porta-voz do presidente em sua insensata guerra no Vietnã. E assumiu o papel em parte por lealdade, em parte por convicção. Para um liberal da velha guarda como ele, o Vietnã era uma cruzada contra o expansionismo imperialista. Para os democratas mais jovens da "Nova Política", contudo, a guerra na realidade simbolizava o oposto: um ataque racista por parte de um governo que era imperialista.

Foi uma desgraça Humphrey herdar a indicação à presidência em 1968, com o Partido Democrata dividido ao meio entre essas facções, uma tragédia nas urnas, com a derrota de Humphrey para Richard M. Nixon.

A derrota ocorreu em parte devido à sua recusa em denunciar a desastrosa guerra, e em parte graças ao abandono, pelos liberais da Nova Política, que o chamavam de belicista.

O pobre Humphrey jamais teve sorte. Resolutamente comprometido em criar uma coalizão, numa época em que o farisaísmo ideológico era a norma, decididamente fora de moda , quando o modismo político era valorizado, ele não foi apenas um perdedor, mas um embaraço. Ficou em segundo lugar quando da convenção do Partido para escolher seu candidato, em 1972; o vitorioso, o moralista George S. McGovern, muito mais em voga do que Humphrey, ficou muito atrás de Nixon.

No livro, por meio do qual muitos lembrariam essa eleição, Fear and Loathing on the Campaign Trail 72 ("medo e repugnância na campanha de 72", em tradução livre) , de Hunter S. Thompson, cada menção feita a Hubert Humphrey destila vitupérios. Para muitos, então, essa é a sua história: de uma nulidade, um vendido, uma piada.

Para os progressistas de hoje, contudo, nós é que fomos objeto da piada. Nos anos 70, o Partido Democrata deixou o foco na política de segurança econômica inspirada no New Deal e passou a se concentrar numa reforma institucional inspirada no Watergate. A medida foi claramente contra "você sabe quem". "Não somos um punhado de pequenos Hubert Humphreys", proclamou Gary Hart, o líder da classe democrata de 1974 no Congresso, os "Watergate Babies".

As reformas preconizadas, em grande parte não atenderam ao objetivo de liberalizar o país. Os conservadores e os interesses empresarias conseguiram derrubar as regras financeiras e os sistemas de comissões no Congresso. O que, em troca, contribuiu para provocar o que Paul Krugman chamou de "Great Divergence" (grande divergência): a desigualdade econômica que transformou em bazófia as aspirações dos americanos comuns de se juntarem e permanecerem na classe média.

Humphrey, que retornou ao Senado em 1971, passou o restante da década tentando achar soluções legislativas para a Grande Divergência. Um de seus projetos de lei, de maio de 1975, quando o desemprego atingiu 9%, propunha a criação de uma espécie de Banco Mundial doméstico para fornecer capital para os criadores de emprego.

Numa época em que outros liberais se entusiasmavam com a ação afirmativa como estratégia para apagar as cruéis injustiças da história americana, Humphrey sublinhava que os remédios com base na raça só provocariam mais divisões quando os postos de trabalho estavam desaparecendo para todos.

Em 1976, ele se juntou ao deputado Augustus Hawkins para apresentar um projeto de lei exigindo que o governo, especialmente o Federal Reserve, mantivesse o nível de desemprego abaixo dos 3%. E, se isso não fosse possível, deveria criar empregos de emergência. Parece uma heresia, mas Jimmy Carter - um novo tipo de democrata que respondia a uma nova classe média alta, um eleitorado suburbano, fustigado pelos sindicatos da indústria e enamorado da alegada mágica do mercado - nada fez.

"O governo não pode eliminar a pobreza, prover uma economia abundante ou reduzir a inflação, salvar nossas cidades, resolver o analfabetismo, nem fornecer energia", disse Carter no seu discurso em 1978 sobre o Estado da União, uma geração antes de Bill Clinton afirmar quase a mesma coisa, consolidando o abandono do ativismo governamental baseado no New Deal.

Hubert Humphrey morreu de câncer no dia 13 de janeiro de 1978, um guerreiro até o fim. "Ás vezes eu perdia a coragem", disse sua mulher, Muriel, "mas Hubert jamais".

Pode-se atacar suas supostas heresias. Mas o consenso pós-1970, desregulamentando a economia, defendido por Reagan na época, como por Robert E. Rubin hoje, também não adiantou muito.

Com a taxa de desemprego novamente em 9%, lucros corporativos em níveis recorde, mesmo diante da perfídia criminosa dos banqueiros, o déficit comercial em US$ 48,2 bilhões, não deveríamos pensar um momento no centenário de nascimento de Hubert Humphrey pela sua trajetória não seguida? / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É historiador e jornalista

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