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O mal-estar na civilização

O magnata abarcou com folga os votos de brancos da classe trabalhadora menos educada, como era previsto, mas parte desse eleitorado é o mesmo que ajudou a eleger e reeleger o primeiro presidente negro dos EUA, Barack Obama, em 2008 e 2012

Adriana Carranca, O Estado de S. Paulo

12 de novembro de 2016 | 06h00

A jornalista brasileira Fernanda Santos conversava ao telefone com uma amiga mexicana em um café de North Phoenix quando percebeu que um senhor a encarava. “Quando eu desliguei, ele me disse: ‘fale em inglês!’”. Fernanda é casada com um americano, tem uma filha nascida nos EUA e é uma das mais bem sucedidas repórteres do New York Times.

Em inglês fluente, ela respondeu a ele que falava quatro línguas. Queria dizer mais, deixar claro que não planejou viver nos EUA, mas foi lá que construiu a vida após se casar e sempre se sentiu bem-vinda no Arizona, onde vive há quatro anos com a família. Mas antes que pudesse continuar, o homem bradou: “Fuck off!” 

“Talvez ele fosse suficientemente velho para ser meu pai. Estou tremendo”, escreveu Fernanda em sua conta no twitter. “Como imigrante e repórter do NYT, eu nunca me senti mal acolhida. Hoje, eu me senti.” Há inúmeros relatos de episódios similares nos últimos dias.

Em “O Mal-estar na Civilização”, Freud observou que o esforço coercivo do homem para se tornar civilizado continuava fraturando seus relacionamentos sociais, resultando, em última instância, em atrocidades indescritíveis contra a Humanidade. Para Freud, o homem não é naturalmente gentil. Seu instinto é de agressividade. E o mal-estar deriva da necessidade de conter seus impulsos, da renúncia à satisfação, “a grande conquista cultural”, para viver em sociedade. 

Há inúmeras formas de explicar a vitória de Donald Trump à Casa Branca. Mas a verdade é que, apesar da pregação do absurdo do magnata, Hilary Clinton não conseguiu apoio suficiente para conquistar 270 votos no Colégio Eleitoral e derrotar o republicano. 

Supremacistas brancos apoiaram Trump em massa (sua vitória foi celebrada publicamente por David Duke, ex-líder da Ku Klux Klan), mas esse eleitorado ultrarradical sozinho não garantiria vitória ao republicano. 

A questão racial é um fator certamente relevante. O magnata abarcou com folga os votos de brancos da classe trabalhadora menos educada, como era previsto, mas parte desse eleitorado é o mesmo que ajudou a eleger e reeleger o primeiro presidente negro dos EUA, Barack Obama, em 2008 e 2012.

Obama teve índices de votação piores do que qualquer candidato democrata entre eleitores brancos desde 1984, mas esse resultado foi puxado principalmente pelos sulistas. Ele teve o apoio de boa parte da classe branca trabalhadora e rural do norte, que nesta eleição votou de forma esmagadora em Trump – apesar de ter como opção uma candidata também branca.

Talvez os americanos não estejam preparados para votar em uma mulher. Mas o que explica a surpreendente parcela de 42% das mulheres que votaram em Trump, mesmo depois de divulgado áudio em que o magnata se enaltece de suas qualidades como homem das cavernas, tocando mulheres à revelia de seu consentimento? Hillary conquistou 54% de votos femininos, mais do que Trump, mas menos do que Obama em 2012, mesmo sendo mulher e concorrendo com um misógino declarado. 

Entre as brancas apenas, Trump ficou com 53% dos votos. Entre as latinas, 26%. Entre hispânicos em geral, Hillary teve 65% dos votos, aquém de Obama (71%), enquanto Trump conseguiu atrair mais apoiadores que Mitt Romney, em 2012 (29% contra 27%), mesmo defendendo inúmeras vezes a expulsão de imigrantes dos EUA e a construção de um muro na fronteira com o México.

A vitória de Hillary dependia largamente das minorias que votaram em massa em Obama nas duas últimas eleições. Mas a apoio a ela, embora maior do que a Trump, não foi suficiente. Ela só conseguiu larga vantagem entre negros (88%), também aquém de Obama (93%). Entre outras minorias, como asiáticos, teve 65% dos votos, menos do que os 73% para Obama em 2012.

A preferência do eleitorado mais velho por Trump era clara, o que exigiria boa margem de Hillary entre jovens. Ela teve 55% dos votos de eleitores com até 30 anos, 5% menos do que Obama em 2012; 37% desses jovens votaram em Trump. 

“Trump foi alçado à Casa Branca por uma onda de insatisfação popular”, escreveu a Economist, atribuindo a isso, em parte, a estagnação da renda média dos homens americanos. Mas mais da metade (52%) dos eleitores de baixa renda (até US$ 50 mil por ano) votaram em Hillary. Além disso, o índice de desemprego nos EUA despencou na era Obama – de 10% em 2009 para 4,9% hoje. Mais de 20 milhões se beneficiaram com o Obamacare.

O que é certo sobre a vitória de Trump – assim como do Brexit – é que velhas certezas produziram uma massa de descontentes. Trump soube explorar a insatisfação do homem como ninguém e abrir caminho para uma era de incivilidade. 

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