O longo verão de Berlusconi

Enquanto espera o fim do recesso do Parlamento, premiê italiano prepara batalha para enfrentar seu maior rival

FIONA EHLERS DER SPIEGEL, O Estado de S.Paulo

13 de agosto de 2010 | 00h00

Na noite da quarta-feira passada, a cena na Câmara dos Deputados da Itália mostrou como são as coisas quando os governos italianos entram em colapso, ou se aproximam muito disso: os parlamentares saltaram de suas cadeiras e apontaram dedos acusadores uns para os outros, gritando, forjando alianças de última hora ou brigando. Um partidário do premiê Silvio Berlusconi chegou a agredir um desertor da facção de Gianfranco Fini com os documentos de sua campanha.

As facções estão no auge da rivalidade, e o governo italiano enfrenta uma de suas piores crises. O que ocorreu na Câmara Baixa do Parlamento italiano é apenas uma amostra daquilo que pode imobilizar o país nos próximos meses. Brigas partidárias, impasse, eleições antecipadas: tudo parece possível.

A crise foi detonada pela expulsão de Fini, presidente da Câmara, do partido Povo da Liberdade, ao qual pertence Berlusconi. O episódio marcou o fim de 16 anos de amizade entre os dois. Enquanto a ruptura entre Fini e Berlusconi é clara, a situação do Parlamento tornou-se nebulosa. Até agora, 33 membros da Câmara Baixa e 10 senadores seguiram Fini na formação apressada de um novo partido. O premiê precisa agora de seis votos para obter maioria.

Por meses, Fini fez todo o possível para afundar o projeto favorito do primeiro-ministro, a chamada "lei da mordaça", cujo objetivo era limitar a solicitação de escutas telefônicas por parte dos tribunais e dos investigadores. Além disso, a cobertura da mídia sobre investigações em aberto seria limitada. Acima de tudo, ele fez o impensável ao repreender Berlusconi em público.

Talvez Fini tenha dado passos tão ousados por acreditar que há muito tempo Berlusconi se encontra no limite de seus recursos políticos. Ele passou tempo demais à sombra do premiê, e agora que o brilho de Berlusconi está minguando, Fini crê que chegou sua hora. Ele está atingindo Berlusconi em seu ponto mais vulnerável, acusando-o de fazer parte de uma rede criminosa e de ter um único objetivo na vida: enriquecer. Fini sabe que isso toca num aspecto importante para os italianos, que provavelmente ficariam entusiasmados com a perspectiva de derrubar um premiê.

Duce versus Judas. Quando Berlusconi entrou na Câmara na quarta-feira passada, aos gritos de "Silvio, Silvio", o premiê ergueu a mão em resposta aos cumprimentos. "Duce", gritaram da esquerda, e quando Fini fez soar a pequena sineta de prata, os da direita gritaram "Judas". Fini sorriu e pediu ordem. Ao término da tumultuada sessão, Berlusconi perdeu a estável maioria de que dispunha. Mas, graças à abstenção dos partidários de Fini, Berlusconi poderá permanecer no governo até a próxima votação, marcada para depois do recesso do Parlamento.

Para o premiê, as semanas até o fim do recesso, em 8 de setembro, serão difíceis. Ele vai preparar o partido para uma campanha eleitoral e armar-se para enfrentar o rival. "Precisamos escapar do atoleiro ao qual Fini nos conduziu", teria dito Berlusconi. "Caso contrário, sofreremos o mesmo destino reservado aos americanos no Vietnã." / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É JORNALISTA ESPECIALIZADA EM

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