O lobby chinês dentro das estruturas da UE

Poderio econômico de Pequim já se traduz em influência política na Europa

Timothy Garton Ash, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2011 | 00h00

Houve uma época em que a Europa colonizou pequenas partes da China. Hoje, a China coloniza pequenas partes da Europa. Informalmente, é claro, e de maneira mais educada do que quando as posições estavam invertidas. A ascensão da China ao mesmo tempo coloca em evidência e explora o relativo declínio da Europa.

A agenda do primeiro-ministro Wen Jiabao em visita à Europa incluía a Alemanha, Grã-Bretanha e Hungria. Por que a Hungria? Em parte porque o país ocupa a presidência rotativa da União Europeia, mas também porque é lá que a China fez grandes investimentos e pretende investir muito mais - assim como faz em outros países do sul e do sudeste europeu. O país tem, por exemplo, um acordo de locação do maior porto de contêineres de Pireu, Grécia, visto como um portal chinês para a Europa.

Um estudo de François Godement e Jonas Parello-Plesner, do Conselho Europeu das Relações Exteriores (Cere), ainda em fase de preparação, estima que 40% dos investimentos chineses na UE são destinados a Portugal, Espanha, Itália, Grécia e o Leste Europeu. Ao longo do último ano, líderes políticos chineses também visitaram Espanha, Portugal e Grécia.

Por que prestar tanta atenção à periferia? Bem, há investimentos promissores a serem feitos nestes países, e as economias menores e periféricas são uma maneira mais fácil de acessar um mercado único europeu de 500 milhões de consumidores. O mercado da UE é muito mais aberto aos investidores chineses do que o mercado chinês é aberto aos europeus. Um pesado investimento nestes países traz também recompensas políticas. Quanto mais eles se tornarem economicamente dependentes da China, menor a probabilidade de apoiarem medidas comuns da UE. Não é excesso de cinismo apontar que Pequim está criando uma espécie de lobby chinês dentro das estruturas decisórias da UE, onde o menor dos Estados é ao menos em tese equivalente ao maior deles.

Com a zona do euro em tratamento intensivo, países como Grécia, Espanha e Portugal ficariam muito contentes se a China comprasse parte de seus amaldiçoados títulos do governo. Apesar de não conhecermos os números exatos das compras de títulos feitas pela China, sabemos que os administradores da riqueza soberana da China têm silenciosamente diversificado suas opções de investimento, evitando os títulos do tesouro americano. Seus líderes políticos estão emitindo sinais positivos em relação à possibilidade de ajudar a zona do euro. Ou seja, a China sofreria se a economia europeia descarrilasse.

Com a maior reserva mundial de moeda estrangeira - atualmente na casa dos 3 trilhões - a China poderia comprar metade dos ativos públicos gregos privatizáveis num piscar dos olhos puxados do mandarim. Será que os gregos devem suspeitar dos chineses que chegarem trazendo presentes? Como disse um dos principais estrategistas chineses a um dos autores do próximo relatório do Cere, com delicadeza oriental: "Vocês precisam do nosso dinheiro".

Prática. Não devemos ser paranoicos e nem hipócritas em relação a isso. Se acreditamos no livre comércio e no livre mercado, então devemos praticar aquilo que pregamos. (Logo estarei dirigindo um carro fabricado por uma empresa de propriedade chinesa, a Saab.) O problema não está na facilidade com que os chineses podem investir na Europa e sim na dificuldade que os estrangeiros enfrentam para investir na China. Entretanto, não há dúvida de que o poderio econômico chinês chegou ao coração da Europa - e está ganhando influência política.

Alguns dos vizinhos asiáticos da China têm se deparado com uma faceta muito mais incisiva da ascensão chinesa. Conforme o país leva a cabo suas tentativas de controlar o Mar da China Meridional, embarcações da marinha chinesa cortaram por duas vezes nas últimas semanas os cabos de navios vietnamitas de prospecção de petróleo. Enquanto alguns na Europa ainda sonham com um mundo pós-moderno de soberania compartilhada, a geopolítica asiática assemelha-se cada vez mais à situação europeia do fim do século 19, e não do fim do século 20. Inquietas potências soberanas disputam a supremacia, construindo marinhas e exércitos, disputando o controle de territórios e mares.

Jamais me esquecerei de minha primeira conversa com um dos principais autores chineses no campo da relações internacionais, Yan Xuetong. Debatendo a ascensão da China, observei que a transferência da supremacia global da Grã-Bretanha para os EUA após 1945 foi o único exemplo que conheço de uma grande transferência hegemônica que não foi acompanhada por uma guerra. "Como assim?", ele interrompeu Yan, agitando as mãos. "Houve uma guerra! O detalhe é que a guerra foi contra outro país..." Ele tinha razão. A guerra contra a Alemanha nazista de fato catalisou a transferência hegemônica de Londres para Washington.

Reação. Vamos torcer para que a história não se repita. Mas seria muito surpreendente - à luz de todos os precedentes históricos - se a ascensão da China não for acompanhada, em algum momento nas próximas duas décadas, por um conflito armado contra um de seus vizinhos menores. Pode ser o Vietnã, o que levaria à pergunta de qual seria a reação americana.

Além das dimensões econômicas e militares do poderio emergente da China existe uma terceira dimensão: o poder político, cultural ou "brando". Yan Xuetong acabara de preparar o fascinante livro Pensamento da China Antiga, Poder da China Moderna, dedicada à exploração das lições do pensamento político pré-Qin - ou seja, anterior a 221 a. C. - para a China contemporânea. Yan defende que duas ideias contrastantes do poder estatal podem ser discernidas: a hegemonia e a "autoridade humanista". Nela a sabedoria, a virtude e a benevolência dos regentes não apenas satisfazem seu próprio povo como também atraem os demais, com isto disseminando seus costumes para além das fronteiras.

Apesar de não se mostrar completamente avesso à simples hegemonia, Yan defende que a China deveria aspirar a este tipo mais ambicioso de poder político - promovendo, entre outras medidas, "uma constante renovação do sistema político". Ele sugere também que "a China deve incluir o princípio da democracia entre as ideias que promove".

A partir do grande reformista Deng Xiaoping, o país pode anunciar o triunfo moral de ter tirado centenas de milhões de pessoas da pobreza. Aos olhos dos países em desenvolvimento de todo o mundo, seu modelo de capitalismo administrado pelo Estado é um desafio ideológico ao modelo do capitalismo liberal de livre mercado, dilacerado pela crise.

Mas, nos últimos dois anos, um nervoso Partido Comunista, na véspera da transição de sua liderança marcada para 2012, reverteu a uma forma que está muito longe de ser humanista - desde o tratamento das minorias étnicas do país à detenção do artista Ai Weiwei.

Nenhuma das três facetas do poder chinês - econômica, militar e política - pode ser separada das demais. Todas elas estão mudando. E a influência dos estrangeiros no desenvolvimento desta superpotência ascendente será limitada. Assim, devemos colocar a casa em ordem, observar atentamente, e torcer pelo melhor. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É AUTOR E PROFESSOR DE ESTUDOS EUROPEUS DA UNIVERSIDADE OXFORD

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