O mar que une Havana e Miami

No amanhecer da sexta-feira da semana passada, aportou em Havana o barco Ana Cecilia, de pouco mais de 90 metros de comprimento, com uma carga inusitada. Era do primeiro despacho direto dos Estados Unidos para Cuba em mais de 50 anos.

Yoani Sánchez, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2012 | 03h05

A embarcação zarpara na quarta-feira com um carregamento composto fundamentalmente por produtos de primeira necessidade - alimentos, remédios, comida e artigos de higiene pessoal - enviados por exilados cubanos a seus parentes na ilha.

O barco foi recebido pelas autoridades portuárias e atracou diante do olhar curioso de alguns transeuntes. Sem dúvida, é um acontecimento inédito desde a decretação, em 1961, do embargo americano à maior das Antilhas.

Até o momento, era possível realizar apenas remessas comerciais de produtos agrícolas feitas por companhias americanas, segundo uma lei aprovada pelo Congresso deste país em 2000. A medida permitiu, por mais de uma década, ao governo cubano comprar grandes quantidades de grãos, frango congelado e demais produtos alimentícios do vizinho.

"Agora sim, meu irmão em Hialeh poderá me mandar as peças para o velho Chevrolet", comentou Manolo, um pescador que observava a chegada do Ana Cecilia da mureta do Malecón. Enquanto isso, dois jovenzinhos tiravam fotos de si mesmos tendo ao fundo a grande estrutura azulada do barco.

"Esse é um dia histórico", disse uma pessoa, enquanto acenava com um lado da bandeira americana que cobria sua cabeça. Outros entrevistados expressaram também sua satisfação pela nova linha de transporte direto que se estabeleceu entre ambas as margens do mar e recomendaram "aumentar a segurança e os controles no porto para proteger a carga". Não se ouviu nas imediações uma única palavra de ordem anti-imperialista.

Autorização. O Ana Cecilia viajou sob bandeira boliviana e com nove marinheiros, também bolivianos. A viagem foi realizada por meio da companhia International Port Corporation (IPC), radicada no Estado da Flórida e fundada em 2008.

A IPC obteve uma licença do Departamento do Tesouro dos EUA para levar o navio até Cuba. A autorização se inscreve na lista de flexibilizações impulsionada pelo governo de Barack Obama, que promoveu o intercâmbio cultural e acadêmico, ampliou o montante das remessas enviadas pelos cubano-americanos e aumentou o número de viagens que eles podem fazer à ilha.

A IPC espera repetir a mesma travessia pelo menos uma vez por semana. O frete de meio quilo de carga custará US$ 5.99. O que significa um barateamento muito grande em comparação aos preços atuais do envio dos Estados Unidos.

Os exilados cubanos poderão despachar todo tipo de artigos de primeira necessidade: roupa, comida, móveis e de produtos para o lar, mas também material de construção, geradores elétricos e peças de veículos.

Alguns sugerem que esse pode ser o primeiro passo para permitir também que os cubano-americanos viagem da Flórida para Cuba de barco, possibilidade que hoje não é existe.

Até agora, essas mercadorias deviam viajar por meio de terceiros países, o que encarecia e atrasava o transporte, que podia demorar até dois meses para chegar à ilha. O risco de extravio ou de deterioração das mercadorias era também muito grande nestas condições.

A nova iniciativa procura proporcionar um serviço de maior eficiência e celeridade. Os destinatários poderão retirar seus pacotes no Porto de Havana ou recebê-los a domicílio. Para os que residem nas províncias afastadas da capital, as entregas demorarão até duas semanas.

A empresa cubana encarregada do transporte até as casas dos destinatários será a CubaPack, que é autorizada pela Alfândega Geral para esse tipo de serviço. Entretanto, a viagem do Ana Cecilia até a ilha não esteve isenta de controvérsia.

A parlamentar americana de origem cubana, Ileana Ros-Lehtinen, assegura que o barco viola a lei Helms-Burton, que obriga toda embarcação que se dirige a Cuba para fazer negócios a esperar 180 dias para poder tocar o território americano. Os diretores da IPC dizem que o Ana Cecilia dispõem de todas as autorizações.

O paradoxal da situação é que o governo de Cuba acaba de pôr em vigor novamente os impostos aduaneiros sobre a importação de alimentos.

Efeito negativo. Até o dia 18 de junho, esses artigos estavam isentos de impostos, o que contribuiu consideravelmente para a abertura de restaurantes e cafés privados. As pessoas que trabalham por conta própria beneficiaram-se, nos últimos meses, da maciça entrada de condimentos, grãos e outros produtos culinários, mas as lojas estatais, em divisas estrangeiras, sofreram uma queda de vendas.

A partir do dia 3 de setembro, além disso, aumentará de forma significativa o imposto sobre o ingresso de artigos não comerciais, como vestuário, móveis e eletrodomésticos. Especula-se que o governo de Raúl Castro tomou essas medidas para promover o consumo da produção nacional e também para privilegiar o ingresso de remessas de dinheiro além do envio de pacotes.

Entretanto, o efeito negativo para a economia familiar será sentido, principalmente, entre os que dependem da ajuda procedente de uma nação que, para a propaganda oficial, continua sendo "o inimigo". / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

 

É JORNALISTA CUBANA, AUTORA DO BLOG GENERACIÓN Y E COLUNISTA DO ESTADO

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