O matador e as eleições

Foi um bom trabalho e com grande presteza! Quarenta e oito horas após ter assassinado crianças e um homem numa escola judaica em Toulouse, o matador foi encontrado pela polícia na mesma cidade. Desde a madrugada de ontem, quarta-feira, ele foi cercado em seu apartamento por forças especiais da polícia.

GILLES LAPOUGE, O Estado de S.Paulo

22 Março 2012 | 03h08

O demônio existe, portanto. Ele tem uma identidade. Mohammed Mehra. Ele tem um percurso, uma biografia, em vez de ser, como anteontem, um fantasma, um monstro invisível que podia sair a qualquer momento de suas trevas e atacar de novo. Bela façanha das forças da ordem. Bela façanha de Nicolas Sarkozy, que não vacilou e mostrou sua força.

O que nos informa a identidade? Primeiro que a matança de soldados e de judeus não foi perpetrada por neonazistas como alguns diziam, mas por um muçulmano que se declara da Al-Qaeda. Primeira lição: a Al-Qaeda, desmantelada após a morte de Osama bin Laden no Paquistão, continua por aí.

Não parece, é claro, que o matador de Toulouse tenha sido mandado, equipado, amparado e ajudado pela Al-Qaeda. Isso não impede que a Al-Qaeda, mesmo na sua qualidade de ideóloga do assassinato, continue sendo uma ameaça terrível. E a França, o país da União Europeia que abriga a maior comunidade judaica e a maior comunidade muçulmana, é um alvo óbvio para a nebulosa Al-Qaeda.

Verifica-se também nesta ocasião que o antissemitismo, o "ódio ao judeu", longe de ter desaparecido como a polícia pretende, continua lá: tenaz, maciço, indelével, imundo. Ele pode parecer adormecido, mas dorme com um olho aberto. Ao primeiro pretexto, desabrocha de novo e semeia a morte. E o ódio ao judeu, assim como o ódio paralelo e contrário ao muçulmano, não desapareceu, embora seja no coração da França que o combate entre judeus e árabes prossegue. Perigo extremo.

Outra revelação: o matador de Toulouse havia feito várias viagens ao Paquistão e ao Afeganistão preparando-se para a jihad (guerra santa muçulmana) e revigorando seus ódios. Fica-se sabendo agora que a viagem ao Afeganistão é um rito ordinário para os jovens muçulmanos dos "quartiers" (assim são chamadas as periferias de Paris povoadas de imigrantes que o governo jamais conseguiu, nem quis, integrar à sociedade).

Esses jovens muçulmanos que vão e vêm do Afeganistão são conhecidos, pois são identificados nos aeroportos quando viajam. A polícia tem uma lista de mil franceses ou imigrantes que passaram pelo Afeganistão ou pelo Paquistão. Nesse aspecto, um funcionário de alto escalão soltou uma informação muito curiosa na manhã de ontem. Ele disse: "Claro, esse Mohammed Merah nós conhecíamos. Ele estava sob vigilância." Se isso é verdade, e deve ser, é de pasmar. Como pode ser que, logo depois do primeiro assassinato, de um militar, na mesma cidade de Toulouse, a polícia não tenha ido direto prendê-lo? Ontem à tarde, no enterro de outro soldado morto pelo homem cercado, Sarkozy estaria presente, na cidade vizinha de Montauban, mas ali ele teria a companhia de outros candidatos, entre eles o socialista François Hollande: bela imagem de unidade nacional. Ante a barbárie, a nação se reencontra. Nada de mais normal: como as pequenas brigas da esquerda e da direita poderiam empestar ainda mais o país no momento em que se conduz a seu último repouso as vítimas da loucura partidária, religiosa ou étnica? Sarkozy foi perfeito. Ele dirigiu com mão de mestre as operações.

Pronunciou vários discursos emocionados. Soube não parecer um oportunista, pavonear-se como geralmente fez em outras circunstâncias. E o socialista Hollande deu prova do mesmo comedimento.

Mas nada de ilusões. A batalha das eleições presidenciais recomeçou com a mesma violência e mediocridade. Desde ontem, cada candidato preparou sua ofensiva, retificou seus programas, adaptou-se ao novo dado para tirar do episódio sombrio de Toulouse o maior benefício possível.

Quem sairá mais fortalecido desse episódio será Nicolas Sarkozy, evidentemente. Primeiro pela maestria que ele vem revelando há oito dias. Depois, porque em sua qualidade de "chefe de guerra", foi visto em todos os jornais de TV, sóbrio, digno, resoluto, modesto. Um verdadeiro "profissional". E de mais a mais, quando a nação está em perigo, os cidadãos naturalmente dão mais confiança à direita (considerada mais forte, responsável e mais bem armada) que à esquerda, com sua reputação de frouxa, humanista, molenga.

Esses poucos dias subverteram o quadro da França e o perfil das eleições presidenciais (o primeiro turno ocorrerá em 22 de abril e o segundo, em 6 de maio). Há oito dias, o socialista Hollande era favorito. A rejeição visceral do povo francês a Nicolas Sarkozy abria um estrada real para a esquerda. Hoje, a mesa foi virada, as cartas foram redistribuídas, e Sarkozy recebeu alguns curingas em sua mão.

Há quinze dias, antes portanto do primeiro assassinato em Toulouse, o diretor do jornal L'Express (jornal mais à direita), Christophe Barbie, escrevia um editorial profético: "A única chance de Sarkozy reside num acontecimento inesperado, internacional, excepcional ou traumatizante. Somente uma catástrofe pode abrir uma chance de reeleição a Sarkozy". TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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