O MAGNATA QUE TRAVA O TURISMO

Restrição a imigrantes é acompanhada de queda na procura por voos para os Estados Unidos

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18 Fevereiro 2017 | 18h23

Entre brasileiros, insegurança perde para a queda no dólar

Na apertada quitanda do bairro Upper West Side, a fila era longa, como acontece no começo da noite. Fregueses empurravam cestas de frutas, legumes e laticínios com suas botas ensopadas e um ar subjugado ao fim de um dia de forte nevasca. De repente, a voz se ergueu atrás de uma prateleira de enlatados: “O governo perdeu!”

Estranhos na fila começaram a conversar animados e sacaram seus celulares para conferir a decisão de 3-0, em que juízes federais da Califórnia mantiveram a suspensão do decreto que proibia a entrada de refugiados de qualquer parte do mundo e de cidadãos de sete países de maioria muçulmana. O dono da quitanda, nascido no Irã, um dos países afetados, abriu mais uma caixa registradora para aliviar a fila.

A Casa Branca deve apresentar na semana que vem uma segunda versão da ordem executiva. Seja qual for o conteúdo, o endurecimento em Washington sobre a imigração terá um efeito cascata no investimento sobre a economia do país.

Executivos da indústria de turismo americana se referem aos anos posteriores ao 11 de Setembro como a “década perdida”. O aumento de restrições para vistos e o maior escrutínio tiveram efeito muito além de países árabes ou com população de maioria muçulmana. A entrada de turistas estrangeiros só voltou em 2016 aos níveis anteriores aos do pós-atentado.

Duas semanas após o decreto, a consultoria de marketing Hopper anunciou que uma checagem em 300 milhões de buscas por voos internacionais registrou queda de 17% de procura de passagens para os EUA.

Um editorial do jornal de maior circulação do Canadá, o Toronto Star, no dia 30 de janeiro, sob o título “Hora de boicotar férias nos EUA,” ganhou repercussão. Turistas canadenses despejaram US$ 20 bilhões na economia americana em 2015. E há o fluxo de viagens de trabalho, responsável por 15% da entrada de estrangeiros dos EUA. Mais de 40 mil acadêmicos de vários países se juntaram a um movimento iniciado no Reino Unido para boicotar conferências em território americano.

A indisposição internacional com o tom isolacionista da campanha de Trump precede a ordem executiva do dia 27 de janeiro, mas sua exacerbação não surpreende Edward Alden, fellow do Council on Foreign Relations, um think tank com escritórios em Washington e Nova York. Ele é coautor de um estudo publicado em outubro sobre o impacto potencial de uma proibição ampla à entrada de muçulmanos nos Estados Unidos.

Ao Estado, Alden disse que a percepção de um país mais fechado e hostil a estrangeiros pode criar um impacto semelhante ao do atentado de 2001. “Veja o exemplo do Brasil, um país com enorme território. Com a exigência de entrevistas para novos vistos, qual família de classe média que vai viajar até o local de um consulado para poder tirar férias nos EUA?”

Vice-presidente de comunicações da agência de turismo da cidade de Nova York, a NYC & Company, Christopher Heywood reitera que a cidade quer se destacar como a metrópole que abraça o estrangeiro e a diversidade. Nova York recebe em média 30% dos 76 milhões – dados de 2015 – de estrangeiros que visitam os EUA e eles têm um impacto de US$ 30 bilhões da economia da cidade.

Heywood admite que a agência já examina uma campanha para dispersar temores de turistas. Lamenta que a ordem tenha ocorrido quando o número de turistas brasileiros na cidade, em queda pela recessão e alta do dólar em 2015, tenha voltado a subir. Ele espera que 2016 tenha fechado com cerca de 822 mil turistas do Brasil, num total de 12,6 milhões de visitantes estrangeiros em Nova York.

Concorrência. Em Washington, Edward Alden cita outro sintoma da reação ao clima anti-imigrante: consultorias em Vancouver estão tentando atrair profissionais do Vale do Silício, cujas empresas empregam estrangeiros dos sete países de maioria muçulmana. Mais de 100 empresas do Vale se juntaram a um desafio legal à ordem executiva sobre imigração. Por US$ 6 mil, a TrueNorth, em Vancouver, oferece passagem aérea, hospedagem e assessoria jurídica para o profissional obter visto de trabalho no Canadá. Vancouver fica a 2 horas e 20 minutos de São Francisco, a metrópole mais próxima ao Vale, de avião.

No estudo inicial sobre uma restrição mais ampla a muçulmanos, Edward Alden e os coautores Robert Kahn e Hedi Crebo-Rediker previram uma perda potencial de 50 mil a 130 mil empregos. Alden prefere não atualizar a previsão no cenário atual. Mas faz uma advertência: “Lembre que os viajantes internacionais tiveram boa vontade e paciência com a burocracia depois do ataque de 11 de Setembro que matou mais de 3 mil pessoas. Desta vez, é diferente.”

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