Takashi Ozaki/AP
Takashi Ozaki/AP

''O mar destruiu tudo o que tinha''

Moradores de Miyako retiram lama de casas e tentam retomar a vida normal

Cláudia Trevisan, O Estado de S.Paulo

19 de março de 2011 | 00h00

A lama negra ainda cobre as ruas de Miyako, cidade portuária atingida pelo tsunami que devastou a costa nordeste do Japão há uma semana. Corpos continuam sendo retirados dos escombros e muitas pessoas ainda não conseguiram obter notícias de familiares que estavam em outras cidades. Em vários pontos da costa, os celulares não funcionam.

A maior parte do entulho e dos carros arrastados pelas ondas para as ruas principais da cidade já foi retirada, mas os barcos continuam estacionados em terra firme. Os que ainda possuem casas, lojas e restaurantes trabalhavam ontem para retirar a lama dos edifícios e jogar o que foi estragado pela água - o que significava quase tudo.

Os que ficaram só com a roupa que vestiam no dia da tragédia ainda não sabem o que será de suas vidas a partir de agora. Osamu Kimura, de 62 anos, e sua mulher, Tokito, de 70 anos, acreditavam que a vida seria mais tranquila este ano, já que haviam terminado de pagar o financiamento para a compra da casa em que moravam e onde funcionava um restaurante no térreo.

Na semana passada, o edifício foi arrastado pelo tsunami, do qual o casal só escapou porque correu para uma ponte localizada nas proximidades. Nascidos no interior do Japão, eles se mudaram para Miyako porque queriam viver em uma cidade de praia.

"Queríamos estar próximos do mar azul e vimos tudo o que tínhamos ser destruído pelo mar negro", lamentou Osamu ontem no abrigo em que estão junto com outras 100 pessoas.

Como todos os entrevistados pelo Estado que estão na mesma situação, eles não têm nenhuma ideia do que farão nem de quanto tempo terão de viver no refúgio provisório, montado em salas de aula de uma escola primária. Em muitos deles, não há aquecimento nem infraestrutura para banhos.

Katsuzo Hatakeyama também perdeu a casa onde viveu por 50 anos com sua mulher. Depois do terremoto, ele correu para a montanha para fugir do provável tsunami. Chegou cinco minutos antes de as ondas invadirem a cidade e viu cenas de horror.

"Outro homem que também tentava escapar não chegou a tempo na montanha e eu vi quando ele se agarrou a um barco para não ser levado pela água, mas não conseguiu." Da montanha, ele também viu a água arrastar navios, carros, casas e destruir a ponte ferroviária de Miyako.

Com três filhos de 2, 5 e 8 anos, Hidetaka Furudake e sua mulher também perderam tudo que tinham. "Não podemos fazer nada agora, mas tentamos pensar positivo, já que sobrevivemos", disse Furudake, com os três filhos e a mulher, que comemorou o aniversário ontem no abrigo.

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