Daniel Suen/AFP
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O mais recente alvo da repressão de Hong Kong: livros infantis

Uma história que retrata a polícia como lobos ajudou a levar à prisão cinco líderes de um sindicato de fonoaudiólogos

Austin Ramzy e Tiffany May, The New York Times, O Estado de S.Paulo

23 de julho de 2021 | 10h00

HONG KONG - As fofas ovelhas brancas eram constantemente acossadas por lobos, que derrubavam suas casas, comiam sua comida e até espalhavam gás venenoso. A situação ficou muito difícil e as doze ovelhas que tentavam defender sua aldeia se viram forçadas a fugir de barco. Mas acabaram capturadas e mandadas para a prisão.

Essa história foi contada num livro infantil publicado no ano passado em Hong Kong. As ovelhas representavam doze ativistas presos no mar enquanto tentavam fugir para Taiwan. Os lobos eram a polícia de Hong Kong.

Na quinta-feira, a polícia prendeu cinco líderes do grupo responsável pelo livro, um sindicato de fonoaudiólogos, acusando-os de incutir nas crianças o ódio ao governo.

Com as prisões, as autoridades expandiram a repressão ao discurso político para o nível mais elementar dos materiais impressos, com o objetivo de reprimir a dissidência manifestada durante os protestos em massa de 2019.

Horas depois, em outro movimento contra vozes opositoras, quatro editores e executivos do Apple Daily, um jornal pró-democracia que foi forçado a fechar no mês passado, foram indiciados e tiveram sua fiança negada. Eles são acusados de conluio com potências estrangeiras sob uma ampla lei de segurança nacional que Pequim impôs a Hong Kong no ano passado.

Mais de cem pessoas foram presas sob essa lei, entre elas dezenas dos políticos de oposição mais proeminentes de Hong Kong.

O Apple Daily, que já foi um dos maiores jornais da cidade, tem sido a voz mais atuante sob a mira da polícia. Foi fechado depois que as autoridades congelaram suas contas e acusaram seu fundador, Jimmy Lai, e seis editores e executivos de violar a lei de segurança ao pedir sanções americanas contra as autoridades de Hong Kong. Entre esses seis estavam os quatro processados na quinta-feira.

Mas, com as prisões dos membros do Sindicato Geral dos Fonoaudiólogos de Hong Kong, a repressão passou a envolver os livros infantis. A polícia disse acreditar que as publicações “visavam despertar o ódio público, especialmente entre as crianças”, contra o governo e as autoridades legais.

Li Kwai-wah, superintendente sênior do departamento de segurança nacional da polícia, disse em uma entrevista coletiva que o livro e outros publicados pelo sindicato “simplificaram e romantizaram questões políticas que as crianças não tinham como entender”.

Ele acrescentou que membros do sindicato “abusaram de sua profissão” para doutrinar crianças impressionáveis com opiniões antigovernamentais e incitar comportamento violento e criminoso.

Os cinco membros do sindicato foram detidos pelo departamento de segurança nacional da polícia de Hong Kong sob uma lei da era colonial a respeito de publicações sediciosas. Uma condenação judicial, que raramente foi usada nas últimas décadas, pode levar a até dois anos de prisão.

“É alarmante não apenas para os sindicatos, mas também para a liberdade de expressão como um todo, em termos de trabalhos criativos e até mesmo de metáforas e comentários”, disse Leo Tang, vice-presidente da Confederação de Sindicatos de Hong Kong, um grupo pró-organizações trabalhistas democráticas.

O sindicato dos fonoaudiólogos foi fundado em 2019, durante o auge dos protestos antigovernamentais, quando muitos novos sindicatos se formaram, em parte para desafiar o poder político de grupos trabalhistas mais antigos e alinhados a Pequim.

“Em Hong Kong, agora, as pessoas sem poder não são ouvidas, suas vozes não estão sendo ouvidas”, escreveu o sindicato em seu manifesto. “Somos um grupo de fonoaudiólogos e devemos caminhar ao lado das pessoas que não são ouvidas”.

O sindicato publicou outros dois livros infantis. Um deles conta a história de ovelhas que se organizam para manter os lobos, que são retratados como animais perigosos, fora de sua aldeia. Esse livro foi lançado no início de 2020, quando o campo da oposição de Hong Kong estava pressionando o governo para fechar a fronteira com a China continental para controlar a propagação do coronavírus. O grupo também publicou um guia de leitura e organizou eventos para os pais lerem os livros com seus filhos.

A polícia de Hong Kong, que já foi um bastião da liberdade de expressão, tem se irritado cada vez mais com as críticas às suas ações. Autoridades de segurança culparam o sentimento antigovernamental por inspirar um homem que esfaqueou um oficial e depois se matou em 1º de julho.

Raymond Siu, que no mês passado foi promovido a chefe de polícia, disse que a mídia é responsável pela raiva do público contra a polícia. Ele e seu antecessor, Chris Tang, que foi promovido a secretário de segurança, dizem que apoiam uma lei para restringir o que consideram notícias falsas, algo que o governo afirma estar avaliando.

Mesmo com a lei de segurança em vigor, charges políticas e obras de arte de protesto continuam a prosperar em Hong Kong, mas isso pode mudar em breve, disse Antony Dapiran, advogado e autor de dois livros sobre protestos na cidade.

“O medo instilado por essas prisões provavelmente acabará com isso”, escreveu ele no Twitter. / Tradução de Renato Prelorentzou.

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