Philippe Wojazer, Pool via AP
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Gilles Lapouge
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O marechal na Europa

Apesar de suas maneiras detestáveis, Sissi conta com a compaixão da Europa

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

25 Outubro 2017 | 10h29

É um clássico da diplomacia mundial: o chefe de um Estado que atropela os direitos humanos é convidado a visitar uma capital ocidental democrática. Imediatamente, jornalistas e ONGs lembram que o visitante está coberto de sangue e seu país vive cheio de inocentes presos. É o que ocorre em Paris, onde Emmanuel Macron recebe o presidente do Egito, o marechal Abdel Fattah al-Sissi. ONGs e políticos, suplicaram a Macron para demonstrar algum descontentamento.

Assim, ficamos mais tranquilos, mesmo sabendo que o marechal está pouco se lixando. No mínimo é uma oportunidade para a imprensa levantar um pouco o impenetrável véu que esconde do mundo exterior o que ocorre no Egito. Sissi foi levado ao poder por um golpe que depôs o regime de Mohamed Morsi, líder da Irmandade Muçulmana. Livrou, portanto, o Egito da maldição de ter um governo próximo aos islamitas. Mas, uma vez no poder, ele passou a governar com mão de ferro, com a justificativa de combater o jihadismo.

Será que os métodos ferozes de Sissi conseguiram conter os jihadistas? De modo algum. Há apenas oito dias, os terroristas atacaram um oásis ao sul do Cairo, fazendo uma carnificina. Quantos mortos? É difícil responder, pois o regime segurou a informação. O governo diz que foram 16 policiais mortos. ONGs garantem que foram 54 (dois com patente de general).

A polícia de Sissi é feroz. Algumas ONGs descrevem o Egito como “túmulo dos direitos humanos”. Sessenta mil pessoas foram presas desde 2013. Na maioria, membros da Irmandade Muçulmana, mas também da esquerda democrática e, como sempre, um punhado de homossexuais e jornalistas. Nesse período, houve 81 execuções e 1.700 pessoas desapareceram.

A dificuldade de chamar à razão um ditador como Sissi é que ele é útil para o Ocidente. Para começar, fechou o acesso a seu país (e a todo o Norte da Árica) à Irmandade Muçulmana, que em seguida teria apoiado organizações ainda mais cruéis. “Um jihadista”, diz Sissi, “é um membro da Irmandade Muçulmana em fase terminal.”

O segundo trunfo do Egito é ser um dos maiores países da África - muito pobre, mas poderoso e culturalmente evoluído. O Egito exerce uma incontestável influência sobre os vizinhos. Assim, o Cairo tem papel decisivo no “caldeirão em eterna ebulição” do Norte da África e do Oriente Médio. 

Um exemplo: velhos inimigos, o Hamas (organização palestina extremista de Gaza) e a Autoridade Palestina se uniram após anos de ódio. Esse avanço foi facilitado por diplomatas egípcios. Sissi tenta também ajudar a Líbia, destroçada entre dois governos inimigos, a reconquistar a unidade. Nesse caso, o próprio marechal lidera o esforço.

Com a derrota do Estado Islâmico, destituído de suas terras no Iraque e na Síria, “soldados da morte” fugidos de Mossul e de Raqqa, entre os quais voluntários europeus, procuram se infiltrar no Norte da África. Mas, para chegar à Líbia, eles têm de cruzar o Egito. Isso permite a Sissi servir de obstáculo.

Por isso, Sissi, apesar de suas maneiras detestáveis, goza de certa indulgência por parte das democracias europeias. O caso da França é eloquente: o antigo ministro da Guerra de François Hollande, Jean-Yves Le Drian, hoje chanceler de Macron, sempre manteve relações cordiais com Sissi. 

Cabe acrescentar que a França tem uma forte indústria bélica. Como o Egito gosta muito de guerra, o arranjo está feito: de 2015 para cá, o Cairo comprou mais de € 6 bilhões em armamento francês - incluindo 24 caças Rafale, uma fragata, dois porta-helicópteros Mistral e outras delicadezas. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

* GILLES LAPOUGE É CORRESPONDENTE EM PARIS

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